Nada pior do que ligar à uma pessoa, principalmente
uma mãe, no dia do seu aniversário e saber que neste dia, é a Missa de Sétimo
Dia de um filho. E uma morte banal, irracional e de uma alma apequenada, talvez
pela pressão
social, de aparecer aos outros, ao invés apenas de ser. Vencer na vida, não é
amealhar bens, fortunas, riquezas; vencer, é viver, simples, mas esta lição,
parece que estão nos relegando ao esquecimento de que existe sim e pode ser
vivida.
A sociedade
brasileira, ainda, é de quem pode mais, parece que ainda não saímos das
cavernas, ainda pensamos que estamos sempre na Casa Grande e os outros a quem
consideramos inferior, tem de viver na Senzala, o rico pisando no pobre, o
forte batendo no fraco, o armado, matando quem não tem nada com nada, desarmado,
vitimado, apenas porque cruzou o seu caminho, como se a vida, não só humana, não
significasse nada e se pudesse brincar, desde que seja de quem nos é caro,
querido. Ainda se pensa a tortura que foi ensinada na CIA, ao Delegado Paranhos
Fleury, para ser disseminado em todas as ditaduras pró-EUA, como uma forma de
disciplinar os maus feitores, quando na verdade, nesta película nacional, ainda
muito chinfrim, é muito difícil saber quem é mocinho e quem é mocinha. Só sei
que parece que todos, somos bandidos disfarçados, mascarados, apesar de
máscaras não se usarem mais nas festas populares nacionais, apenas em arremedos
do que vem de fora, como o Halloween e no dia a dia para nos disfarçarmos de
nós que a cada dia, parece que temos vergonha de sermos e nos mostrarmos de
cara lavada, sem artifícios e, principalmente, sem artificialismos.
Fui recebido,
pela filha, como fui, num aniversário do Levino que combinamos em fazer uma
festa surpresa e quando cheguei, a Ana Ruth Araújo, hoje médica e professora da
UFAm, quando éramos ainda do Partido me chamou de lado e me avisou.
- Não vai fazer
gracinhas, a mãe do Levino morreu.
Pensei que fosse
brincadeira, muita gente acha que eu sou muito brincalhão, depois vi que era
verdade. No dia do aniversário dele, a mãe, na terra natal dele, Mato Grosso,
foi retirar a roupa do varal e um raio a atingiu, vitimando-a ali mesmo. São
momentos que eu realmente não fui, ou não sou preparado para enfrentar.
Quando liguei e a
filha me falou para não fazer perguntas, para não lembrá-la de nada, nem sabia
o que estava acontecendo, quando a aniversariante aos prantos me falou, fiquei
sem saber o que fazer. Eu aprendi tanta coisa, mas nessas horas, sou um
completo zero à esquerda. Talvez tenham me ensinado, mas eu faltei à esta
matéria, em particular, apesar de sempre estar envolvido com arte, mas acho que
esse lado sentimental é muito mal construído.
Entendi no choro
da Jhuli, a mãe aniversariante e ao mesmo tempo desesperada sem saber a quem
apelar que o filho estava num posto, divertindo-se, quando chegaram, com uma
chave de fenda, desferiram vários golpes, inclusive nos olhos.
Eu sempre disse,
não sou o melhor ombro, o melhor amigo para essas horas. Eu me lembro de quando
fomos assistir ao filme As Horas, Margá e eu e no fim, ela despencou em choro.
Não sabia como me portar, como confortar. Tenho medo de parecer piegas e/ou,
aproveitador nessa horas, então fico recolhido, como se voltasse à posição
fetal.
Tinão dizia que
eu era difícil de receber carinho. Eu ficava até com vergonha. Ela queria fazer
alguma carícia, não avisava, eu, no primeiro momento, recolhia-me como se
estivesse sendo agredido, depois ficava parado, mas ela já perdia o tesão de
fazer um afago e ficava um clima meio chato.
Quando recebia
notícia da Jhuli me lembrei de quando a Suelem, era empregada aqui em casa. O telefone
tocou, uma das filhas, dizendo que o filho havia sido esfaqueado pelos
traficantes ao lado. Foi um grito tão agudo e ela veio para cima de mim.
- Seu Thevis,
meu filho foi esfaqueado. Seu Thevis, meu filho!
Um grito que
acho, deve ter sido ouvido em todo o Condomínio. Já havia se mudado, justamente
por causa de boca de fumo, acabou mais próxima e vítima da sanha da sociedade
ter, de apenas procurar enriquecer, nem se for com perda de vidas, o sonho de
enriquecer de qualquer maneira, mesmo colocando em perigo, toda a civilização.
Eu liguei para o marido dela vir pegá-la, avisei à portaria para deixá-lo
entrar e Dona Ivette foi pegar um copo de água, com açúcar, para ela se
acalmar. Mas do que isso, nem sei o que fazer.
Talvez, quem
sabe, aprendamos a respeitar a dor alheia, seja quem for, de quem for, antes de
pré-julgarmos, como aconteceu no caso da Suelem e da Edilene que não
acreditaram, acharam que era uma escapatória, no outro dia, o jornal noticiou
exatamente como fora dito. A violência tão próxima e parece que não nos afeta
mais. A violência vende, a violência chama público, a violência dá audiência. E
já nos consideramos Homossapiens, imagina!
As pessoas se
apegam muito em deuses, em orações, em fazer média com o sobrenatural e acabam
esquecendo que antes de irem para o Além, têm de aprender a viver neste mundo,
junto com todos, com tanta diversidade, inclusive de vida. Em pleno Terceiro
Milênio, o que governa o mundo, é justamente a discussão sobre as religiões, os
fundamentalismos, mesmo que alguns se disfarcem, mas ainda queiram dominar, como
no Brasil, onde símbolos religiosos, ainda povoam repartições públicas, como se
fosse muito natural, todos tivessem de aceitar e calar. Uma boa ação, quando na
verdade, é imposição de uma ideologia, mesmo que da maioria, ainda assim, é uma
forma de mostrar poder, em nome de Jesus, o Salvador que segundo a lenda, veio
ensinar a humildade a seus seguidores.
Eu fiquei
abatido, acho que até a dor de estômago que estou sentindo, é psicossomática.
E a gente pensa
que só acontece com os outros, parece que nos sentimos numa redoma à prova de
tudo, inclusive de vida. As estatísticas, mesmo maquiladas, são impensáveis
para uma espécie que e diz racional. Quando de repente, acontece bem próximo, é
ontem, é hoje, é amanhã,o próprio terrorismo de estado, incentiva grupos de
extermínios, não é de hoje e esse justiciamento com as próprias mãos, sem
precisar da defesa do réu, parece a coisa mais direita, cada um se acha mais
justo do que o outro, quando acaba sendo tão marginal, quanto o outro a quem
acusa.
Até quando, o
desrespeito ao próximo vai perdurar, quando vamos realmente agir pensando que o
que nos causa dor, causa dor aos outros que são iguais, não só na hora do Pai
Nosso, onde todos dão as mãos e se abraçam, sem ao menos se conhecerem, quando,
sem precisarmos fazer média para sermos salvos para a vida eterna, vamos
realmente ser civilizados? Civilização é aprender com os saberes, mas também
aprender que o outro existe, podemos até discordar, mas temos de saber que
quanto mais questionamentos existirem, mais avançaremos. A perfeição é
imutável, a discórdia é o que nos faz sair do lugar, da mesmice. Pena que a
mesmice tem nos vencido, o debate morrido, por falta de conteúdo, até na hora
do entretenimento, para mostrar que se pertence a um grupo de trogloditas, como
no futebol, ao invés de nos divertirmos, acabando querendo eliminar quem não é
do mesmo clube e como diria Seu Clóvis.
- Quando se
esgotam os argumentos, entra a violência!
Uma sociedade
que parece ser grandes coisas, apenas o Achismo, quando realmente tem de
pensar, tem de mostrar conhecimento, mostra apenas o extermínio do seu igual,
coisa que não acontece nas outras espécies que a religião classificou com
irracionais.
Qualquer desconforto
em uma observação contrária, nem pensamos para rebater, para mostrar o nosso conhecimento
dos fatos, já se vai na tentativa de eliminar o diferente.
Mas uma sociedade
onde o terrorista é quem diz lutar contra o Terrorismo, onde a segregação é o
ponto principal que a mantém, o Brasil está entre o terceiro e o quarto país
onde existem mais presos, ou seja, a segregação não acabou com a Abolição da
Princesa Izabel, muito pelo contrário, ela está muito mais viva e segregando
muitos mais. Não concordou, é louco, é marginal, é terrorista, é pobre, é
preto, é puta, é favelado, é... e assim, vamos formando uma sociedade de
bandidos que apartam da convivência coletiva, quem não lhes é conveniente. E a
pior segregação que se pode fazer, é a morte, é assassinar quem não se alia a
nós. Matar, por discordar é eliminar definitivamente, quem nos pode oferecer
resistência.E quando não se tem certeza de que se pode enfrentar de igual o
outro, apenas vencemos na covardia.
E isso acontece,
sem que percebamos, que corroboramos, como se nos protegesse. Corroboramos com
a segregação, quando devíamos repensar o que nos leva a ter tanto medo de quem
pode ser mais uma a avançar na busca de uma vida mais digna e ampla.
Talvez nós
aprendamos, antes do Armageddon, ou, antes do cataclismo que nós mesmos estamos
gerando, a conviver, a coexistir, mesmo discordando, sem a necessidade de
afastar o outro, pelo simples motivo de não pensar igual. Ou, em se mantendo o
atual estágio de liquidar os outros, quantos realmente sobreviverão e terão
condições de sobreviver sozinhos, sem a união de forças, para enfrentar os
perigos naturais?
Por enquanto é
torcer para que a humanidade acorde e veja que apenas está repetindo o mesmo
erro de quando se dividiu entre rico e pobre, senhor e escravo, vencedor e
vencido e desde então, apenas fugimos de nós mesmos. E na fuga, vitimamos a
humanidade sem discriminação.
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