segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

PAVÃO MISTERIOSO

Estávamos eu e Piroka, jogando conversa fora. De repente, ele se lembrou que havia assistido a um programa, onde aparecia o Noca da Portela. Lembra da casa de Noca?
Sim, eu e ele, temos um mau gosto parecido. Gostamos do Noca, da Velha Guarda da Portela, da Clementina de Jesus e de alguns outros nomes. Eu particularmente, acho que se a Narcisa não tivesse passado na minha frente e eu visto tudo aquilo atrás, com Henê Maru no cabelo e umas meia-calças para fora do biquíni, nem seria simpatizante do Salgueiro. Quem sabe, talvez da Portela? Não, o pai do Candeia era muito antipático.
Hoje em dia, umas mulheres com a barriga muito próxima a do Mike Tyson, as pernas do Pelé, nos bons tempos de craque e umas cinturas retas, como a do Eder Jofre, quando ainda vencia campeonatos, arvoram-se a se intitular de musas. Imagina! Quando não, aparecem umas mulheres cem, faltando pouco para quebrar a coluna vertebral para mostrar alguma saliência lordósica e todo mundo fica babando. “Oh, a Gisele Cem. Sem bunda, sem peito, sem cintura, sem nádegas. Só Bündchen, mas é top-model, então deve ser gostosa, nem se for no grito. É ma-ra-vi-lho-sa.” Dito por quem gosta muito de macho...
E a Narcisa, nem precisava gritar para chamar a atenção. Ficou esquecida. Menos por mim. Mas a Bündchen da outra, tem de fazer o maior alarido. Então todo mundo olha, mesmo que não se veja, nem um quarto da Narcisa. E a Narcisa deve estar pobre. Viveu em um tempo em quem explorava o corpo, vivia em volta do cais. Ou estivador, ou prostituta. E a outra, só deposita na poupança, em euros. Por quê? Por que a Narcisa sambava muito, mais não sabia piar. A outra não faz nada além de muito barulho e está “antenada” à realidade. Ninguém pode nem encostar nela, por que tem um exército todo a seu encalço.
A Narcisa nunca foi Rainha de Bateria, mesmo por que naquele tempo, não existia essa modalidade em sentido. Rainha era de festa junina, onde a menina que arrecadasse mais, vencia. Quem sabe, um laboratório para os dias de hoje, onde as meninas que arrecadam muitos, posam para as revistas masculinas, para ganharem mais.
Quem aparecia nas escolas de samba tinha de saber sambar. E era da comunidade mesmo. Hoje em dia, vem de lugares onde nunca se sambou, mas sabe fazer muito barulho. Sambar? Talvez pular daqui para ali e de lá para cá. Parece que estão pulando corda na frente da bateria. Samba mesmo, não precisa. Elas não podem se desgastar, para não aparecerem cansadas nas sessões de fotos, depois do carnaval. Quem sabe, algum playboy italiano as compre?
As coisas mudaram muito. Até podia ouvir o Teixeirinha e a companheira que fazia dupla com ele, Jane e Erondi, mas hoje em dia passou Bello, Xitãozinho e Chororó, Fabio Jr, Inimigos da HP, Pity, NX Zero, Cachorro Grande... Pelo o amor do Divino Espírito Santo, é querer empurrar qualquer porcaria, goela abaixo. Não dá. E não sei quem mudou se eu, ou a música baiana que eu acho que está começando a desandar. É uma repetição, uma queda na produção e o mesmo timbre, parece estoque de fábrica. É Claudia Leite, Ivete Sangalo, todo mundo que apareceu de uns tempos para cá, a mesma coisa. Voz, estilo e chatice. E até que eu gostava mutcho. Só estão se salvando o Filhos de Gandhi e a Magarete Menezes. O resto... Grudou, como chiclete no sapato, mas a águia levou, nas mil e uma noites.
Mas vamos deixar os novos baianos para lá e entrar no que interessa, pois parece que baiano é assim mesmo. Ficou famoso, fica um porre. Que o diga o Caetano, como se estivesse sempre em um pedestal, no altar-mor, como o santo principal. E depois não sabe por que “alguma coisa acontece no meu coração, é quando cruzo a Ipiranga com Avenida São João...” E ele não sabe. Bobinho! Eu, na minha inocência puritana e simplória, acredito que seja, por que Ipiranga e São João, é um cruzamento onde muita gente alegre, desfila para cá e para lá. E quem tem bolsinha, até roda, como se fosse carnaval, onde aqueles meninos parrudos fantasiados de menina-moça brincam de locomotiva, puxando um monte de vagões atrás. Ele se sentiu o próprio. Pensou que estivesse num trenzinho elétrico e puxou a folia. Apaixonou. Caiu de boca. Cala-te boca!
Mas conversávamos, como essa gente de antigamente, é simples. O Noca, foi Secretário de Estado de Cultura e vive do mesmo jeito. No Engenho de Dentro ainda. Parece que o pessoal daquele tempo, não tinha mania de pegar o que não era seu. Entrava para um cargo e tinha um contrato para receber tanto e recebia tanto. Diferente dos de hoje que entram para ganhar tanto, mas já vão pensando em receber muito mais, por que não são bobos como os antigos. Imagina se o cara é Secretário de Estado hoje em dia e sai do mesmo jeito que entrou? Seria considerado, no mínimo otário. Isso se a comunidade não linchasse, pelo desserviço que realizou. É o salve-se quem puder de qualquer maneira. Está todo mundo afundando o barco no meio do oceano, sem um único salva-vidas, para ficar rico sozinho.
Então, Piroka se admirou da casa do Noca, bem atrás do gol do Engenhão. Mora próximo do Engenhão? “Deve ser botagoguense”. Logo vi. Pessoa de tão bom gosto assim...
E ainda não sei onde fica o Engenho de Dentro. “Próximo a Del Castillo”. Só sei que é longe pacas. Em Del Castillo só conheço o outlet e o metrô pára exatamente embaixo do shopping.
O que custa na loja Hugo Boss em Manaus, R$ 350,00, no outlet, é capaz de se encontrar a mesma coisa por R$ 80,00. É loja de fábrica. Outlet. E em Manaus não existe um outlet sequer, mesmo com o Pólo Industrial. Vai ver que somos ricos demais. Ou senão, estamos “conectados” ao mercado. Queremos nos mostrar ricos, mesmo sem podermos. E principalmente quando não somos.
E o Noca, apesar de tudo, é de uma simplicidade aviltante para os dias de hoje. Talvez, depois do tal de Marketing Pessoal, seja proibido ser simples. Todo mundo tem de se mostrar, nem que seja seu lado mais horroroso, mais degradante. Tem de dizer que se vendia em troca de sexo, para virar notoriedade, alguma coisa assim. Mas tem de aparecer, mesmo não sendo nada.
É como se pode ver neste ano de 2008, no centenário de nascimento do Cartola, um dos fundadores da Mangueira, uma das primeiras escolas de samba que apareceram no Rio e ficava exatamente na estação primeira das paradas dos trens. Aliás, esse negócio de iludir os outros, com marketing meio estranho, é bem coisa da Mangueira. É muita falação, muita ilusão, para atrair os trouxas.
Mas vamos ao centenário do Cartola. Neste ano quem foi que virou notícia na Mangueira? O ex-presidente que levou a escola para abrilhantar o casamento do Fernandinho Beira-Mar. Deve ser por que são vizinhos de morro e de comunidade. A Rainha de Bateria, imposta pelo Bello, aquele pagodeiro que não canta nada, mas tem influência no tráfico. Ou seja, exerce um grande tráfico de influência e manda e desmanda, onde os “meninos” estão atuando. A porrada no ensaio na Sapucaí, entre o Ivo Meireles e um diretor de harmonia que acabou no afastamento do Ivo que não viu a uva na vulva da Vivo.
Entre o Bello e o Cartola, mesmo achando muitas músicas do segundo, muito maçante, meio ‘ai meu Deus estou sofrendo” ainda fico disparo, com o Cartola, sem dúvida.
E enquanto o Cartola compositor, letrista, quase um poeta, fundador de uma das mais importantes escolas de samba do Brasil, era um pouco – nem tanto também - humilde, o Bello, uma imagem feita e implantada na mídia, é a própria imagem da soberba, só por que... Por que faz o que mesmo? Sabe que eu não sei? Deve ser instrutor de musculação, halterofilismo, ou fisiculturismo, pois só aparece com mulher musculosa da unha do dedão do pé, até o esmalte do dedinho da mão. Quem aparece mais hoje? O Bello, mesmo sendo centenário do Cartola. Ele está em conformidade com o mercado. E o mercado está mais para vitrine do que conteúdo. Mesmo que o acabamento seja de péssima qualidade.
Então lembrei de quando era criança e ia ao Rio e ficava em Botafogo. Lógico, tinha de ser em Botafogo. Queria que eu ficasse em Fluminense? Coitado, nem tem. Ou Vasco da Gama? Não adianta. É Botafogo e está decidido.
Embaixo do prédio, havia uma loja de artigos de material esportivo e brinquedos de criança. E o dono, de vez em quando aparecia. Lembro que o dono da banca de revista que ficava em frente, sempre dizia: “Fala... Tudo bem? Você conhece o homem? Pô!” Eu conhecia, mas não sabia quem era aquele senhor que brincava comigo, falava com todo mundo e eu nem aí para ele. Para mim e como se comportava, era mais um na multidão. Simples, legal, como toda pessoa simples e sem querer se mostrar, apesar de ser uma lenda. Depois de anos, quando cresci, na idade, não no tamanho. Continuo com um metro e pouca gala, vim saber quem era o cara. Não, não era marrento, não cuspia quando falava, mas era o cara. De verdade. E lógico, para ser humilde tinha de ser do Botafogo, em Botafogo. Quer mais? O Niltão, também conhecido como Nilton Santos. O cara. De verdade. E sem tanto marketing que se faz hoje, por pouca coisa. Até para marcar mil gols, os caras de hoje, têm de computar gols feitos em peladas, ir jpgar nos Emirados Árabes, os Estados Unidos, a Austrália, na Papua Nova Guiné, onde até eu, seria o cara. Ninguém joga mesmo. Mas os caras de hoje, parecem que se sentem acima da nave do templo. Nem tocam no chão.
Se a Clementina de Jesus tivesse nascida nos EUA, iríamos consumir as músicas cantadas por ela, nos deliciando, como nos deliciamos ouvindo as musas do jazz. Mas foi nascer brasileira e antigamente, fazer o quê? Não dá nem para perguntar quem é a Clementina que poucos saberão responder. Agora pergunta quem é a Wanessa Camargo, a Sandy & Jr, a Marjorie Esteano – por que no ano que vem, nem com graça -, a Kelly Key... Umas vozes sem extensão alguma. A moda é parecer engasgada. Está mais para a Joelma da Banda KY e para a Adriana Calcanhoto Parlimpim pom pom. Se elas cantam, nem se ouvem os instrumentos. E se alguém tosse, ninguém entende mais nada. Discípulas dos João Gilberto. Mas ele, é pura frescura. Elas não alcançam mesmo.
E a Clementina era tão humilde, Devia até ter medo de se olhar no espelho. Compreensível. Chega perto da Calcanhar de Ceroto... Vai ver que é por que uma tem os olhos azuis e a outra nem dentadura. Só pulmão.
É, antigamente as pessoas eram educadas, para não falarem de si. Era deselegante. Deixavam que os outros vissem as suas obras que deixavam para a posteridade. Muitos com apenas o ensino primário, faziam obras que muito doutor não chega próximo. Hoje, o ensino é outro. Tem gente com diploma de pós-graduação que não sabe fazer regra-de-três básica, aplicar os verbos, nem fazer a concordância nas frases, mas uma coisa se está ensinando, desde cedo: “Marketing Pessoal”. Não interessa se tu falas “nós fumo” e a “gente somos”. O chique é saber se fazer de vítima e ir chorar para aparecer. Tem de se mostrar tudo e tem quem já esteja querendo mostrar até o útero. E não venham querer corrigi-las. Ou seria “acorrege”? Então alguém faz um baba baby, baby baba e se vende como a coisa mais fantástica do mundo, por que ninguém compra a música, mas a revista pornô. E quando grava o segundo cd, de novo, mais trabalho homossexual: “Você me desprezou, eu sou a gostosinha. Agora não dou mais pra ninguém.” E todas as músicas de sucesso, uma variação sobre o mesmo tema. “Estava abanando os lábios inguinais e o cara nem aí. Agora que eu passei de jaburu para canhão, na mesa de lipoaspiração, eu me acho a gostosa. E não dou mais, nunca mais.” Como se o bottox não tivesse prazo de validade e célula adiposa não voltasse.
Nem precisa cantar, com tanta tecnologia atual, tanto photoshop, é só pintar o cabelo de espiga de milho e comprar uns “tênis” com os meninos traquinas e já vira ídolo. Ou aparece encrencado com a polícia por que é chefe das bocas, ou por que, apesar de cantar um pagode romântico, enche de bolacha a os beiços da boca da esposa. Mas pelo menos esse desapareceu. Ainda não quis se tratar, ou soltar a franga. Homem, mesmo românticozinho que bate em mulher, tem problema... “Liberta-te homem. Vai dar o testemunho”.
E os meus sobrinhos estão em Manaus. E o que o mais novo estava ouvindo no mp3, 4, 5, sei lá, com fone de ouvido? Uma música dos tempos em que eu ainda estava na puberdade. Ainda tinha polução noturna com a Narcisa na comissão de frente. Fazer o quê, com essa gente que aparece hoje.
O mercado fonográfico nos EUA há muito vem despencando espetacularmente e eles ainda insistem em colocar a culpa nas novas tecnologias. E eu insisto em dizer que o povo está se rebelando, com uma mídia que considera o público, um monte de imbecis que têm de consumir umas Spice Girls que aparecem hoje, fazem o selo, o artista e os produtores riquíssimos, mas não se vê continuidade no trabalho. Por quê? Por que música está ligada a bunda, a peitos, à cama e principalmente a escândalos. Ninguém apresenta a música, o estilo, as horas trabalhadas para compor. As revistas mostram quem deixou quem, quem deu para quem, quem mostrou a calcinha para os paparazzi, justamente no dia em que se esqueceu de vesti-la. Pronto, é sucesso de venda. N!ao de calcinha, mas de música. E quando esses tipos que fazem música com as nádegas querem retomar os trabalhos, as gatinhas deram cria, com a barriga toda esculhambada, os peitos caídos e a bunda murcha, cantando a mesma coisa, sem mudança, querendo ser sensuais. Umas centenárias, achando que ainda têm 15. Só se forem filhos. Não dá. A Clementina cantava sem dentadura. A Beyoncée, se cair, desaparece. E como as coisas caem, a cada dia aparecem e desaparecem cantoras que apresentam mais o corpo do que a música em si.
A música atual, comparada à música de antes, vai ficar como o embate entre o inimigo do Mozart que era ligado aos nobres da época e o próprio Amadeus que não deixava de ser. Como era o nome mesmo do detrator do Mozart? Fazia sucesso no tempo dele. Mas eu só consigo lembrar do nome do Wolfgang. Engraçado, né?
Só quero ver quando a fórmula dos reallity-shows enjoar, como vai ficar esse tipo que faz de tudo para aparecer, sem nada para mostrar. Quem sabe, apareçam novas Clementinas de Jesus, novas Fernandas Torres, novas Simones de Beauvoir, novos Paulos Autran, novos Oscars Niemeyer, novas pessoas que apareçam com alguma coisa para pensar e não sejam bobagens de corpos bonitos, o que não é tudo na vida. Mesmo por que corpos se modificam e até o invento do Doutor Frankeinstein, só conseguiu aparecer de verdade, quando começou a se mover. E para isso, precisou de cérebro.
E que essas futuras pessoas que virão aparecer, não venham por terem se prostituído, ou por terem namorado esse ou aquele figurão, ou por atos que eram indignos para quem fazia história antigamente. E fiquem tão famosas, quanto estas de hoje que são atores e não aprendem a representar. São Rainhas de Baterias, mas nunca aprendem a sambar. São cantores/compositores, mas não sabem sair da toada que não seja aquela mesma coisa sempre. Que as pessoas à frente de câmeras e holofotes, saibam se expressar e não precisem depender do “ponto”, que para isso, tem de deixar o buraco “folote”. Que profissional, não seja um amador, brincando com a cara da gente. E com isso, saibam ser humildes, virtude que vem acompanhado de toda pessoa competente. Ou será o contrário? Toda pessoa muito arrogante, sempre esconde um grande incompetente?
Chega de Ultraje. A gente somos inúteis!

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