CADERNO
3
“Pequeno-burguesia, sub-raça
mental!”
Em algum lugar, ouviu-se isso.
- Puta que pariu, caralho e
porra!
Assim se expressava a dona de
casa, em off.
Não, off neste caso, não é liquidação no Brasil. É quando se está fora
da visão e da audição da audiência, de outras pessoas mais cheias de dedos. E o
nome dela era Cleriminildes.
Dar nome aos filhos, justamente
no momento de maior emoção dos pais, pelo menos é o que diz a mitologia, é a
maior loteria, pois nunca se sabe o quanto os outros irão aceitar, ou o quanto
um nome próprio vai ser audível. De repente o pai da menina nomeia de
Rigoletta, de Abigail, Maricota, Minerva e a desgraçada vive muito, até quando
esses nomes já soam maus pacas.
Os pais de Cleriminildes foram
muito mais espertos. Deram um nome desses, para ela escolher depois o que
fazer. Têm pais que dão um nome e logo só chamam aquele ser, com o apelido.
Gustavo, mas todo mundo só conhece como Gugu. Deusinete, mas eles mesmos acham
feio para burro e vira Deusa. E os filhos de uma égua que ficam putos se
chamarem-nos se não pelo apelido, como um primo meu que é Miguel, um arcanjo,
mas só atende se chamarem de China e um conhecido, um tanto despirocado que
odeia que o chamem de Raimundo, só se pode chamá-lo por Nonato. Era um santo
francês. E respondem irados se não chamados pelas alcunhas.
- É a puta que pariu!
- Vai à merda “fila” da puta!
Eu mesmo fui colega de uma
senhora que o nome era Deusa, mas diz que só soube, quando entrou na escola.
Até hoje, é Edna e Deusa, pode-se escolher. Diz que a professora chamava Deusa
e ela não respondia nunca. Depois de dias, a professora foi inteligente e
chamou os pais daquela menina que ia à aula e não respondia. Só havia uma
garota faltando e só ela que não respondia. Então os pais revelaram que na
verdade, a família, evangélica, ficou fula por terem dado o nome do Pai Eterno,
à uma criança. Por isso, mudaram, sem avisar à garota, de Deusa, para Edna que
nem está na Certidão.
Nome próprio é uma dificuldade,
em agradar ao público e ao dono.
Num curso de especialização na
FGV, o professor chamava Maria, nunca respondiam. Depois uma baba-ovo veio
pedir a ele para chamar a tal Maria que era minha vizinha, de Rosa pois ela
tinha vergonha do nome e gostava de ser conhecida como Rosa. Uma flor que
quando desabrocha, abre!
Cleriminildes podia escolher
ser chamada de Cleriminildes mesmo, ou Clea, ou Nildes, ou a puta que pariu que
quisesse. Coisa mais chata ficar discutindo nome.
O problema de não aceitar seu
nome, é assinar cheque, ou colocar o cartão na máquina, ou ser chamado para
receber o diploma. O cara esconde mais do que autoridade enrustida, mas quando
o cenário está repleto, entrega.
- Amiiiiiiga que nome escroto é
este? É pra assinar o cheque maluca, não é pra pedir remédio pra prisão de
ventre, não!
- E meu nome, lesa!
- Nome impróprio do subjuntivo
adverbial do pretérito indevido. Tudo bem é pra pagar os pecados da encarnação
passada?
-...-
Dia desses, alguém falou que
Ananias é nome de velho. Pensei logo num Ananias que pertencia à uma chapa de
estudantes, ligada à Igreja que só depois de muito tempo, fui saber, foi meu
colega, no início da vida escolar. Mudou muito aquele menino. Dona Themis diz
que ele é tão bonzinho, eu diria, quase uma moça. Mas se fungar no cangote,
acho que entrega.
Puxa, ele fica me encarando, eu
pensava que fosse porque éramos de chapas completamente antagônicas. Vai ver
que ele se lembra de mim, eu nem um pouco.
Depois me lembrei do Ananias
Filho e do Ananias Neto que são mais novos do que eu. Pelo menos o Neto só é
chamado de Neto, já pensou, ainda um rapaz começando a vida, o cara o chama no
meio da multidão de Ananias?
A sogra de um amigo meu, de
infância que votou a ser meu vizinho de novo, veio em casa, e conversando,
perguntou meu nome. Eu já havia dito, Dona Therezinha, todo mundo, mas sabe como
é a idade.
- Thevis!
Com (e) agudo, mas não tem
jeito, nas empresas de táxi só me chamam, de Thévis, ou Davis, ou David, foi se
esculhambando tanto que daqui a pouco, vira Pedro, como as meninas que saem
comigo uma vez e eu digo meu nome, repito, mas não tem jeito, acham o nome de
Pedro, muito bonito. Como só é uma vez mesmo que vamos sair, não insisto. Quer
chamar de Pedro, tudo bem. Já liguei para um dessas, para repetir a saída e
tive de me identificar como o Pedro.
- Lembra?
- Ah, sim, que nome lindo,
Pedro.
- Pois é. Lindo é o que eu vou
fazer contigo!
Mas a sogra do meu amigo,
escudada na idade, continuou.
- Mas que nome feio, teus pais
não tinham outro nome?
Dona Therezinha ao lado, fazia
careta para eu não debater sobre o que é feio, o que é bonito, ela morre de
medo que eu mostre minha educação.
-...-
Ela não sabe a história por trás
do meu nome. Meus pais tinham dois anagramas para mim. Clóter, ou Thevis. Seu
Clóvis foi até o Cartório, pensando qual nome escolher, quando viu um Clóter
que segundo eles, foi o primeiro baitola de Manaus. E pior, tocava piano,
imagina. Escolheu sem discutir, Thevis mesmo.
Sabe como é brasileiro que tem
de se desculpar por tudo. Nada contra um virtuose
que fosse conhecido por tocar a Abertura do Brioco Prestissimo, mas desde que
fosse na casa dos outros, para seus filhos, todos, querem que sejam “normais”.
Dizem que a palavra tem poder,
vai que este menino chamado de Cloter comece a dar o rabo também, nada contra,
mas desde que seja no cu dos filhos dos outros. Mas algo ficou, o Thevis também
tocava piano. Mas parou por aí a semelhança.
Mas pesquisei o nome Thevis e a
Seleções do Rider’s Digest, a revista que era editada pela CIA e no Brasil,
pelo SNI, segundo o Elio Gaspari no A DITADURA ENVERGNHADA, diz que Thevis foi
o Rei da Pornografia nos EUA. Não tem nada a ver comigo. Eu sou um moço de
família.
Bem que a resposta veio na
cabeça, mas Dona Therezinha morreria de vergonha e um velório hoje, está caro,
então ficou só no pensamento.
“Minha senhora, feio é a cabeça
do meu pau que ainda tem um saco todo enrugado pendurado depois, mas mesmo assim,
tem quem chupe, sente encima e agarre com a mão fechada, com tanta vontade que
acaba cuspindo. E quando geme, ainda chama de gostoso.”
Quando gemem e dizem isso,
nunca sei se é para mim como um todo, ou só para a caceta, particularmente.
O país dos pesos e das medidas,
dependendo da posição social.
Pobre é mal educado, é ignorante
e sujo. Mesmo que na semimiséria, estejam as empregadas domésticas que limpam e
arrumam as casas, os cozinheiros que fazem comidas deliciosas. os professores
que ensinam inclusive os filhos dos outros, os garis que limpam as ruas, sujas
por muito filho de porca etc. Já quem tem algum status social é destemperado, é pouco higiênico, é pouco dado ao saber,
a mãe, viciada em “dar” para garotão, o
pai, viciado em álcool e tabaco, o filho, viciado em maconha, o neto, em
cocaína e XTC, o bisneto, em dar ré no quibe, quando toma ansiolítico e assim
por diante.
Se o Brasil for este país do
Nelson Rodrigues, um fascista declarado, ninguém presta, vamos fechar esta
birosca e procurar salvaçãobem longe daqui.
-..-
Dona Therezinha já me olha, ela
morre de vergonha de eu ser eu e não um estereótipo. Eu não faço questão de ser
como tantos, o cara casado que é brocha, o religioso que é arrivista, um mundo
onde todo mundo tem uma máscara social e hoje, um avatar virtual. O cara tem
milhões de amigos nas redes sociais e um bilha de inimigos por onde passa. Passa
pelo porteiro e quer que se foda, passa pelo mendigo à porta de casa e passa
por ele, como se fosse invisível, ri para as fotos e mostra toda sua riqueza
para a foto, mas fora isso, faltam-lhe valores morais, filosóficos e éticos.
7 Páginas resumidas depois, não
iria digitar tudo o que escrevi, voltando à nossa amantíssima e simpática Clemirinildes,
que Deus nos perdoe em falar um palavrão desses.
Quando pronunciou aquela frase
do início do texto, ela estava de saída para mais uma filantropia e no caminho
até a porta, viu a governanta da casa, pegando uma banana na fruteira dourada,
para dar a um menino de rua que pedia algo para comer, no portão.
Uma ato simples, deu uma grande
tempestade, chamou a polícia, já saiu em defesa da maioridade penal – sabe como
são certas pessoas que misturam alhos com bugalhos, para parecerem inteligentes
-, já´se colocou a favor da pena de morte, já se disse furtada, para ela, a
culpa de tudo isso, é pobre fazendo filhos às pencas, apesar de Chang dizer que
a culpa da pobreza dos países pobres, ser dos ricos dos países pobres; as
estatísticas dizerem que a natalidade no Brasil está decrescente, inclusive e
principalmente nas classes mais baixas, apesar de se estipular que o mundo vai
chegar a 9 bilhões, mas como sempre, o Brasil, sempre caminha no sentido
contrário; e Engels dizer que a culpa de tanta miséria e violência, ser do
sistema de classes, de riquezas individualizadas. Mas, como dizem muitos, isto
é Brasil. Uma classe sempre desinformada, semianalfabeta que vive jogando
boatos, fofocas, ou achismo, sem nem procurar se informar, como verdade
absoluta.
Mirtinha, a governanta que
também assinava Aristimirtes Shirley Sâniamida, passou um bom tempo na
penitenciária, só pela acusação de furto de uma banana da madame. Isto também é
Brasil que é nojento, é desrespeitoso, mas muita gente acha que é assim e está
bom. O cidadão comum tem de apelar à polícia, até o caso chegar ao Judiciário
que tem feito mais política do que justiça. Mas as classes mais abastadas, não
precisam de tanto. É só apelar à autoridade amiga, sem julgamento,sem defesa,
nem nada, os desafetos amargam anos de prisão, quando nesse caso, o bandido são
os mocinhos.
Nesse ínterim, Clea, ou Nildes,
a Clemirinildes, consolidou sua posição de filantropa social e ativista “apolítica” - se isso for possível -.
- Eu estou aqui distribuindo
uma cesta-básica, para aplacar a fome do mundo. Os ricos devem fazer caridade
para os mais necessitados, em nome de Jesus, de Buda, do Pai Tomás...
- E do caralho a quatro!
Atentou uma criança próxima.
Nildes se sentiu atingida.
- Viu como são estas pessoas
sem refinamento? Garoto, você acabou de chamar um palavrão. Isto é feio, muito
feio.
Aí um professor, vizinho do
garoto, entrou na conversa.
- Então a senhora é a favor da
política de quotas, para equiparar o nível?
- Vixe, eu sou a favor que
todos mostrem suas capacidades.
A mesma pessoa interveio.
- A senhora é a favor da
doutrina fiscal/tributária de distribuir riquezas?
- De maneira alguma, pobre com
dinheiro na mão, só faz bobagem. Dê tudo aos ricos que sabem como fazer as
coisas, que o mundo vai ser um paraíso, como eles sabem fazer para si, vão
fazer para todos e a distribuição vai ser feita com o altruísmo de classe.
- A senhora deve ter nascido em
berço de ouro, nunca deve ter pecado e, quando morrer, vai pegar o melhor
barraco, com a mais ampla laje, do lado de lá.
-- Ah sim, tudo o que eu faço é
como uma serva, para servir ao Senhor.
Tudo isso, na frente das
câmeras, microfones, máquinas fotográficas, celulares e o que tiver para dar
vida à pessoa virtual que hoje, muita gente tem dado vida, quando longe daquela
parafernália toda, Dona Clea, ou Madame Nildes volta a ser a velha e
desconhecida Clemirinildes.
- Cadê o carro do meu marido
com quem eu casei para pagar as minha contas?
- Senhora, assim se
comportando, a senhora se iguala às putas a quem a senhora tanto tem objeção.
- Foda-se, liga pro meu amante,
Ricardissonovilson e diz que eu estou chegando, não quero perder tempo.
- Senhora, fazer sexo agora? A
senhora já cuidou do corrimento?
- Não quero nem saber, a dona
do dinheiro sou eu. Se não quiser, tem quem queira. Liga e diz que eu já estou
chegando.
- Cancelo a sua aula de reforço
de Português Básico, madame? Que nada, deixa esperando, se desconfiam que eu
desviei caminho, me fodo toda. Diz ao professor que eu me atrasei, inventa uma
desculpa. Aparência é tudo.
Sim, aparência parece ser tudo,
ainda mais nestas classes que lutam para manter este mundo onírico, onde se
busca a felicidade, mas não se leva o saneamento básico à periferia; onde a
escola pública é relegada ao esquecimento, mas se quer um povo educado; e onde,
quem pode, paga para os filhos aprenderem a se drogar nas escolas mais caras e
depois virem fazer análise de conjuntura, completamente desconectados da
realidade.
E aí o colunista que a
acompanha a tiracolo, aproveitou para tirá-la daquele ambiente “tóxico” e
começou a entrevistá-la.
- Hoje estamos entrevistando a socialight Clea, sobre a realidade
nacional. Ela que vive imersa nas causas para dirimir a pobreza, com suas ações
altruístas. Vamos fazer um ping-pong. Um homem que representa o
empreendedorismo nacional?
- Eike Batista.
- Uma política que nunca
deveria acabar.
- Política do Café com Leite,
com o PSDB à frente.
- Um exemplo de político nacional?
- General Médici, lindo.
- Um ditador sanguinário?
- Evo Morales. A Bolívia está
uma miséria, uma pobreza enorme.
- Um exemplo de uma mulher?
- Virgem Maria, uma santa.
- Um apresentador?
- Gugu, outra santa!
- Ideologia política?
- Eu odeio política.
E aí o professor interveio.
- Ela odeia política, onde se
pode decidir sem a tutela de poucos. É a favor da ditadura, por ser imatura, relega
aos outros o processo decisório, pois não se acha capaz de eleger algo que a
represente, precisa sempre de alguém para indicar até como viver. É a favor do
Nazifascismo, pois sendo aliada, não tem como haver mudanças, quem for contra,
colocam nos campos de concentração. Na verdade, queria ser mesmo aristocrata na
Monarquia, mas teria de nascer numa família assim. Não foi o caso dela.
Nildes achou que tinha de ser
mais forte, para não ver gentalha, questionando-a. Nildes mandou matar o marido
que não saiu em sua defesa, como gostaria, entrou em uma igreja neopentecostal
feita de acordo para ela. E era o membro mais carola possível. Ainda se fazendo
de humilde, chamou a media para dar
uma grande quantia de sua herança, mas, em contrapartida, deu um xexo no
amante, tirou-lhe tudo que tinha, no mesmo valor do cheque que entregou à
igreja.
E assim vamos vivendo, gente fingindo que não
enxerga o que está por trás da boca do palco. Muito palhaço querendo ser LIDEr,
muita gente canalha, querendo dar exemplo de ética. E o que conseguimos avançar,
essa gente se fazendo de tola, tem voltado ao passado que daqui a pouco, aos
poucos, os avanços se tornam atraso e daqui há pouco o homo-neanderthal vai se
candidatar à Presidência, como a plataforma mais moderna possível.
Nenhum comentário:
Postar um comentário