sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A DOR DE JHULI

Nada pior do que ligar à uma pessoa, principalmente uma mãe, no dia do seu aniversário e saber que neste dia, é a Missa de Sétimo Dia de um filho. E uma morte banal, irracional e de uma alma apequenada, talvez pela pressão social, de aparecer aos outros, ao invés apenas de ser. Vencer na vida, não é amealhar bens, fortunas, riquezas; vencer, é viver, simples, mas esta lição, parece que estão nos relegando ao esquecimento de que existe sim e pode ser vivida.
A sociedade brasileira, ainda, é de quem pode mais, parece que ainda não saímos das cavernas, ainda pensamos que estamos sempre na Casa Grande e os outros a quem consideramos inferior, tem de viver na Senzala, o rico pisando no pobre, o forte batendo no fraco, o armado, matando quem não tem nada com nada, desarmado, vitimado, apenas porque cruzou o seu caminho, como se a vida, não só humana, não significasse nada e se pudesse brincar, desde que seja de quem nos é caro, querido. Ainda se pensa a tortura que foi ensinada na CIA, ao Delegado Paranhos Fleury, para ser disseminado em todas as ditaduras pró-EUA, como uma forma de disciplinar os maus feitores, quando na verdade, nesta película nacional, ainda muito chinfrim, é muito difícil saber quem é mocinho e quem é mocinha. Só sei que parece que todos, somos bandidos disfarçados, mascarados, apesar de máscaras não se usarem mais nas festas populares nacionais, apenas em arremedos do que vem de fora, como o Halloween e no dia a dia para nos disfarçarmos de nós que a cada dia, parece que temos vergonha de sermos e nos mostrarmos de cara lavada, sem artifícios e, principalmente, sem artificialismos.
Fui recebido, pela filha, como fui, num aniversário do Levino que combinamos em fazer uma festa surpresa e quando cheguei, a Ana Ruth Araújo, hoje médica e professora da UFAm, quando éramos ainda do Partido me chamou de lado e me avisou.
- Não vai fazer gracinhas, a mãe do Levino morreu.
Pensei que fosse brincadeira, muita gente acha que eu sou muito brincalhão, depois vi que era verdade. No dia do aniversário dele, a mãe, na terra natal dele, Mato Grosso, foi retirar a roupa do varal e um raio a atingiu, vitimando-a ali mesmo. São momentos que eu realmente não fui, ou não sou preparado para enfrentar.
Quando liguei e a filha me falou para não fazer perguntas, para não lembrá-la de nada, nem sabia o que estava acontecendo, quando a aniversariante aos prantos me falou, fiquei sem saber o que fazer. Eu aprendi tanta coisa, mas nessas horas, sou um completo zero à esquerda. Talvez tenham me ensinado, mas eu faltei à esta matéria, em particular, apesar de sempre estar envolvido com arte, mas acho que esse lado sentimental é muito mal construído.
Entendi no choro da Jhuli, a mãe aniversariante e ao mesmo tempo desesperada sem saber a quem apelar que o filho estava num posto, divertindo-se, quando chegaram, com uma chave de fenda, desferiram vários golpes, inclusive nos olhos.
Eu sempre disse, não sou o melhor ombro, o melhor amigo para essas horas. Eu me lembro de quando fomos assistir ao filme As Horas, Margá e eu e no fim, ela despencou em choro. Não sabia como me portar, como confortar. Tenho medo de parecer piegas e/ou, aproveitador nessa horas, então fico recolhido, como se voltasse à posição fetal.  
Tinão dizia que eu era difícil de receber carinho. Eu ficava até com vergonha. Ela queria fazer alguma carícia, não avisava, eu, no primeiro momento, recolhia-me como se estivesse sendo agredido, depois ficava parado, mas ela já perdia o tesão de fazer um afago e ficava um clima meio chato.
Quando recebia notícia da Jhuli me lembrei de quando a Suelem, era empregada aqui em casa. O telefone tocou, uma das filhas, dizendo que o filho havia sido esfaqueado pelos traficantes ao lado. Foi um grito tão agudo e ela veio para cima de mim.
- Seu Thevis, meu filho foi esfaqueado. Seu Thevis, meu filho!
Um grito que acho, deve ter sido ouvido em todo o Condomínio. Já havia se mudado, justamente por causa de boca de fumo, acabou mais próxima e vítima da sanha da sociedade ter, de apenas procurar enriquecer, nem se for com perda de vidas, o sonho de enriquecer de qualquer maneira, mesmo colocando em perigo, toda a civilização. Eu liguei para o marido dela vir pegá-la, avisei à portaria para deixá-lo entrar e Dona Ivette foi pegar um copo de água, com açúcar, para ela se acalmar. Mas do que isso, nem sei o que fazer.
Talvez, quem sabe, aprendamos a respeitar a dor alheia, seja quem for, de quem for, antes de pré-julgarmos, como aconteceu no caso da Suelem e da Edilene que não acreditaram, acharam que era uma escapatória, no outro dia, o jornal noticiou exatamente como fora dito. A violência tão próxima e parece que não nos afeta mais. A violência vende, a violência chama público, a violência dá audiência. E já nos consideramos Homossapiens, imagina!
As pessoas se apegam muito em deuses, em orações, em fazer média com o sobrenatural e acabam esquecendo que antes de irem para o Além, têm de aprender a viver neste mundo, junto com todos, com tanta diversidade, inclusive de vida. Em pleno Terceiro Milênio, o que governa o mundo, é justamente a discussão sobre as religiões, os fundamentalismos, mesmo que alguns se disfarcem, mas ainda queiram dominar, como no Brasil, onde símbolos religiosos, ainda povoam repartições públicas, como se fosse muito natural, todos tivessem de aceitar e calar. Uma boa ação, quando na verdade, é imposição de uma ideologia, mesmo que da maioria, ainda assim, é uma forma de mostrar poder, em nome de Jesus, o Salvador que segundo a lenda, veio ensinar a humildade a seus seguidores.
Eu fiquei abatido, acho que até a dor de estômago que estou sentindo, é psicossomática.
E a gente pensa que só acontece com os outros, parece que nos sentimos numa redoma à prova de tudo, inclusive de vida. As estatísticas, mesmo maquiladas, são impensáveis para uma espécie que e diz racional. Quando de repente, acontece bem próximo, é ontem, é hoje, é amanhã,o próprio terrorismo de estado, incentiva grupos de extermínios, não é de hoje e esse justiciamento com as próprias mãos, sem precisar da defesa do réu, parece a coisa mais direita, cada um se acha mais justo do que o outro, quando acaba sendo tão marginal, quanto o outro a quem acusa.
Até quando, o desrespeito ao próximo vai perdurar, quando vamos realmente agir pensando que o que nos causa dor, causa dor aos outros que são iguais, não só na hora do Pai Nosso, onde todos dão as mãos e se abraçam, sem ao menos se conhecerem, quando, sem precisarmos fazer média para sermos salvos para a vida eterna, vamos realmente ser civilizados? Civilização é aprender com os saberes, mas também aprender que o outro existe, podemos até discordar, mas temos de saber que quanto mais questionamentos existirem, mais avançaremos. A perfeição é imutável, a discórdia é o que nos faz sair do lugar, da mesmice. Pena que a mesmice tem nos vencido, o debate morrido, por falta de conteúdo, até na hora do entretenimento, para mostrar que se pertence a um grupo de trogloditas, como no futebol, ao invés de nos divertirmos, acabando querendo eliminar quem não é do mesmo clube e como diria Seu Clóvis.
- Quando se esgotam os argumentos, entra a violência!
Uma sociedade que parece ser grandes coisas, apenas o Achismo, quando realmente tem de pensar, tem de mostrar conhecimento, mostra apenas o extermínio do seu igual, coisa que não acontece nas outras espécies que a religião classificou com irracionais.
Qualquer desconforto em uma observação contrária, nem pensamos para rebater, para mostrar o nosso conhecimento dos fatos, já se vai na tentativa de eliminar o diferente.
Mas uma sociedade onde o terrorista é quem diz lutar contra o Terrorismo, onde a segregação é o ponto principal que a mantém, o Brasil está entre o terceiro e o quarto país onde existem mais presos, ou seja, a segregação não acabou com a Abolição da Princesa Izabel, muito pelo contrário, ela está muito mais viva e segregando muitos mais. Não concordou, é louco, é marginal, é terrorista, é pobre, é preto, é puta, é favelado, é... e assim, vamos formando uma sociedade de bandidos que apartam da convivência coletiva, quem não lhes é conveniente. E a pior segregação que se pode fazer, é a morte, é assassinar quem não se alia a nós. Matar, por discordar é eliminar definitivamente, quem nos pode oferecer resistência.E quando não se tem certeza de que se pode enfrentar de igual o outro, apenas vencemos na covardia.
E isso acontece, sem que percebamos, que corroboramos, como se nos protegesse. Corroboramos com a segregação, quando devíamos repensar o que nos leva a ter tanto medo de quem pode ser mais uma a avançar na busca de uma vida mais digna e ampla.  
Talvez nós aprendamos, antes do Armageddon, ou, antes do cataclismo que nós mesmos estamos gerando, a conviver, a coexistir, mesmo discordando, sem a necessidade de afastar o outro, pelo simples motivo de não pensar igual. Ou, em se mantendo o atual estágio de liquidar os outros, quantos realmente sobreviverão e terão condições de sobreviver sozinhos, sem a união de forças, para enfrentar os perigos naturais?

Por enquanto é torcer para que a humanidade acorde e veja que apenas está repetindo o mesmo erro de quando se dividiu entre rico e pobre, senhor e escravo, vencedor e vencido e desde então, apenas fugimos de nós mesmos. E na fuga, vitimamos a humanidade sem discriminação.

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