Houve um tempo, talvez, pela Zona Franca de Manaus ser ainda incipiente, em que as coisas da terra tinham valor. Tanto no campo profissional, quanto amador.
Os Jogos Estudantis e os Jogos Universitários, mesmo em um tempo em que havia pouca instituição de ensino superior, levavam além dos estudantes, pessoas que já haviam formado, ou aquelas que nunca entraram numa escola, só pelo prazer de ver o nível das partidas. Qualquer lugar para assistir a final de campeonato estudantil era disputado como se fosse uma apresentação de alguma seleção do mundo. Não só pelos estudantes, como, por muitos cidadãos que haviam deixado a escola, há muito.
No atletismo, tínhamos representantes, tanto nas pistas, quanto no assento de técnico. Na ginástica rítmica, o Amazonas estava sempre entre as três melhores equipes do país. No pólo-aquático e na natação, sempre levávamos – quero dizer, trazíamos - medalhas nos campeonatos brasileiros e éramos quase imbatíveis no Norte-Nordeste. No remo, por tempos, tínhamos clubes de expressão. No volleyball, tivemos representantes nas quadras e na Seleção Brasileira. Tivemos até reconhecimento no pára-quedismo, assim como no tiro ao alvo. Mas como esporte no Brasil, tem sempre de se chamar futebol, também éramos conhecidos, nessa modalidade, inclusive com representantes em diversas seleções, nos diversos níveis de idade.
Tínhamos clubes famosos. Rodoviária, Fast, Nacional, Olímpico, São Raimundo e Rio Negro. Famosos, não só no âmbito do Estado, como nas competições nacionais. Muitas vezes, clubes considerados grandes, nacionais, comiam uma pupunha, para vencer as equipes regionais. Muitas vezes, com a velha ajuda de juízes e auxiliares, por que como se sabe, o Brasil, ainda tem muito de favorecer quem é grande e por isso, não permite que apareçam coisas novas, nem que haja a competição livre e ficamos sempre com os mesmos problemas, as mesmas faltas de solução e os mesmos privilégios de sempre. Mesmo que tenhamos de favorecer o que já se mostra caidinho, ultrapassado e fora de moda, como a gestão do futebol nacional. Ainda bem que o Brasil mudou. Não há mais privilégios em campo algum. Pode haver uma falha aqui, outra ali que leva determinada equipe, ou determinado nome a vencer um campeonato, a ter mais atenção nacional. Mas de maneira alguma, hoje em dia, pode-se dizer que há privilégio. É roubo mesmo e descarado. É querer manter o status quo, na maior mentira. Ou como se diz: “leva na mão grande”.
E domingo, era dia principal das partidas, inclusive das finais de qualquer campeonato, diferentemente de hoje. O programa, pelo menos para nós – pai, mãe, filhos, sobrinhos, amigos, agregados e desagregados -, era ir à missa de manhã bem cedo, na Catedral Metropolitana de Manaus – e olha que essa coisa de área metropolitana de Manaus, está se discutindo, ainda, para ser implementada num futuro próximo. E a catedral, já era metropolitana, naquele tempo - uma passada no Zoológico Municipal que ficava abaixo da Catedral de Manaus, ir ao banho – balneário, chamado como se diz em Portugal -, almoçar em um restaurante e seguir viagem para o estádio de futebol. Ia a família inteira e um monte de gente ao redor. Era um grande programa. Programa de índio. Pelo menos a família podia freqüentar estádio de futebol e todos terem certeza que voltariam sãos e salvos. Salvo algum fanático que enfartava de emoção. E não voltava mais para casa. Lembro ainda do Parque Amazonense. Principalmente dos banhos de cerveja que um e outro filho da... dava em quem estava nas arquibancadas. Como o bar do estádio, era embaixo das arquibancadas, de vez em quando, ao abrir uma lata de cerveja – novidade que chegava naquela época. Antes, cerveja, só existia em garrafa grande -, não sei se pelo calor, ou pelo balançar, ela espirrava para todos os lados e quem estava sentado na arquibancada, era premiado. Ou tinha a bunda refrescada, um contra-senso. Refrigerar a bunda, principalmente numa época em que o homossexualismo, tinha de ser encubado, não pegava bem.
Depois, época da Copa de 1970, os estádios de futebol pelo Brasil inteiro, foram feitos, talvez, para receberem uma Copa do Mundo.
E tínhamos sempre contato direto com essa gente e outras gentes que vinham jogar por aqui. Eu, Pimpa, Aníbal, Afrânio, Sissi – deve ser assim que se escreve o nome dela. Eu só sei que ela era muito bonita, pelo menos naqueles tempos -, Themis, Thânia, Germana, Graça, Aurora...
E como quando vinham por cá, tinham de ficar por dias – devia ser para se acostumarem ao fuso-horário, quem sabe? -, conhecemos muita gente de perto. Principalmente da Seleção Brasileira de Futebol 1970 que toda noite, ia para frente das nossas casas, tocar uns sambas e conversar com a gente. Era uma festa. Britto, Gerson, Pelé, Paulo César, Edu, Clodoaldo, até o frangueiro daquele goleiro que ficou no lugar do Manga, por que ele era comuna. O gato Felix.
O Santos dessa época também veio. Comeu uma pupunha contra o Fast. A primeira vez que vi um goleiro entrar com bola e tudo. O meu professor de educação física, Antonio Piola, chutou a bola que o goleiro do Santos, entrou com as bolas no gol. Não era nenhum fenômeno, como o Ronaldo, mas sabia tratar as bolas, com o devido carinho.
Dava gosto de ir ao estádio. E os vendedores de bandeiras dos clubes, faturavam bem, pois todo mundo comprava a sua. Eu, desde aquela época, já não gostava de ficar balançando bandeiras. Minhas bandeiras são outras. E não é de mastro.
E como Seu Clovis, defendeu o Rio Negro, por diversas modalidades, por um bom tempo. Como minhas irmãs faziam parte da equipe de volley e minhas primas, defendiam o clube, era de se esperar que a família em peso, torcesse pelo Atlético Rio Negro Clube. Além do que, existia uma mística de que o Rio Negro era o time da elite e o Nacional Futebol Clube, era o time do povão. Era como ainda existe na Bahia, onde o Vitória, é elite e o Bahia, é povão. “Bahia, Bahia, Bahia.” E lógico, minha amiga baiana, moça estudada nos mais finos colégios, como o Anglo-Americano de Salvador, só podia torcer pelo Vitória.
Então, o esporte amazonense estava se destacando e de repente, as pessoas no Amazonas quiseram se destacar mais do que o esporte em si. E nem vestiam a camisa dos times. Ficavam só nas sociais. Pronto.
Então as coisas mudaram e muito. Não só no esporte, mas em tudo. Chegou o que ainda tem gente que chama de desenvolvimento.
Ir à missa, nem de manhã, nem à tarde, nem à noite. Hoje em dia, só se for de Sétimo Dia e olhe lá. Aliás, em alguns outros eventos, como foi o caso do Aniversário de Casamento de um amigo da família, onde o padre da Igreja de Nazaré, paróquia que Dona Therezinha freqüentava toda semana e era no quintal de casa, quando todos foram convidados para a recepção no salão paroquial, o padre, aquele que fala e ninguém nunca entende uma palavra do que ele diz, sentou-se ao nosso lado: “Oh, boa noite.” “Boa noite padre. Este é meu filho.” “Seu filho? As suas filhas eu conheço. Este aí, nunca havia visto. Ele não vem sempre à igreja?” E Dona Therezinha ficou com vergonha, por eu não ser leso de professar essas coisas, para mim, pessoa física, para não danar o Stony Bindá, não diria baboseira, mas umas coisas ridículas, chamadas de religião.
A Igreja da Matriz de Manaus é um bordel a céu aberto. Barracas por todos os lados, venda de tudo, principalmente de drogas e de prostituição. O Zoológico Municipal, acabou. Os bichos devem ter morrido de fome, ou de abandono. A própria catedral, já se faz imprópria para a população. Pequena, mal situada e principalmente, de difícil acesso. Quando se consegue desvencilhar dos marginais, cai-se nas fezes que os mendigos, fazem no meio da rua. Os coretos viraram depósitos de lixo. E para piorar as coisas, o fedor de urina que circunda a catedral, é pior do que o cheiro que emana das baias, em Expoagro. Estou fora das duas.
Os banhos, nem existem mais, por que, como ainda temos um pessoal que pensa o progresso, como a destruição das coisas naturais e a falta de memória do que já foi seu, foram destruídos completamente. Como eram constituídos basicamente por igarapés, os conjuntos residenciais e o próprio esgoto da cidade, foram e são construídos, para desembocarem lá, como se, por ser público, seja uma coisa feita para ser destruído por todos. Uma idéia que corre até hoje, em muitas cabeças. Público é sem dono, por isso, pode ser destruído por cada um. Quando na verdade, o bem público, é parte do suor, do trabalho, do dinheiro que as pessoas depositam através de impostos e taxas, portanto, tem de ser preservado, para ninguém ficar parecendo otário, quando paga, para ser roubado, ou ver o que é seu, depredado. O bem público é de cada um e de todos. E não cai do céu. Mas agora, a moda, é “drenar” e “limpar” igarapé, o que muita gente ainda pensa que é moderno. Gente que paga para ser enganada. Depositam os esgotos in natura nos igarapés, passam um trator para tirar a sujeira, tiram a mata ciliar que auxilia a manutenção dos rios, lagos e igarapés, quando não os secam completamente, enchem as bordas de cimento, não resolvem os problemas da poluição e entregam as obras, como mais uma fator de progresso, um grande feito. Com isso, Manaus que era entrecortada por igarapés, tem hoje, um novo formato. Totalmente aterrada, seguindo o modelo de São Paulo. E o que sobrou de igarapé, exala cheiros terríveis, como os mangues e a Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Estamos tentando ser modernos, repetindo modelos de séculos passados. É como fossemos competir, com um adversário num F1 e nós, utilizando um Ford T, as armas que usaram há muito tempo passado. Mas mesmo assim, tem muita gente achando que isso é modernidade, sem discussão. E imagina se o trabalho for conjunto. Estamos furtivos e mal pagos. Deus me livre e o Diabo que os carregue! Se gritar pega ladrão, a cidade fica deserta. As crianças que se cuidem. Estão f... e não é de feliz.
E os programas de antigamente de se ir para o Balneário Municipal do Parque Dez, onde existia um outro zoológico, um anfiteatro, playground, acabou em bosta. O Conjunto Residencial Castelo Branco, entregue por Dona Therezinha, poluiu tudo.
O igarapé que passa pela Ponte dos Bilhares, totalmente poluído. A Cidade Jardim, virou sanitário sem fim. Sem condições, mas foi feito uma obra enorme, para enganar os bobos.
E o dito progresso chegando e os banhos, ficando mais distantes.
O igarapé que passa pela ponte que liga o Educandos, à Cachoeirinha, acabou definitivamente. Mas muita gente ganhou com isso. Inclusive, com a propaganda.
O Igarapé do Mindu, um verdadeiro chiqueiro a céu aberto. Acabaram os banhos que dependiam dele. Justamente o Parque Dez, o Guanabara e o Las Palmas.
O jeito era ir para a Ponte da Bolívia, já próximo da barreira da Am 010, tinha até a temperatura mais baixa do que a cidade. Acabou também. Poluíram tudo. E tem gente que dá graças a Deus, por que acha que isso é progresso. Como se um vaso sanitário cheio de bosta, tivesse mais valor do que um outro completamente limpo.
Ainda restava o Tarumã Mirim e o Tarumã Açú – para quem não sabe, açú é grande e mirim, é pequeno, na linguagem dos povos indígenas que habitaram a região. Não é querendo me elogiar, mas uma parte de mim, é açú. Se alguém tiver curiosidade, é só pedir para ver o meu lado açú que eu mostro, com todo prazer. Mas se joelhar, vai ter de rezar, ou melhor, vai ter de chupar -. Descobriram as pedreiras e todo mundo ia retirar pedras para fazer construções, inclusive a Aeronáutica. Do outro lado, o igarapé que acabava em uma imensa queda d’ água, virou lava jato de todo tipo de veículos, como caminhões pesados, tratores, até caminhão-munk. Pronto, nem macumbeiro, podia mais fazer despacho por lá. Aquelas pistas de velas coloridas e gastas, passaram a ser despachadas na encruzilhada do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. Agora, acho que nem isso mais. Logo em frente da encruzilhada, tem um clube que dizem ser de strip-tease, mas do jeito que as garotas se apresentam, o que menos deveria ser chamado, era clube de strip. É tão lascivo, tão imoral, nem sei como descrever que deixa a não desejar. É clube para homem casado, como a grande maioria que freqüenta. E eu xoxoteiro.
Como o ebó sempre usa um bicho morto, na maioria das vezes, galinha, as outras de frente, as stripers, ou melhor, as ex-tripas de fora, não devem permitir essa maldade com as amigas. Então os macumbeiros tiveram de fazer seus despachos mesmo, é nesses templos evangélicos que mais parecem terreiro de Macumba, onde se realiza inclusive, sessão de descarrego. Se isso não é Macumba, não sei mais o que pode ser. É a Macumba pós-moderna. Uma nova modalidade. A Macumba in door. Qualquer dia o Preto Velho, quero dizer, o pastor, aparece fumando cachimbo, ou charuto, jogando fumaça na cara de todo mundo, rodando a baiana e jogando pipoca, para um mundo melhor, gritando: “Êpa rê meu pai. Axé Babá! Oxalá é grande.”
O Tarumã Mirim, poluiu com as obras do Aeroporto Internacional. E ainda tem gente achando que isto é progresso. Ficou uma bosta a cachoeira e o próprio aeroporto. Parece um pardieiro num país de última categoria.
O jeito, era ir para a Ponta Negra. Pronto, a civilização acompanhou. Começaram a jogar esgotos, inclusive na praia. O Tropical Manaus, poluiu o lado que fica próximo. Ainda bem que o banzeiro, ia do Roadway, para o hotel. Então todo mundo foi chegando mais para cá, distante do hotel. As praias mais bonitas, com as areias mais brancas, como neve, ficaram como área militar. Exclusivas do Glorioso Exército Brasileiro. O que havia sobrado, fruto de grilagem, virou condomínio de luxo caríssimo e o que era límpido, naturalmente, virou depósito de fezes, como as mentes brilhantes, pensam o progresso. O jeito era espremido ficar na Prainha mesmo. E cada dia chegando mais gente. Até que o boom imobiliário explodiu para os lados de lá. E a praia, considerada pública, foi destruída, com os esgotos sendo despejados diretamente no rio, sem a menor consideração com o bem, ou com o próprio público. Mas tem gente esperta que se regozija, quando alguém destrói o bem público, como se não fosse de ninguém. E na verdade, é um pouco dele e ele, está sendo chamado de leso e achando que é o fodão.
Então o jeito, era ir para o Tarumã, depois da barreira da AM 010. Poluíram também. Poluíram até a rua principal de Itacoatiara que mantém o mesmo nome da estrada.
E as coisas foram ficando cada vez mais distantes. O que era uma trilha que a gente tinha de fazer, como uma das provas nas Operações de Selva, virou um município. A Terra das Cachoeiras. E o pessoal começou a explorar o lugar. E... Advinha, aquela idéia de se locupletar com o que é público e não se importar com o próprio bem, deslocou-se juntamente. Construíram hotéis e reservas turísticas e o esgoto, é jogado diretamente nas águas que em último caso, formam as cachoeiras. Então, qualquer dia desses, a Terra das Cachoeiras vai se transformar no maior vaso sanitário do mundo e quando menos se esperar, o turista que vai pensando em descarregar as energias nas cachoeiras, vai sair cheio de cocô, na cabeça. Energia pura. As samambaias azuis que ficavam em terras encharcadas, quando das operações do Exército, viraram artigo de luxo nas floriculturas de Manaus. As montanhas enormes que pareciam levar quem as escalava, para o Céus, estão sendo aplainadas. Os vales com as árvores fechando em copas, desaparecem a cada minuto. Os tracajás que eram quase uma epidemia, não se vêem mais. E as cachoeiras, fechadas ao público. Viraram privadas. E se as cachoeiras não forem mais rentáveis, sobe-se a lona e se vai “civilizar”, uma outra região ainda inóspita.
É a mania de acreditar em seres superiores. É como se em alguma conta matemática, em algum axioma econômico, pudéssemos tirar sempre, sem colocar de volta. Uma conta meio irreal, como o pensamento dessa gente que pensa que pode destruir o mundo que vai aparecer uma mistura de Mandrake com Super Homem e Mulher Maravilha – isto se vier o Filho do Homem, claro – e com uma varinha mágica – virgem, logo aquela varinha mágica que nunca funcionou da outra vez -, vai fazer pirlimpimpim e tudo vai virar paraíso.
O negócio, era deixar de ir à missa e aos banhos.
Quem podia, tinha seu banho particular. E Dona Therezinha podia. Ela com Seu Clovis, podiam, o que era natural, eram casados, visto que os dois trabalhavam duro e tinham cada um, uma boa renda. Eram o que se chama hoje, de workaholics. Muito mais o Seu Clovis, mas Dona Therezinha não ficava atrás, é lógico. Mesmo por que ela é mulher com M maiúsculo e X O xó, como se dizia antigamente. Mas ela adquiriu sozinha o banho, como sempre aconteceu, quando as mulheres dos Amazonas, sempre foram elas mesmas. E enquanto as mulheres ao Sul, pensavam em liberdade para trabalhar fora de casa, para terem os mesmos direitos dos homens, ao Norte, as mulheres, desde as tribos, já exerciam essas condições. A condição feminina, era equivalente à masculina. Muitas vezes ficavam à frente. Lógico, até pelo fato de serem mulheres heterossexuais. Depois é que passaram a imitar as outras ao Sul e transatlânticas e aí...
Mas vamos deixar de sacanagem e falar o que importa.
E lá ia todo mundo para o Formigal. Dona Therezinha bem que tentou chamar de Doce Valle, mas as formigas não permitiram. Ficou conhecido por Formigal e pronto. Nem a placa no entrada, valeu mais do que o apelido.
Água limpa, uma piscina natural, incrível, pássaros de todos os formatos, bichos de todas as espécies, principalmente jacaré-açú e cobra jararaca, coral e papagaio. Árvores de tudo o que era qualidade. E a tal civilização foi se aproximando. De vez em quando, quando se ouvia um tiro e quando se via, menos um tucano. E a grilagem comendo solta. Tentaram tomar na marra, mais de 50 metros do Formigal e Dona Therezinha chamou Dona Themis para entrar no Tribunal. Um advogado de fama, covarde e conhecido de Seu Clovis - um cidadão que em tudo, pedia paz. Um homem de paz. Na paz de Cristo - e esse advogado conhecido dele, deixou a mulher, a família e os filhos, dizendo que iria comprar cigarro, foi até a nossa casa, para rir, por causa de uma “garotinha” a desafiá-lo. Imagina, ele se achava o grande. Perdeu e feio. Além de covarde, irresponsável, virou perdedor.
Então as terras griladas, viraram campo de provas de motocross. Muitos bichos se mudaram. Conjuntos de classe média alta, foram feitos nas terras griladas. E para acabar com tudo, o Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, fincou um de seus campi, justamente, ao lado do Formigal. Inventaram uma tal de pesquisa de camarões e o igarapé, em pouco tempo, virou argamassa, aquele barro em estado ainda não sólido, mas também, não líquido. Pastoso em tudo. Pronto, acabaram com os banhos que restavam. A gente estava sob uma Ditadura e quem iria contestar alguma coisa. E eles pensam assim e legaram esse pensamento de que destruindo a gente alcança o Paraíso e muita gente que defendia aquele governo, ainda hoje, pensa dessa forma. E defende esse tipo de “civilização”.
O que sobrou das terras de grilagem, foram perdidas para pagar dívidas, ou invadidas por sem terras, sem teto, sem medo dos capangas do grande grileiro.
Então, não havia mais missa, nem zoológico, nem banho, aos domingos. Sobraram os almoços. Pelo menos neste item, os restaurantes proliferaram. Muita quantidade, muitos, muito caros, mas a qualidade... Fator inversamente proporcional ao preço estampado no cardápio.
Um dia desses, estava relembrando as nacionalidades do pessoal que trabalhava com Seu Clovis. Austríaco, inglês, italiano... Mas de todos, o que mais me chamava a atenção, era um patisseiro que fazia doces que até hoje não se encontra em Manaus. Ele não tinha nenhum dedo nas mãos. Numa primeira olhada, era repugnante ver aquilo. Pelo que parece, lutou contra o povo de Deus, na Guerra Civil Espanhola e como castigo, arrancaram-lhe todos os dedos das mãos. Castigo desse povo que vive arrotando Deus no coração, mas parece estar com o Diabo no couro. O povo que fala na paz de Deus e vive incentivando as guerras, para ganhar de todos os lados.
E ele fazia tudo aquilo, num tempo em que não havia muita quantidade, mas parece, a qualidade era superior. Nos produtos oferecidos, nos serviços, enfim, em tudo. E o preço, era proporcional até demais.
De repente, a Zona Franca de Manaus trouxe muito embusteiro do Brasil e a classe média que se formava, consumia qualquer coisa que ofereciam, para se sentir superior. Então a qualidade foi decrescendo e mesmo assim e o que ficou, foi a idéia de se consumir comida das ruas de São Paulo, a preços das ruas mais luxuosas de Paris e Roma. Ainda se consome muita porcaria, sem se protestar, ou pedir respeito, pagando-se caro. Os apartamentos, a preço de Vieira Sotto e a qualidade, de casebre da Idade Média. Mas assim mesmo se consome calado, para não parecer pobre. E a idéia por aqui, é que só pobre protesta. Ninguém quer ser pobre, convenhamos, mesmo sendo pobre de idéias e de espírito.
Só nos restou o esporte, enquanto lazer, entretenimento. De repente, muito charlatão, aproximou-se das entidades desportivas, não para fazê-las crescerem mais. Muito mais, para se locupletarem. E como o futebol é o fillet mingnon dos esportes, as outras modalidades foram sendo deixadas para o lado e as equipes de campo, foram granjeando os aplausos do grande público. Mas como já disse anteriormente, não acredito que onde se tira sem se por, vá se ter para todo o sempre, muita gente se locupletou com as entidades desportivas, os clubes, sem reinvestir um centavo nas e nos mesmas e mesmos.
Hoje também o futebol mudou.
Os estádios já não são programa de índio, mas de gente que se diz civilizada. As famílias não podem ir. Os integrantes das famílias que se dispõem a ir, muitas vezes não voltam, ou voltam aos pedacinhos, com parte do crânio faltando, uma rótula sem fazer a devida rotação, um olho cego, procurando por um – é assim mesmo a música? Estranho! Olho cego devia procurar outra coisa. Eu tenho o disco original e um cd que me presentearam um tempo desses, mas me recuso a verificar a letra desta música. Um olho cego procurando por um. Hum! Até a outra rima, ficaria bem melhor -, e a tristeza geral, pela barbaria que se abate nos estádios dos países ditos mais civilizados, como Inglaterra e Escócia.
O Parque Amazonense, está entregue às traças. A arquitetura dos muros e portão, estão se esvaindo com as intempéries.
O Vivaldão, obra da Ditadura, está prestes a cair. E toma reforma. Reformaram-no algumas vezes e o milagre é pior do que o mal em si. O placar comprado a peso de ouro, funcionou uma única vez. Quebrou para sempre e quando se pediu a manutenção, a empresa decretou falência. E ficou por isso mesmo. É chique gastar dinheiro, não ter o produto como anunciado e não querer ser ressarcido, por isso. A grama já foi mudada diversas vezes. Só quem menos usa, são os jogadores de futebol, pois já serviu para show de música, já serviu para Congresso Eucarístico, já serviu para tanta coisa, inclusive, para eventos de Macumba Evangélica. As licitações das gramas, para se trocá-las, são feias descaradamente, poucos meses depois que fizeram um novo tapete, com mais gastos. Alguém deve ganhar com isso. Como se dinheiro, nascesse na grama.
A drenagem do estádio, das mais perfeitas. A água vai direto para os vestiários, onde ficam os times. E as bombas que deveriam jogar a água no fosso, é outra novela. É colocar bomba e tome bomba. No outro dia desaparecem, roubarem e fica por isso mesmo. E olha que a Delegacia Geral de Polícia do Amazonas, é do outro lado do estádio. Deve funcionar tanto quando a bombas. Aliás, não é lá no IML que a água fica pela cintura dos peritos do CSI Amazonas? É uma bomba. Ou melhor, a falta delas.
Restou uma crônica desportiva que se diz especializada e no tempo do Parque Amazonense, era jovem, a fazer das transmissões dos jogos e das mesas-redondas, moeda de troca, para se darem melhor, com visões totalmente ultrapassadas, sem saber dar resposta a nada. E ainda têm desses que dizem que o caboco da região, não serve para enfrentar os times de fora, por que tremem nas calças. Justamente, por que o esporte amazonense, ainda é dirigido da mesma forma, como se o dirigia no tempo do Generalíssimo Franco, na Espanha, como se fosse a grande modernidade saída do forno. O que chamam de visão, eu chamo de miopia de má-fé.
Então, não está sobrando mais nada para nós. E se continuarmos com este modelo de desenvolvimento, quem vai sobrar, somos nós mesmos.
Só nos resta torcer pelo Flamengo, Vasco, São Paulo, Botafogo, Internacional, para mais uma vez, quereremos nos destacar na multidão, não parecendo caboco e entregando o ouro ao bandido.
Até Seu Clóvis que defendeu o Atlético Rio Negro Clube na juventude dele, só tinha a opção de torcer pelo Fluminense. E soube há pouco, através da minha prima vira-casaca - quando veio à Manaus, disse ser torcedora do Fluminense, eu tenho certeza de que quando éramos mais jovens, ela torcia pelo Flamengo. Justificou dizendo que quem defendeu o Rio Negro, tem de ser Fluminense. Eram clubes co-irmãos -. Como os meus esportes, quase sempre foram individuais e de pé-rapado, como o atletismo e o fisiculturismo, nunca defendi as cores do time da Praça da Saudade.
Torço logo pelo Botafogo, depois que o Rio Negro virou couro de p... Entra e sai, não se decide e agora pretendem até vendê-lo, como prova da má administração.
Botafogo de criancinha. Meu primo Clovis Guimarães Valle Sobrinho, primo do Ulisses como minha avó, fez com que eu torcesse assim.
Então, um dia desses, fui para o teclado e tirei de ouvido, a música cantada pela torcida do Botafogo, nos estádios, atualmente. Experimentei em diversos tons. Pensei em colocar na partitura. Quando fui procurar um único papel com um pentagrama sequer, só encontrei as partituras de maestro. Enormes. Nenhum caderno de música. E olha que eram muitos.
Mas para tudo, tem explicação. Na última mudança para esta casa, Dona Therezinha teve uma grande idéia. Pegar uma porção de livros, colocar em caixas de papelão e deixar numa casa que temos, fechada. O tempo passou, muita coisa aconteceu, inclusive algumas pessoas invadiram e a água encharcou grande parte das caixas.
Agora que fui procurar um único caderno de música, constatei que ficou muito pouco dos livros que havia tocado. Sobrou um Hanon, uns dois livros de Ernesto Nazaré, um outro livro americano que a prima da minha avó mandou encadernar, quando soube que eu havia perdido o meu e acho que um livro de Bach e um de Chopin. O resto, inclusive os cursos de violão, as partituras que o Sinval Gonçalves Filho xerocopiou na Biblioteca Nacional, no Rio, para ver se a gente tocava junto – ele pegando na flauta e eu sentado no banco do piano -, de regência, de arranjo e os song-books da Bossa Nova, do Chico Buarque e muitas partituras do Egberto Gismont, umas do Gil, do Guilherme Arantes, de jazz, de tantos outros compositores eruditos, como o Villa Lobos, Rachmaninov e outros dodecafônicos, ou atonais, outros como Lizst – o metido a besta -, Gershwin, Mahler – nunca li uma biografia de um corno tão manso quanto o nosso colega. A mulher dele o trancava em casa para compor e ia dar. Dar umas voltas por ali, por lá e ele cumpria as ordens à risca. A judia judiava do mala do judeu -, além de muitos cadernos de música, com muitas idéias escritas, inclusive uma ópera-rock, sobre a Guerra do Vietnã, quase acabada e a idéia de um concerto para a Deusa Minerva, por acaso, uma deusa do Monte Olimpo que tem o mesmo nome de uma das minha primas – apenas uma grande coincidência, assim como a música da propaganda da Intell, com aquelas quatro notas, serem idêntica à muitas notas das músicas que permeavam a minha ópera-rock -. E um dia desses quando fomos ver a casa, Dona Therezinha não deixou resgatar nenhum livro daqueles: “Está tudo com mofo. Não vais querer levar essas coisas para casa. Depois tu compras outros.” Como se fosse fácil, comprar toda aquela coleção, inclusive de cursos de universidades inglesas, em Manaus. Chamou uma garis e jogou tudo no carro do lixo.
Só não perdi o curso de bateria composto pelo Bituca, inclusive com as partituras escritas para cada estilo de música. Fiz bem pior. Emprestei para uma amiga antiga e ela emprestou para o ex-marido. Já sei que nunca mais vou ver, como nunca mais vi o meu saco de dormir – aliás, vi o estojo onde era guardado, com um cara que ela conheceu -, o livro sobre o Allende que emprestei para o irmão dela ler e ele emprestou para ela, sem nem me consultar, além de um monte de coisas que na mão dela, desaparecem. Não é pela cor da pele, mas ela é o verdadeiro buraco-negro, o Triângulo das Bermudas, o território abissal mais profundo que conheço. Não faz parte do Governo Norte Americano, mas consegue fazer desaparecer tudo.
Quanto a música da torcida do Botafogo, já tinha inclusive, a partitura toda pronta na cabeça. Sim que dá para fazer um pentagrama no Excell, também à mão, mas a preguiça é maior. Bem maior. Imensamente acima de todos nós.
Sim que dá para fazer tudo na partitura de maestro, mesmo por que, já vem com as vozes definidas, mas não cabe no scanner. É maior do que a minha preguiça.
A música, como desejava colocar no papel, já passou pela cabeça, o arranjo, a escrita, o tom, o pizzicatto das cordas, o contraponto dos metais, mas deixa para lá. Eu a ouvi sozinho.
Quanta música que ouvia sozinho e nunca consegui compor. Às vezes, para montar o gravador, custava muito e acabava esquecendo. Outras, gravava no teclado e quando via, saíam mais de uma idéia. Outras, se perderam em tantos cassetes gravados que eu não tenho coragem de ouvir de novo.É muita coisa. Deixa só aquelas músicas registradas pela Izabel, na Escola Nacional de Música, outras que fiz para a secretária-eletrônica de uma antiga namorada que não queria que eu fosse músico, apenas um executivo de paletó e gravata, e a que fiz para a Cara Carol Carolina que lembro a melodia, mas perdi a letra. Sem contar com a música que fiz para uma quadrilha, com zabumba, acordeon e voz e os fdp, ainda gozaram da minha maviosa e aveludada voz, devidamente aguda. Tudo por causa da pressa. Não deu para pegar o tom correto, não deu para ensaiar direito e a gravação, era para eles mandarem alguém gravar de verdade, para eles dançarem. Acabei dançando eu, quando eles colocavam aquela fita, em todas as apresentações que faziam.
Entrei no banheiro – não sei por que, até hoje, o melhor lugar para ter idéias sobre músicas -, tentando esquecer e então, lembrei do canto da torcida no Rio Negro nos estádios. Já pensei em colocar na partitura e entremear com o hino do clube. Ficou até legal. Mas como falta um caderno de música, cheguei a isto. Mais ou menos, o canto da torcida do Rio Negro, antigamente, adaptado para os tempos ditos modernos:
Galo, Galo, Galo
Galo Carijó
Já fostes um grande clube
Hoje estás na pior
O que fizeram a ti
Que te sangraram sem ter dó
Foi uma coisa feia
Te botarem no penhor. [bis, tris, quadris]
Os Jogos Estudantis e os Jogos Universitários, mesmo em um tempo em que havia pouca instituição de ensino superior, levavam além dos estudantes, pessoas que já haviam formado, ou aquelas que nunca entraram numa escola, só pelo prazer de ver o nível das partidas. Qualquer lugar para assistir a final de campeonato estudantil era disputado como se fosse uma apresentação de alguma seleção do mundo. Não só pelos estudantes, como, por muitos cidadãos que haviam deixado a escola, há muito.
No atletismo, tínhamos representantes, tanto nas pistas, quanto no assento de técnico. Na ginástica rítmica, o Amazonas estava sempre entre as três melhores equipes do país. No pólo-aquático e na natação, sempre levávamos – quero dizer, trazíamos - medalhas nos campeonatos brasileiros e éramos quase imbatíveis no Norte-Nordeste. No remo, por tempos, tínhamos clubes de expressão. No volleyball, tivemos representantes nas quadras e na Seleção Brasileira. Tivemos até reconhecimento no pára-quedismo, assim como no tiro ao alvo. Mas como esporte no Brasil, tem sempre de se chamar futebol, também éramos conhecidos, nessa modalidade, inclusive com representantes em diversas seleções, nos diversos níveis de idade.
Tínhamos clubes famosos. Rodoviária, Fast, Nacional, Olímpico, São Raimundo e Rio Negro. Famosos, não só no âmbito do Estado, como nas competições nacionais. Muitas vezes, clubes considerados grandes, nacionais, comiam uma pupunha, para vencer as equipes regionais. Muitas vezes, com a velha ajuda de juízes e auxiliares, por que como se sabe, o Brasil, ainda tem muito de favorecer quem é grande e por isso, não permite que apareçam coisas novas, nem que haja a competição livre e ficamos sempre com os mesmos problemas, as mesmas faltas de solução e os mesmos privilégios de sempre. Mesmo que tenhamos de favorecer o que já se mostra caidinho, ultrapassado e fora de moda, como a gestão do futebol nacional. Ainda bem que o Brasil mudou. Não há mais privilégios em campo algum. Pode haver uma falha aqui, outra ali que leva determinada equipe, ou determinado nome a vencer um campeonato, a ter mais atenção nacional. Mas de maneira alguma, hoje em dia, pode-se dizer que há privilégio. É roubo mesmo e descarado. É querer manter o status quo, na maior mentira. Ou como se diz: “leva na mão grande”.
E domingo, era dia principal das partidas, inclusive das finais de qualquer campeonato, diferentemente de hoje. O programa, pelo menos para nós – pai, mãe, filhos, sobrinhos, amigos, agregados e desagregados -, era ir à missa de manhã bem cedo, na Catedral Metropolitana de Manaus – e olha que essa coisa de área metropolitana de Manaus, está se discutindo, ainda, para ser implementada num futuro próximo. E a catedral, já era metropolitana, naquele tempo - uma passada no Zoológico Municipal que ficava abaixo da Catedral de Manaus, ir ao banho – balneário, chamado como se diz em Portugal -, almoçar em um restaurante e seguir viagem para o estádio de futebol. Ia a família inteira e um monte de gente ao redor. Era um grande programa. Programa de índio. Pelo menos a família podia freqüentar estádio de futebol e todos terem certeza que voltariam sãos e salvos. Salvo algum fanático que enfartava de emoção. E não voltava mais para casa. Lembro ainda do Parque Amazonense. Principalmente dos banhos de cerveja que um e outro filho da... dava em quem estava nas arquibancadas. Como o bar do estádio, era embaixo das arquibancadas, de vez em quando, ao abrir uma lata de cerveja – novidade que chegava naquela época. Antes, cerveja, só existia em garrafa grande -, não sei se pelo calor, ou pelo balançar, ela espirrava para todos os lados e quem estava sentado na arquibancada, era premiado. Ou tinha a bunda refrescada, um contra-senso. Refrigerar a bunda, principalmente numa época em que o homossexualismo, tinha de ser encubado, não pegava bem.
Depois, época da Copa de 1970, os estádios de futebol pelo Brasil inteiro, foram feitos, talvez, para receberem uma Copa do Mundo.
E tínhamos sempre contato direto com essa gente e outras gentes que vinham jogar por aqui. Eu, Pimpa, Aníbal, Afrânio, Sissi – deve ser assim que se escreve o nome dela. Eu só sei que ela era muito bonita, pelo menos naqueles tempos -, Themis, Thânia, Germana, Graça, Aurora...
E como quando vinham por cá, tinham de ficar por dias – devia ser para se acostumarem ao fuso-horário, quem sabe? -, conhecemos muita gente de perto. Principalmente da Seleção Brasileira de Futebol 1970 que toda noite, ia para frente das nossas casas, tocar uns sambas e conversar com a gente. Era uma festa. Britto, Gerson, Pelé, Paulo César, Edu, Clodoaldo, até o frangueiro daquele goleiro que ficou no lugar do Manga, por que ele era comuna. O gato Felix.
O Santos dessa época também veio. Comeu uma pupunha contra o Fast. A primeira vez que vi um goleiro entrar com bola e tudo. O meu professor de educação física, Antonio Piola, chutou a bola que o goleiro do Santos, entrou com as bolas no gol. Não era nenhum fenômeno, como o Ronaldo, mas sabia tratar as bolas, com o devido carinho.
Dava gosto de ir ao estádio. E os vendedores de bandeiras dos clubes, faturavam bem, pois todo mundo comprava a sua. Eu, desde aquela época, já não gostava de ficar balançando bandeiras. Minhas bandeiras são outras. E não é de mastro.
E como Seu Clovis, defendeu o Rio Negro, por diversas modalidades, por um bom tempo. Como minhas irmãs faziam parte da equipe de volley e minhas primas, defendiam o clube, era de se esperar que a família em peso, torcesse pelo Atlético Rio Negro Clube. Além do que, existia uma mística de que o Rio Negro era o time da elite e o Nacional Futebol Clube, era o time do povão. Era como ainda existe na Bahia, onde o Vitória, é elite e o Bahia, é povão. “Bahia, Bahia, Bahia.” E lógico, minha amiga baiana, moça estudada nos mais finos colégios, como o Anglo-Americano de Salvador, só podia torcer pelo Vitória.
Então, o esporte amazonense estava se destacando e de repente, as pessoas no Amazonas quiseram se destacar mais do que o esporte em si. E nem vestiam a camisa dos times. Ficavam só nas sociais. Pronto.
Então as coisas mudaram e muito. Não só no esporte, mas em tudo. Chegou o que ainda tem gente que chama de desenvolvimento.
Ir à missa, nem de manhã, nem à tarde, nem à noite. Hoje em dia, só se for de Sétimo Dia e olhe lá. Aliás, em alguns outros eventos, como foi o caso do Aniversário de Casamento de um amigo da família, onde o padre da Igreja de Nazaré, paróquia que Dona Therezinha freqüentava toda semana e era no quintal de casa, quando todos foram convidados para a recepção no salão paroquial, o padre, aquele que fala e ninguém nunca entende uma palavra do que ele diz, sentou-se ao nosso lado: “Oh, boa noite.” “Boa noite padre. Este é meu filho.” “Seu filho? As suas filhas eu conheço. Este aí, nunca havia visto. Ele não vem sempre à igreja?” E Dona Therezinha ficou com vergonha, por eu não ser leso de professar essas coisas, para mim, pessoa física, para não danar o Stony Bindá, não diria baboseira, mas umas coisas ridículas, chamadas de religião.
A Igreja da Matriz de Manaus é um bordel a céu aberto. Barracas por todos os lados, venda de tudo, principalmente de drogas e de prostituição. O Zoológico Municipal, acabou. Os bichos devem ter morrido de fome, ou de abandono. A própria catedral, já se faz imprópria para a população. Pequena, mal situada e principalmente, de difícil acesso. Quando se consegue desvencilhar dos marginais, cai-se nas fezes que os mendigos, fazem no meio da rua. Os coretos viraram depósitos de lixo. E para piorar as coisas, o fedor de urina que circunda a catedral, é pior do que o cheiro que emana das baias, em Expoagro. Estou fora das duas.
Os banhos, nem existem mais, por que, como ainda temos um pessoal que pensa o progresso, como a destruição das coisas naturais e a falta de memória do que já foi seu, foram destruídos completamente. Como eram constituídos basicamente por igarapés, os conjuntos residenciais e o próprio esgoto da cidade, foram e são construídos, para desembocarem lá, como se, por ser público, seja uma coisa feita para ser destruído por todos. Uma idéia que corre até hoje, em muitas cabeças. Público é sem dono, por isso, pode ser destruído por cada um. Quando na verdade, o bem público, é parte do suor, do trabalho, do dinheiro que as pessoas depositam através de impostos e taxas, portanto, tem de ser preservado, para ninguém ficar parecendo otário, quando paga, para ser roubado, ou ver o que é seu, depredado. O bem público é de cada um e de todos. E não cai do céu. Mas agora, a moda, é “drenar” e “limpar” igarapé, o que muita gente ainda pensa que é moderno. Gente que paga para ser enganada. Depositam os esgotos in natura nos igarapés, passam um trator para tirar a sujeira, tiram a mata ciliar que auxilia a manutenção dos rios, lagos e igarapés, quando não os secam completamente, enchem as bordas de cimento, não resolvem os problemas da poluição e entregam as obras, como mais uma fator de progresso, um grande feito. Com isso, Manaus que era entrecortada por igarapés, tem hoje, um novo formato. Totalmente aterrada, seguindo o modelo de São Paulo. E o que sobrou de igarapé, exala cheiros terríveis, como os mangues e a Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Estamos tentando ser modernos, repetindo modelos de séculos passados. É como fossemos competir, com um adversário num F1 e nós, utilizando um Ford T, as armas que usaram há muito tempo passado. Mas mesmo assim, tem muita gente achando que isso é modernidade, sem discussão. E imagina se o trabalho for conjunto. Estamos furtivos e mal pagos. Deus me livre e o Diabo que os carregue! Se gritar pega ladrão, a cidade fica deserta. As crianças que se cuidem. Estão f... e não é de feliz.
E os programas de antigamente de se ir para o Balneário Municipal do Parque Dez, onde existia um outro zoológico, um anfiteatro, playground, acabou em bosta. O Conjunto Residencial Castelo Branco, entregue por Dona Therezinha, poluiu tudo.
O igarapé que passa pela Ponte dos Bilhares, totalmente poluído. A Cidade Jardim, virou sanitário sem fim. Sem condições, mas foi feito uma obra enorme, para enganar os bobos.
E o dito progresso chegando e os banhos, ficando mais distantes.
O igarapé que passa pela ponte que liga o Educandos, à Cachoeirinha, acabou definitivamente. Mas muita gente ganhou com isso. Inclusive, com a propaganda.
O Igarapé do Mindu, um verdadeiro chiqueiro a céu aberto. Acabaram os banhos que dependiam dele. Justamente o Parque Dez, o Guanabara e o Las Palmas.
O jeito era ir para a Ponte da Bolívia, já próximo da barreira da Am 010, tinha até a temperatura mais baixa do que a cidade. Acabou também. Poluíram tudo. E tem gente que dá graças a Deus, por que acha que isso é progresso. Como se um vaso sanitário cheio de bosta, tivesse mais valor do que um outro completamente limpo.
Ainda restava o Tarumã Mirim e o Tarumã Açú – para quem não sabe, açú é grande e mirim, é pequeno, na linguagem dos povos indígenas que habitaram a região. Não é querendo me elogiar, mas uma parte de mim, é açú. Se alguém tiver curiosidade, é só pedir para ver o meu lado açú que eu mostro, com todo prazer. Mas se joelhar, vai ter de rezar, ou melhor, vai ter de chupar -. Descobriram as pedreiras e todo mundo ia retirar pedras para fazer construções, inclusive a Aeronáutica. Do outro lado, o igarapé que acabava em uma imensa queda d’ água, virou lava jato de todo tipo de veículos, como caminhões pesados, tratores, até caminhão-munk. Pronto, nem macumbeiro, podia mais fazer despacho por lá. Aquelas pistas de velas coloridas e gastas, passaram a ser despachadas na encruzilhada do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. Agora, acho que nem isso mais. Logo em frente da encruzilhada, tem um clube que dizem ser de strip-tease, mas do jeito que as garotas se apresentam, o que menos deveria ser chamado, era clube de strip. É tão lascivo, tão imoral, nem sei como descrever que deixa a não desejar. É clube para homem casado, como a grande maioria que freqüenta. E eu xoxoteiro.
Como o ebó sempre usa um bicho morto, na maioria das vezes, galinha, as outras de frente, as stripers, ou melhor, as ex-tripas de fora, não devem permitir essa maldade com as amigas. Então os macumbeiros tiveram de fazer seus despachos mesmo, é nesses templos evangélicos que mais parecem terreiro de Macumba, onde se realiza inclusive, sessão de descarrego. Se isso não é Macumba, não sei mais o que pode ser. É a Macumba pós-moderna. Uma nova modalidade. A Macumba in door. Qualquer dia o Preto Velho, quero dizer, o pastor, aparece fumando cachimbo, ou charuto, jogando fumaça na cara de todo mundo, rodando a baiana e jogando pipoca, para um mundo melhor, gritando: “Êpa rê meu pai. Axé Babá! Oxalá é grande.”
O Tarumã Mirim, poluiu com as obras do Aeroporto Internacional. E ainda tem gente achando que isto é progresso. Ficou uma bosta a cachoeira e o próprio aeroporto. Parece um pardieiro num país de última categoria.
O jeito, era ir para a Ponta Negra. Pronto, a civilização acompanhou. Começaram a jogar esgotos, inclusive na praia. O Tropical Manaus, poluiu o lado que fica próximo. Ainda bem que o banzeiro, ia do Roadway, para o hotel. Então todo mundo foi chegando mais para cá, distante do hotel. As praias mais bonitas, com as areias mais brancas, como neve, ficaram como área militar. Exclusivas do Glorioso Exército Brasileiro. O que havia sobrado, fruto de grilagem, virou condomínio de luxo caríssimo e o que era límpido, naturalmente, virou depósito de fezes, como as mentes brilhantes, pensam o progresso. O jeito era espremido ficar na Prainha mesmo. E cada dia chegando mais gente. Até que o boom imobiliário explodiu para os lados de lá. E a praia, considerada pública, foi destruída, com os esgotos sendo despejados diretamente no rio, sem a menor consideração com o bem, ou com o próprio público. Mas tem gente esperta que se regozija, quando alguém destrói o bem público, como se não fosse de ninguém. E na verdade, é um pouco dele e ele, está sendo chamado de leso e achando que é o fodão.
Então o jeito, era ir para o Tarumã, depois da barreira da AM 010. Poluíram também. Poluíram até a rua principal de Itacoatiara que mantém o mesmo nome da estrada.
E as coisas foram ficando cada vez mais distantes. O que era uma trilha que a gente tinha de fazer, como uma das provas nas Operações de Selva, virou um município. A Terra das Cachoeiras. E o pessoal começou a explorar o lugar. E... Advinha, aquela idéia de se locupletar com o que é público e não se importar com o próprio bem, deslocou-se juntamente. Construíram hotéis e reservas turísticas e o esgoto, é jogado diretamente nas águas que em último caso, formam as cachoeiras. Então, qualquer dia desses, a Terra das Cachoeiras vai se transformar no maior vaso sanitário do mundo e quando menos se esperar, o turista que vai pensando em descarregar as energias nas cachoeiras, vai sair cheio de cocô, na cabeça. Energia pura. As samambaias azuis que ficavam em terras encharcadas, quando das operações do Exército, viraram artigo de luxo nas floriculturas de Manaus. As montanhas enormes que pareciam levar quem as escalava, para o Céus, estão sendo aplainadas. Os vales com as árvores fechando em copas, desaparecem a cada minuto. Os tracajás que eram quase uma epidemia, não se vêem mais. E as cachoeiras, fechadas ao público. Viraram privadas. E se as cachoeiras não forem mais rentáveis, sobe-se a lona e se vai “civilizar”, uma outra região ainda inóspita.
É a mania de acreditar em seres superiores. É como se em alguma conta matemática, em algum axioma econômico, pudéssemos tirar sempre, sem colocar de volta. Uma conta meio irreal, como o pensamento dessa gente que pensa que pode destruir o mundo que vai aparecer uma mistura de Mandrake com Super Homem e Mulher Maravilha – isto se vier o Filho do Homem, claro – e com uma varinha mágica – virgem, logo aquela varinha mágica que nunca funcionou da outra vez -, vai fazer pirlimpimpim e tudo vai virar paraíso.
O negócio, era deixar de ir à missa e aos banhos.
Quem podia, tinha seu banho particular. E Dona Therezinha podia. Ela com Seu Clovis, podiam, o que era natural, eram casados, visto que os dois trabalhavam duro e tinham cada um, uma boa renda. Eram o que se chama hoje, de workaholics. Muito mais o Seu Clovis, mas Dona Therezinha não ficava atrás, é lógico. Mesmo por que ela é mulher com M maiúsculo e X O xó, como se dizia antigamente. Mas ela adquiriu sozinha o banho, como sempre aconteceu, quando as mulheres dos Amazonas, sempre foram elas mesmas. E enquanto as mulheres ao Sul, pensavam em liberdade para trabalhar fora de casa, para terem os mesmos direitos dos homens, ao Norte, as mulheres, desde as tribos, já exerciam essas condições. A condição feminina, era equivalente à masculina. Muitas vezes ficavam à frente. Lógico, até pelo fato de serem mulheres heterossexuais. Depois é que passaram a imitar as outras ao Sul e transatlânticas e aí...
Mas vamos deixar de sacanagem e falar o que importa.
E lá ia todo mundo para o Formigal. Dona Therezinha bem que tentou chamar de Doce Valle, mas as formigas não permitiram. Ficou conhecido por Formigal e pronto. Nem a placa no entrada, valeu mais do que o apelido.
Água limpa, uma piscina natural, incrível, pássaros de todos os formatos, bichos de todas as espécies, principalmente jacaré-açú e cobra jararaca, coral e papagaio. Árvores de tudo o que era qualidade. E a tal civilização foi se aproximando. De vez em quando, quando se ouvia um tiro e quando se via, menos um tucano. E a grilagem comendo solta. Tentaram tomar na marra, mais de 50 metros do Formigal e Dona Therezinha chamou Dona Themis para entrar no Tribunal. Um advogado de fama, covarde e conhecido de Seu Clovis - um cidadão que em tudo, pedia paz. Um homem de paz. Na paz de Cristo - e esse advogado conhecido dele, deixou a mulher, a família e os filhos, dizendo que iria comprar cigarro, foi até a nossa casa, para rir, por causa de uma “garotinha” a desafiá-lo. Imagina, ele se achava o grande. Perdeu e feio. Além de covarde, irresponsável, virou perdedor.
Então as terras griladas, viraram campo de provas de motocross. Muitos bichos se mudaram. Conjuntos de classe média alta, foram feitos nas terras griladas. E para acabar com tudo, o Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, fincou um de seus campi, justamente, ao lado do Formigal. Inventaram uma tal de pesquisa de camarões e o igarapé, em pouco tempo, virou argamassa, aquele barro em estado ainda não sólido, mas também, não líquido. Pastoso em tudo. Pronto, acabaram com os banhos que restavam. A gente estava sob uma Ditadura e quem iria contestar alguma coisa. E eles pensam assim e legaram esse pensamento de que destruindo a gente alcança o Paraíso e muita gente que defendia aquele governo, ainda hoje, pensa dessa forma. E defende esse tipo de “civilização”.
O que sobrou das terras de grilagem, foram perdidas para pagar dívidas, ou invadidas por sem terras, sem teto, sem medo dos capangas do grande grileiro.
Então, não havia mais missa, nem zoológico, nem banho, aos domingos. Sobraram os almoços. Pelo menos neste item, os restaurantes proliferaram. Muita quantidade, muitos, muito caros, mas a qualidade... Fator inversamente proporcional ao preço estampado no cardápio.
Um dia desses, estava relembrando as nacionalidades do pessoal que trabalhava com Seu Clovis. Austríaco, inglês, italiano... Mas de todos, o que mais me chamava a atenção, era um patisseiro que fazia doces que até hoje não se encontra em Manaus. Ele não tinha nenhum dedo nas mãos. Numa primeira olhada, era repugnante ver aquilo. Pelo que parece, lutou contra o povo de Deus, na Guerra Civil Espanhola e como castigo, arrancaram-lhe todos os dedos das mãos. Castigo desse povo que vive arrotando Deus no coração, mas parece estar com o Diabo no couro. O povo que fala na paz de Deus e vive incentivando as guerras, para ganhar de todos os lados.
E ele fazia tudo aquilo, num tempo em que não havia muita quantidade, mas parece, a qualidade era superior. Nos produtos oferecidos, nos serviços, enfim, em tudo. E o preço, era proporcional até demais.
De repente, a Zona Franca de Manaus trouxe muito embusteiro do Brasil e a classe média que se formava, consumia qualquer coisa que ofereciam, para se sentir superior. Então a qualidade foi decrescendo e mesmo assim e o que ficou, foi a idéia de se consumir comida das ruas de São Paulo, a preços das ruas mais luxuosas de Paris e Roma. Ainda se consome muita porcaria, sem se protestar, ou pedir respeito, pagando-se caro. Os apartamentos, a preço de Vieira Sotto e a qualidade, de casebre da Idade Média. Mas assim mesmo se consome calado, para não parecer pobre. E a idéia por aqui, é que só pobre protesta. Ninguém quer ser pobre, convenhamos, mesmo sendo pobre de idéias e de espírito.
Só nos restou o esporte, enquanto lazer, entretenimento. De repente, muito charlatão, aproximou-se das entidades desportivas, não para fazê-las crescerem mais. Muito mais, para se locupletarem. E como o futebol é o fillet mingnon dos esportes, as outras modalidades foram sendo deixadas para o lado e as equipes de campo, foram granjeando os aplausos do grande público. Mas como já disse anteriormente, não acredito que onde se tira sem se por, vá se ter para todo o sempre, muita gente se locupletou com as entidades desportivas, os clubes, sem reinvestir um centavo nas e nos mesmas e mesmos.
Hoje também o futebol mudou.
Os estádios já não são programa de índio, mas de gente que se diz civilizada. As famílias não podem ir. Os integrantes das famílias que se dispõem a ir, muitas vezes não voltam, ou voltam aos pedacinhos, com parte do crânio faltando, uma rótula sem fazer a devida rotação, um olho cego, procurando por um – é assim mesmo a música? Estranho! Olho cego devia procurar outra coisa. Eu tenho o disco original e um cd que me presentearam um tempo desses, mas me recuso a verificar a letra desta música. Um olho cego procurando por um. Hum! Até a outra rima, ficaria bem melhor -, e a tristeza geral, pela barbaria que se abate nos estádios dos países ditos mais civilizados, como Inglaterra e Escócia.
O Parque Amazonense, está entregue às traças. A arquitetura dos muros e portão, estão se esvaindo com as intempéries.
O Vivaldão, obra da Ditadura, está prestes a cair. E toma reforma. Reformaram-no algumas vezes e o milagre é pior do que o mal em si. O placar comprado a peso de ouro, funcionou uma única vez. Quebrou para sempre e quando se pediu a manutenção, a empresa decretou falência. E ficou por isso mesmo. É chique gastar dinheiro, não ter o produto como anunciado e não querer ser ressarcido, por isso. A grama já foi mudada diversas vezes. Só quem menos usa, são os jogadores de futebol, pois já serviu para show de música, já serviu para Congresso Eucarístico, já serviu para tanta coisa, inclusive, para eventos de Macumba Evangélica. As licitações das gramas, para se trocá-las, são feias descaradamente, poucos meses depois que fizeram um novo tapete, com mais gastos. Alguém deve ganhar com isso. Como se dinheiro, nascesse na grama.
A drenagem do estádio, das mais perfeitas. A água vai direto para os vestiários, onde ficam os times. E as bombas que deveriam jogar a água no fosso, é outra novela. É colocar bomba e tome bomba. No outro dia desaparecem, roubarem e fica por isso mesmo. E olha que a Delegacia Geral de Polícia do Amazonas, é do outro lado do estádio. Deve funcionar tanto quando a bombas. Aliás, não é lá no IML que a água fica pela cintura dos peritos do CSI Amazonas? É uma bomba. Ou melhor, a falta delas.
Restou uma crônica desportiva que se diz especializada e no tempo do Parque Amazonense, era jovem, a fazer das transmissões dos jogos e das mesas-redondas, moeda de troca, para se darem melhor, com visões totalmente ultrapassadas, sem saber dar resposta a nada. E ainda têm desses que dizem que o caboco da região, não serve para enfrentar os times de fora, por que tremem nas calças. Justamente, por que o esporte amazonense, ainda é dirigido da mesma forma, como se o dirigia no tempo do Generalíssimo Franco, na Espanha, como se fosse a grande modernidade saída do forno. O que chamam de visão, eu chamo de miopia de má-fé.
Então, não está sobrando mais nada para nós. E se continuarmos com este modelo de desenvolvimento, quem vai sobrar, somos nós mesmos.
Só nos resta torcer pelo Flamengo, Vasco, São Paulo, Botafogo, Internacional, para mais uma vez, quereremos nos destacar na multidão, não parecendo caboco e entregando o ouro ao bandido.
Até Seu Clóvis que defendeu o Atlético Rio Negro Clube na juventude dele, só tinha a opção de torcer pelo Fluminense. E soube há pouco, através da minha prima vira-casaca - quando veio à Manaus, disse ser torcedora do Fluminense, eu tenho certeza de que quando éramos mais jovens, ela torcia pelo Flamengo. Justificou dizendo que quem defendeu o Rio Negro, tem de ser Fluminense. Eram clubes co-irmãos -. Como os meus esportes, quase sempre foram individuais e de pé-rapado, como o atletismo e o fisiculturismo, nunca defendi as cores do time da Praça da Saudade.
Torço logo pelo Botafogo, depois que o Rio Negro virou couro de p... Entra e sai, não se decide e agora pretendem até vendê-lo, como prova da má administração.
Botafogo de criancinha. Meu primo Clovis Guimarães Valle Sobrinho, primo do Ulisses como minha avó, fez com que eu torcesse assim.
Então, um dia desses, fui para o teclado e tirei de ouvido, a música cantada pela torcida do Botafogo, nos estádios, atualmente. Experimentei em diversos tons. Pensei em colocar na partitura. Quando fui procurar um único papel com um pentagrama sequer, só encontrei as partituras de maestro. Enormes. Nenhum caderno de música. E olha que eram muitos.
Mas para tudo, tem explicação. Na última mudança para esta casa, Dona Therezinha teve uma grande idéia. Pegar uma porção de livros, colocar em caixas de papelão e deixar numa casa que temos, fechada. O tempo passou, muita coisa aconteceu, inclusive algumas pessoas invadiram e a água encharcou grande parte das caixas.
Agora que fui procurar um único caderno de música, constatei que ficou muito pouco dos livros que havia tocado. Sobrou um Hanon, uns dois livros de Ernesto Nazaré, um outro livro americano que a prima da minha avó mandou encadernar, quando soube que eu havia perdido o meu e acho que um livro de Bach e um de Chopin. O resto, inclusive os cursos de violão, as partituras que o Sinval Gonçalves Filho xerocopiou na Biblioteca Nacional, no Rio, para ver se a gente tocava junto – ele pegando na flauta e eu sentado no banco do piano -, de regência, de arranjo e os song-books da Bossa Nova, do Chico Buarque e muitas partituras do Egberto Gismont, umas do Gil, do Guilherme Arantes, de jazz, de tantos outros compositores eruditos, como o Villa Lobos, Rachmaninov e outros dodecafônicos, ou atonais, outros como Lizst – o metido a besta -, Gershwin, Mahler – nunca li uma biografia de um corno tão manso quanto o nosso colega. A mulher dele o trancava em casa para compor e ia dar. Dar umas voltas por ali, por lá e ele cumpria as ordens à risca. A judia judiava do mala do judeu -, além de muitos cadernos de música, com muitas idéias escritas, inclusive uma ópera-rock, sobre a Guerra do Vietnã, quase acabada e a idéia de um concerto para a Deusa Minerva, por acaso, uma deusa do Monte Olimpo que tem o mesmo nome de uma das minha primas – apenas uma grande coincidência, assim como a música da propaganda da Intell, com aquelas quatro notas, serem idêntica à muitas notas das músicas que permeavam a minha ópera-rock -. E um dia desses quando fomos ver a casa, Dona Therezinha não deixou resgatar nenhum livro daqueles: “Está tudo com mofo. Não vais querer levar essas coisas para casa. Depois tu compras outros.” Como se fosse fácil, comprar toda aquela coleção, inclusive de cursos de universidades inglesas, em Manaus. Chamou uma garis e jogou tudo no carro do lixo.
Só não perdi o curso de bateria composto pelo Bituca, inclusive com as partituras escritas para cada estilo de música. Fiz bem pior. Emprestei para uma amiga antiga e ela emprestou para o ex-marido. Já sei que nunca mais vou ver, como nunca mais vi o meu saco de dormir – aliás, vi o estojo onde era guardado, com um cara que ela conheceu -, o livro sobre o Allende que emprestei para o irmão dela ler e ele emprestou para ela, sem nem me consultar, além de um monte de coisas que na mão dela, desaparecem. Não é pela cor da pele, mas ela é o verdadeiro buraco-negro, o Triângulo das Bermudas, o território abissal mais profundo que conheço. Não faz parte do Governo Norte Americano, mas consegue fazer desaparecer tudo.
Quanto a música da torcida do Botafogo, já tinha inclusive, a partitura toda pronta na cabeça. Sim que dá para fazer um pentagrama no Excell, também à mão, mas a preguiça é maior. Bem maior. Imensamente acima de todos nós.
Sim que dá para fazer tudo na partitura de maestro, mesmo por que, já vem com as vozes definidas, mas não cabe no scanner. É maior do que a minha preguiça.
A música, como desejava colocar no papel, já passou pela cabeça, o arranjo, a escrita, o tom, o pizzicatto das cordas, o contraponto dos metais, mas deixa para lá. Eu a ouvi sozinho.
Quanta música que ouvia sozinho e nunca consegui compor. Às vezes, para montar o gravador, custava muito e acabava esquecendo. Outras, gravava no teclado e quando via, saíam mais de uma idéia. Outras, se perderam em tantos cassetes gravados que eu não tenho coragem de ouvir de novo.É muita coisa. Deixa só aquelas músicas registradas pela Izabel, na Escola Nacional de Música, outras que fiz para a secretária-eletrônica de uma antiga namorada que não queria que eu fosse músico, apenas um executivo de paletó e gravata, e a que fiz para a Cara Carol Carolina que lembro a melodia, mas perdi a letra. Sem contar com a música que fiz para uma quadrilha, com zabumba, acordeon e voz e os fdp, ainda gozaram da minha maviosa e aveludada voz, devidamente aguda. Tudo por causa da pressa. Não deu para pegar o tom correto, não deu para ensaiar direito e a gravação, era para eles mandarem alguém gravar de verdade, para eles dançarem. Acabei dançando eu, quando eles colocavam aquela fita, em todas as apresentações que faziam.
Entrei no banheiro – não sei por que, até hoje, o melhor lugar para ter idéias sobre músicas -, tentando esquecer e então, lembrei do canto da torcida no Rio Negro nos estádios. Já pensei em colocar na partitura e entremear com o hino do clube. Ficou até legal. Mas como falta um caderno de música, cheguei a isto. Mais ou menos, o canto da torcida do Rio Negro, antigamente, adaptado para os tempos ditos modernos:
Galo, Galo, Galo
Galo Carijó
Já fostes um grande clube
Hoje estás na pior
O que fizeram a ti
Que te sangraram sem ter dó
Foi uma coisa feia
Te botarem no penhor. [bis, tris, quadris]
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