sexta-feira, 23 de maio de 2008

PROFESSOR

Hoje bem cedo pela manhã, tomei um susto, ao saber da morte do meu Professor Jefferson Peres.
Contatei algumas pessoas, como a minha irmã mais nova que recebeu a notícia pelo celular da filha, no outro extremo do Brasil, o meu também Professor Noval, para ver se ele levava a notícia para o resto da família dele, do Jefferson e minha, o Doutor Bustela, cumja mãe, era amiga de família e minha outra irmã carola que às 7:00h da manhã já estava na igreja, bem próximo à casa dele, onde saiu e chegou junto com a ambulância.
Pelo menos, uma constatação se tirou de mais esta morte. Ele, assim como Seu Clovis, o Jumbo - Sucatão e muitos outros moradores daquela rua, deixaram, viúvas. Todos. Estranha coincidência. Se algum dia tiverem de trocar o nome da Rua Natal, deverá ser por Rua das Viúvas. Ou Rua dos Enfartos Súbitos, quase todos, no banheiro.
Conheci de perto o Professor Jefferson, na Economia. Matriculei-me em Economia Brasileira e o professor, era justamente ele. Tivemos alguns entreveros, sim. Principalmente pelo modo como ele ministrava a matéria. Eu poucas vezes fiz parte da turma do fundão e nem por isso, era cdf. Na aula de Economia Brasileira, no máximo, ficava na terceira fileira. Porém, perdia grande parte da matéria ministrada. O Professor falava baixinho, como se conversasse consigo, virava para o quadro verde e escrevia com uma letra incompreensível e tínhamos de tentar entender o que ele falava e ao mesmo tempo, decifrar o que ele escrevia. Quase sempre, no fim do quadro, ele apagava tudo e quem não entendesse, não tinha nova oportunidade. Eu ficava quase sempre com o caderno incompleto. Já sabia e deixava espaço para pegar com os outros colegas, principalmente, com as colegas que sempre entendem muito mais do que os colegas, não sei, por que.
Ao fim da aula, ele fazia a chamada. Diferentemente dos outros professores que deixavam os alunos irem saindo, assim que respondiam, ele só deixava sair, ao final de tudo. E realmente ficava difícil para ouvir o meu nome, visto que os outros alunos que já haviam respondido, começavam a conversar e ele cada vez mais, diminuía o tom da voz, à medida em que se conversava. Ao final, na letra T, ficava impossível de escutar. Então tomei outra medida drástica. Quando ele chamava o primeiro nome com a letra M, eu começava a responder. Ele, com os óculos no meio do nariz, só fazia olhar por cima. Nem sei se zangado, ou não. Só me interessava não levar falta. Coisa que ele fazia, sem constrangimento. E não tinha jeito de ele manter o tom da voz, dele falar mais alto, dele não diminuir o tom, por causa dos outros, ou como eu pedi várias vezes, de pelo menos uma vez, fazer a chamada de trás para a frente. Era exato como um relógio suíço.
Então, depois que me formei e me reformei, inclusive depois da última pós-graduação, tive um outro tipo de contato com o Professor. Como caminhava todo dia, de manhã, para caminhar com uma colega de trabalho que desejava caminhar também, comecei a caminhar a partir das 5:30h da madruga. Às 4:30h eu acordava para me aprontar. E exatamente às 5:30h, saía no portão, já devidamente aquecido – coisa que nunca gostei de fazer, nem quando praticava esporte - para chegar até o edifício da minha amiga, às 6:00h, onde íamos caminhar juntos, no Parque do Idoso, próximo à residência dela, por uma hora. As ruas ainda escuras, desertas. Só quando chegava à Rua Recife, é que começava a ver gente. Trabalhadores descendo dos ônibus que chegavam lotados e enchiam as ruas. Antes de chegar à Rua Recife, passava diante da casa dele, obviamente. Almas vivas, só o segurança do Sucatão, os soldados de serviço nas duas casas dos generais da Amazônia, um rapaz considerado maluco que dormia debaixo da árvore, ao lado da casa do Professor e que conversava comigo, na volta da caminhada, pois quando ia, ainda estava dormindo e quase sempre, o Professor, de pijamas, na sacada do quarto, rijo, como estivesse em posição de sentido, acenando todas as manhãs, quando passava caminhando. Ele, parecia que não dormia, sempre na sacada de pijamas, com aquele corpo franzino.
Naquela rua, poucas casas eram de dois andares. E se destacavam a dele e a nossa, com dois andares amplos. A dele se destacava muito mais, por que não fechava os portões, em nenhuma ocasião. Todo dia, toda hora que se passasse na frente da casa dele, podia-se ver a casa inteira, com a piscina logo à frente. Era temeroso o fato de ele não fechar os portões de casa, apesar de os ter, como um portão de um castelo medieval.
De repente, começaram a acontecer crimes naquela rua, mesmo com os a vigilância dos quartéis. Como já havia sido vizinho do Capitão dos Portos, na juventude, sabia que soldado está no posto, para defender só, a segurança dos superiores. Podem matar os outros, na frente das casas dos militares, sendo civil, eles não ajudam em nada. E os crimes multiplicando-se e nunca se teve pelo menos, a ajuda dos soldados, dos sargentos, dos oficiais de serviço. Balearam uma pessoa que vinha dirigindo seu carro, na frente da casa dos generais, o carro derrubou o muro de uma das casas, onde o motorista já inerte parou com o carro, todo mundo da rua foi ver a causa do estrondo e só o pessoal das casas dos generais, pareciam apartados do povo. Como sempre. Os generais, devem pagar muito mais tributação do que qualquer outro brasileiro.
Então, quando o crime variou para os assaltos naquela rua, a primeira casa a ser visitada, foi justamente, a do Professor. E não fora uma única vez. E os portões escancarados. A nossa que vivia de portões bem fechados, recebeu quase um dezena de vezes a visita do amigo do alheio, a casa dele que não fechava as portas nem para o vento, deve ter extrapolado em visitas.
Depois disso, os contatos que tive com o Professor, eram em festas sociais. Ele sempre vinha até a mesa onde estava acompanhando Dona Therezinha – depois que ficou viúva, virei Damo de Companhia de Dona Therezinha e logo no primeiro evento em que a acompanhei, senhoras distintas, ligadas às autoridades do estado que não me conheciam, começaram a espalhar que mal havia enviuvado e já estava de “caso” com um rapaz muito mais novo do que ela. Só souberam quem eu era, quando começaram a elogiar as sobremesas feitas, para um restaurante do meu primo, em que propus fazer as sobremessas, na brincadeira e virou realidade, até elogios rasgados. Mas não foram as únicas. Certa vez, o filho do Professor foi entregar uma encomenda que a “Lindoca” havia mandado para Dona Therezinha e acho que estava de sunga e roupão. Normalmente, o pinxainzal já não fácil de ser domado, imagina, molhado. Quando fui atender a campainha, o filho dele perguntou se eu era o empregado da casa. “Sou o filho dela.” Um constrangimento anormal. As pessoas se confundem, principalmente, quando não se conhecem - perguntava como eu estava, se estava bem.
A última vez em que o encontrei, numa dessas recepções, primeiro veio meu Professor Zé Seráfico, de muletas, conversar. Nem ele sabia o que tinha. Eu que não sou médico, já sei de cor. PVC. Porra da Velhice Chegando. Inclusive a filha da minha atual vizinha, 10 anos mais nova do que eu, não pode mais caminhar, por causa de um monte de dores que tem pelo corpo. E a mãe, segundo me confidenciou um dia desses que não pode passar os ungüentos para fazer massagem nas dores dos membros inferiores, por que ela tem muita carne na região glútea. Juro que nunca havia prestado atenção nesse detalhe. Ela quando caminha, balança tanto o rabo de cavalo que nem dá para observar as outras partes. Eu tenho o maior respeito, por ser filha da senhora que é minha companheira de caminhada. De vez em quando pergunto uns detalhes para a companheira de caminhada, sobre a outra. Só curiosidade. Nenhuma maldade me passa pela cabeça. Eu sei que ela é solteira, adora crianças, engenheira química, sem filhos, de vez em quando, toma conta do filho da irmã e toda sexta-feira, quando sai do trabalho, fica horas e horas, no salão, próximo ao INPA. Mas, agora, todo dia após o trabalho, vai direto para a fisioterapia, pois está com cores por todo o corpo, devido a alguma LER. Pura curiosidade. Mas pelo menos, algumas coisas a gente tem em comum. Eu estudei Física no mesmo instituto, sou solteiro, sem filhos e adoro brincar de fazer criança.
Depois veio o Professor. Ele nas últimas vezes, mostrava-se preocupado com os quilos a mais que aparento. Então na hora em que todo mundo estava se despedindo, ele puxou Dona Therezinha e falou por vezes: “Therezinha cuida desse menino. Ele está muito gordo. Um rapaz novo, nessas condições, é preocupante. Faz esse rapaz emagrecer.” E se virando para mim: “Cuidado com a gordura. Ainda és muito novo, para relaxar assim. te cuida.”
E qual não foi minha surpresa, já de manhã, da notícia sobre o enfarto fulminante no Professor. Magro, sem tecido adiposo, tudo o que se espera, nunca vai morrer do coração, ou de doenças próximas.
Domingo passado, encontrei meu colega de Economia, de Campus Universitário, quando estudava Física e ele, Agronomia, e ex-companheiro e ex-Presidente do CACEC e do CORECON, Jefferson Praia, suplente do Professor, no Senado. Ele falava justamente de como o Professor conduzia as rédeas do partido, entre tanta ave de rapina, preocupa muito mais em defender os seus interesses, sem nada a acrescentar ao país, ao estado e ao município.
Nos últimos meses, segundo minha irmã mais nova que morando em Brasília, tinha mais contato com ele, dizia que estava desiludido com os rumos que a política tinha tomado. Debates sem profundidade e muita gente, apenas defendendo os seus interesses. Dizia que iria largar a política, ao fim do mandato.
De um lado, perco eu, um Professor, mesmo com quem não afinava na sala de aula, passou grandes lições sobre o Brasil. Perde o PDT/Amazonas, agora entregue a um bando de gente interesseira que vai dificultar e muito, o trabalho dos poucos íntegros que ainda fazem parte da agremiação. Uma nau sem rumo, com um possível comandante sem saber para onde ir. Perde o Senado Federal, um de seus membros que tinha base e quando falava, sabia o que dizia. Perde a política nacional, numa época em que vemos pessoas que pensam mais em enriquecer, do que em defender alguma causa, ou mesmo que tenham base, quando discursam, além do populismo já conhecido. Enfim, perde o Brasil, como um todo, um cidadão que sabia defender o que dizia, por ter base e propostas para todos.
Espero que o Jefferson, tão íntegro quanto o Professor e que só muda o sobrenome, de Praia, tenha uma atuação tão digna e marcante, quanto seu xará, Peres.

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