quinta-feira, 24 de setembro de 2015

CLEMIRINILDES – A DONDOCA SOCIAL-LIBERAL

CADERNO  3
“Pequeno-burguesia, sub-raça mental!”
Em algum lugar, ouviu-se isso.
- Puta que pariu, caralho e porra!
Assim se expressava a dona de casa, em off.
Não, off neste caso, não é liquidação no Brasil. É quando se está fora da visão e da audição da audiência, de outras pessoas mais cheias de dedos. E o nome dela era Cleriminildes.
Dar nome aos filhos, justamente no momento de maior emoção dos pais, pelo menos é o que diz a mitologia, é a maior loteria, pois nunca se sabe o quanto os outros irão aceitar, ou o quanto um nome próprio vai ser audível. De repente o pai da menina nomeia de Rigoletta, de Abigail, Maricota, Minerva e a desgraçada vive muito, até quando esses nomes já soam maus pacas.
Os pais de Cleriminildes foram muito mais espertos. Deram um nome desses, para ela escolher depois o que fazer. Têm pais que dão um nome e logo só chamam aquele ser, com o apelido. Gustavo, mas todo mundo só conhece como Gugu. Deusinete, mas eles mesmos acham feio para burro e vira Deusa. E os filhos de uma égua que ficam putos se chamarem-nos se não pelo apelido, como um primo meu que é Miguel, um arcanjo, mas só atende se chamarem de China e um conhecido, um tanto despirocado que odeia que o chamem de Raimundo, só se pode chamá-lo por Nonato. Era um santo francês. E respondem irados se não chamados pelas alcunhas.
- É a puta que pariu!
- Vai à merda “fila” da puta!
Eu mesmo fui colega de uma senhora que o nome era Deusa, mas diz que só soube, quando entrou na escola. Até hoje, é Edna e Deusa, pode-se escolher. Diz que a professora chamava Deusa e ela não respondia nunca. Depois de dias, a professora foi inteligente e chamou os pais daquela menina que ia à aula e não respondia. Só havia uma garota faltando e só ela que não respondia. Então os pais revelaram que na verdade, a família, evangélica, ficou fula por terem dado o nome do Pai Eterno, à uma criança. Por isso, mudaram, sem avisar à garota, de Deusa, para Edna que nem está na Certidão.
Nome próprio é uma dificuldade, em agradar ao público e ao dono.
Num curso de especialização na FGV, o professor chamava Maria, nunca respondiam. Depois uma baba-ovo veio pedir a ele para chamar a tal Maria que era minha vizinha, de Rosa pois ela tinha vergonha do nome e gostava de ser conhecida como Rosa. Uma flor que quando desabrocha, abre!
Cleriminildes podia escolher ser chamada de Cleriminildes mesmo, ou Clea, ou Nildes, ou a puta que pariu que quisesse. Coisa mais chata ficar discutindo nome.
O problema de não aceitar seu nome, é assinar cheque, ou colocar o cartão na máquina, ou ser chamado para receber o diploma. O cara esconde mais do que autoridade enrustida, mas quando o cenário está repleto, entrega.
- Amiiiiiiga que nome escroto é este? É pra assinar o cheque maluca, não é pra pedir remédio pra prisão de ventre, não!
- E meu nome, lesa!
- Nome impróprio do subjuntivo adverbial do pretérito indevido. Tudo bem é pra pagar os pecados da encarnação passada?
-...-
Dia desses, alguém falou que Ananias é nome de velho. Pensei logo num Ananias que pertencia à uma chapa de estudantes, ligada à Igreja que só depois de muito tempo, fui saber, foi meu colega, no início da vida escolar. Mudou muito aquele menino. Dona Themis diz que ele é tão bonzinho, eu diria, quase uma moça. Mas se fungar no cangote, acho que entrega.
Puxa, ele fica me encarando, eu pensava que fosse porque éramos de chapas completamente antagônicas. Vai ver que ele se lembra de mim, eu nem um pouco.
Depois me lembrei do Ananias Filho e do Ananias Neto que são mais novos do que eu. Pelo menos o Neto só é chamado de Neto, já pensou, ainda um rapaz começando a vida, o cara o chama no meio da multidão de Ananias?
A sogra de um amigo meu, de infância que votou a ser meu vizinho de novo, veio em casa, e conversando, perguntou meu nome. Eu já havia dito, Dona Therezinha, todo mundo, mas sabe como é a idade.
- Thevis!
Com (e) agudo, mas não tem jeito, nas empresas de táxi só me chamam, de Thévis, ou Davis, ou David, foi se esculhambando tanto que daqui a pouco, vira Pedro, como as meninas que saem comigo uma vez e eu digo meu nome, repito, mas não tem jeito, acham o nome de Pedro, muito bonito. Como só é uma vez mesmo que vamos sair, não insisto. Quer chamar de Pedro, tudo bem. Já liguei para um dessas, para repetir a saída e tive de me identificar como o Pedro.
- Lembra?
- Ah, sim, que nome lindo, Pedro.
- Pois é. Lindo é o que eu vou fazer contigo!
Mas a sogra do meu amigo, escudada na idade, continuou.
- Mas que nome feio, teus pais não tinham outro nome?
Dona Therezinha ao lado, fazia careta para eu não debater sobre o que é feio, o que é bonito, ela morre de medo que eu mostre minha educação.
-...-
Ela não sabe a história por trás do meu nome. Meus pais tinham dois anagramas para mim. Clóter, ou Thevis. Seu Clóvis foi até o Cartório, pensando qual nome escolher, quando viu um Clóter que segundo eles, foi o primeiro baitola de Manaus. E pior, tocava piano, imagina. Escolheu sem discutir, Thevis mesmo.
Sabe como é brasileiro que tem de se desculpar por tudo. Nada contra um virtuose que fosse conhecido por tocar a Abertura do Brioco Prestissimo, mas desde que fosse na casa dos outros, para seus filhos, todos, querem que sejam “normais”.
Dizem que a palavra tem poder, vai que este menino chamado de Cloter comece a dar o rabo também, nada contra, mas desde que seja no cu dos filhos dos outros. Mas algo ficou, o Thevis também tocava piano. Mas parou por aí a semelhança.
Mas pesquisei o nome Thevis e a Seleções do Rider’s Digest, a revista que era editada pela CIA e no Brasil, pelo SNI, segundo o Elio Gaspari no A DITADURA ENVERGNHADA, diz que Thevis foi o Rei da Pornografia nos EUA. Não tem nada a ver comigo. Eu sou um moço de família.
Bem que a resposta veio na cabeça, mas Dona Therezinha morreria de vergonha e um velório hoje, está caro, então ficou só no pensamento.
“Minha senhora, feio é a cabeça do meu pau que ainda tem um saco todo enrugado pendurado depois, mas mesmo assim, tem quem chupe, sente encima e agarre com a mão fechada, com tanta vontade que acaba cuspindo. E quando geme, ainda chama de gostoso.”
Quando gemem e dizem isso, nunca sei se é para mim como um todo, ou só para a caceta, particularmente.
O país dos pesos e das medidas, dependendo da posição social.
Pobre é mal educado, é ignorante e sujo. Mesmo que na semimiséria, estejam as empregadas domésticas que limpam e arrumam as casas, os cozinheiros que fazem comidas deliciosas. os professores que ensinam inclusive os filhos dos outros, os garis que limpam as ruas, sujas por muito filho de porca etc. Já quem tem algum status social é destemperado, é pouco higiênico, é pouco dado ao saber,  a mãe, viciada em “dar” para garotão, o pai, viciado em álcool e tabaco, o filho, viciado em maconha, o neto, em cocaína e XTC, o bisneto, em dar ré no quibe, quando toma ansiolítico e assim por diante.
Se o Brasil for este país do Nelson Rodrigues, um fascista declarado, ninguém presta, vamos fechar esta birosca e procurar salvaçãobem longe daqui.
-..-
Dona Therezinha já me olha, ela morre de vergonha de eu ser eu e não um estereótipo. Eu não faço questão de ser como tantos, o cara casado que é brocha, o religioso que é arrivista, um mundo onde todo mundo tem uma máscara social e hoje, um avatar virtual. O cara tem milhões de amigos nas redes sociais e um bilha de inimigos por onde passa. Passa pelo porteiro e quer que se foda, passa pelo mendigo à porta de casa e passa por ele, como se fosse invisível, ri para as fotos e mostra toda sua riqueza para a foto, mas fora isso, faltam-lhe valores morais, filosóficos e éticos.
7 Páginas resumidas depois, não iria digitar tudo o que escrevi, voltando à nossa amantíssima e simpática Clemirinildes, que Deus nos perdoe em falar um palavrão desses.
Quando pronunciou aquela frase do início do texto, ela estava de saída para mais uma filantropia e no caminho até a porta, viu a governanta da casa, pegando uma banana na fruteira dourada, para dar a um menino de rua que pedia algo para comer, no portão. 
Uma ato simples, deu uma grande tempestade, chamou a polícia, já saiu em defesa da maioridade penal – sabe como são certas pessoas que misturam alhos com bugalhos, para parecerem inteligentes -, já´se colocou a favor da pena de morte, já se disse furtada, para ela, a culpa de tudo isso, é pobre fazendo filhos às pencas, apesar de Chang dizer que a culpa da pobreza dos países pobres, ser dos ricos dos países pobres; as estatísticas dizerem que a natalidade no Brasil está decrescente, inclusive e principalmente nas classes mais baixas, apesar de se estipular que o mundo vai chegar a 9 bilhões, mas como sempre, o Brasil, sempre caminha no sentido contrário; e Engels dizer que a culpa de tanta miséria e violência, ser do sistema de classes, de riquezas individualizadas. Mas, como dizem muitos, isto é Brasil. Uma classe sempre desinformada, semianalfabeta que vive jogando boatos, fofocas, ou achismo, sem nem procurar se informar, como verdade absoluta.
Mirtinha, a governanta que também assinava Aristimirtes Shirley Sâniamida, passou um bom tempo na penitenciária, só pela acusação de furto de uma banana da madame. Isto também é Brasil que é nojento, é desrespeitoso, mas muita gente acha que é assim e está bom. O cidadão comum tem de apelar à polícia, até o caso chegar ao Judiciário que tem feito mais política do que justiça. Mas as classes mais abastadas, não precisam de tanto. É só apelar à autoridade amiga, sem julgamento,sem defesa, nem nada, os desafetos amargam anos de prisão, quando nesse caso, o bandido são os mocinhos.
Nesse ínterim, Clea, ou Nildes, a Clemirinildes, consolidou sua posição de filantropa social e ativista “apolítica”  - se isso for possível -.
- Eu estou aqui distribuindo uma cesta-básica, para aplacar a fome do mundo. Os ricos devem fazer caridade para os mais necessitados, em nome de Jesus, de Buda, do Pai Tomás...
- E do caralho a quatro!
Atentou uma criança próxima.
Nildes se sentiu atingida.
- Viu como são estas pessoas sem refinamento? Garoto, você acabou de chamar um palavrão. Isto é feio, muito feio.
Aí um professor, vizinho do garoto, entrou na conversa.
- Então a senhora é a favor da política de quotas, para equiparar o nível?
- Vixe, eu sou a favor que todos mostrem suas capacidades.
A mesma pessoa interveio.
- A senhora é a favor da doutrina fiscal/tributária de distribuir riquezas?
- De maneira alguma, pobre com dinheiro na mão, só faz bobagem. Dê tudo aos ricos que sabem como fazer as coisas, que o mundo vai ser um paraíso, como eles sabem fazer para si, vão fazer para todos e a distribuição vai ser feita com o altruísmo de classe.
- A senhora deve ter nascido em berço de ouro, nunca deve ter pecado e, quando morrer, vai pegar o melhor barraco, com a mais ampla laje, do lado de lá.
-- Ah sim, tudo o que eu faço é como uma serva, para servir ao Senhor.
Tudo isso, na frente das câmeras, microfones, máquinas fotográficas, celulares e o que tiver para dar vida à pessoa virtual que hoje, muita gente tem dado vida, quando longe daquela parafernália toda, Dona Clea, ou Madame Nildes volta a ser a velha e desconhecida Clemirinildes.
- Cadê o carro do meu marido com quem eu casei para pagar as minha contas?
- Senhora, assim se comportando, a senhora se iguala às putas a quem a senhora tanto tem objeção.
- Foda-se, liga pro meu amante, Ricardissonovilson e diz que eu estou chegando, não quero perder tempo.
- Senhora, fazer sexo agora? A senhora já cuidou do corrimento?
- Não quero nem saber, a dona do dinheiro sou eu. Se não quiser, tem quem queira. Liga e diz que eu já estou chegando.
- Cancelo a sua aula de reforço de Português Básico, madame? Que nada, deixa esperando, se desconfiam que eu desviei caminho, me fodo toda. Diz ao professor que eu me atrasei, inventa uma desculpa. Aparência é tudo.
Sim, aparência parece ser tudo, ainda mais nestas classes que lutam para manter este mundo onírico, onde se busca a felicidade, mas não se leva o saneamento básico à periferia; onde a escola pública é relegada ao esquecimento, mas se quer um povo educado; e onde, quem pode, paga para os filhos aprenderem a se drogar nas escolas mais caras e depois virem fazer análise de conjuntura, completamente desconectados da realidade.
E aí o colunista que a acompanha a tiracolo, aproveitou para tirá-la daquele ambiente “tóxico” e começou a entrevistá-la.
- Hoje estamos entrevistando a socialight Clea, sobre a realidade nacional. Ela que vive imersa nas causas para dirimir a pobreza, com suas ações altruístas. Vamos fazer um ping-pong. Um homem que representa o empreendedorismo nacional?
- Eike Batista.
- Uma política que nunca deveria acabar.
- Política do Café com Leite, com o PSDB à frente.
- Um exemplo de político nacional?
- General Médici, lindo.
- Um ditador sanguinário?
- Evo Morales. A Bolívia está uma miséria, uma pobreza enorme.
- Um exemplo de uma mulher?
- Virgem Maria, uma santa.
- Um apresentador?
- Gugu, outra santa!
- Ideologia política?
- Eu odeio política.
E aí o professor interveio.
- Ela odeia política, onde se pode decidir sem a tutela de poucos. É a favor da ditadura, por ser imatura, relega aos outros o processo decisório, pois não se acha capaz de eleger algo que a represente, precisa sempre de alguém para indicar até como viver. É a favor do Nazifascismo, pois sendo aliada, não tem como haver mudanças, quem for contra, colocam nos campos de concentração. Na verdade, queria ser mesmo aristocrata na Monarquia, mas teria de nascer numa família assim. Não foi o caso dela.
Nildes achou que tinha de ser mais forte, para não ver gentalha, questionando-a. Nildes mandou matar o marido que não saiu em sua defesa, como gostaria, entrou em uma igreja neopentecostal feita de acordo para ela. E era o membro mais carola possível. Ainda se fazendo de humilde, chamou a media para dar uma grande quantia de sua herança, mas, em contrapartida, deu um xexo no amante, tirou-lhe tudo que tinha, no mesmo valor do cheque que entregou à igreja.
E assim vamos vivendo, gente fingindo que não enxerga o que está por trás da boca do palco. Muito palhaço querendo ser LIDEr, muita gente canalha, querendo dar exemplo de ética. E o que conseguimos avançar, essa gente se fazendo de tola, tem voltado ao passado que daqui a pouco, aos poucos, os avanços se tornam atraso e daqui há pouco o homo-neanderthal vai se candidatar à Presidência, como a plataforma mais moderna possível.

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