segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A BELA SONHADORA


Caderno 2
Todos conhecemos a história da Bela Adormecida – pelo menos deveríamos lembrar, mas muita gente fumou maconha na juventude e hoje tem uma memória péssima, não se lembra nem quem tirou a virgindade que dizem, ninguém nunca esquece, ou alguns quem eram seus pais, completos disco-rígido formatado – onde a bruxa se sentindo abaixo da beleza da protagonista a faz dormir por 100 anos - depois de comer uma maça, ou furar a mão numa agulha, não estou bem certo, não que eu tenha fumado maconha vencida, mas faz tanto tempo a minha infância que certas coisas começam a falhar – até que um Príncipe a desperta com um beijo.
Fosse hoje, mesmo que fosse para seu bem, daria uma confusão danada. Um simples beijo já é motivo de ser convidado educadamente a comparecer à Delegacia da Mulher, quiçá, ao Tribunal de Justiça para se retratar moral, espiritual, financeiramente diante da vítima. É dano moral, dano material, dano psicológico, dano físico, dando que está danado.
Eu sempre digo que tudo tem dois lados, até os travestis. Se por um lado é bom para proteger a dignidade feminina, de outro, tem espertalhona inventado ataques, para ver se ganha mais do que a do burro.
Na verdade, é um conto cheio de meias verdades.
Dizem que no conto original, depois da Bela ser encontrada ainda em coma pelo Príncipe, deitada, sem ninguém por perto, fora estuprada, engravidara e desde então, tivera muitos filhos, mesmo sem querer, sem ser consensual, pois o Príncipe a mantivera, juntos aos filhos em cárcere privado, longes do contato com o mundo, como uma escrava sexual.
Dizem que todas as histórias infantis eram muito rígidas nos castigos aos vilões, mas por algum motivo, foram sendo amainadas e tudo virou um conto de fadas. Dizem também que no fim de Cinderela, as irmãs acabavam mal, os pássaros furavam-lhes os olhos, uma delas, cega, tropeçou e um galho entrou em seu peito, as outras, atônitas querendo fugir do ataque dos animais, também tiveram fins trágicos. Mas de repente mudaram tudo, inclusive a história da Bela Adormecida. O Príncipe virou o salvador da pátria, virou bom moço, quando na verdade, pela visão de mundo atual, seria um criminoso, um depravado, um aproveitador inescrupuloso daquela mulher indefesa.
Mas o conto em si, é mais uma controvérsia sobre beleza.
Quando os povos eram soberanos em suas escolhas, em seus pensamentos, e não guiados por conceitos publicitários e econômicos, beleza era algo subjetivo e pessoal, o que era belo para um, podia não ser para outros e assim em diante. Havia o contraponto, podia-se discordar, ou pensar diferente.
Agora, beleza é quase uma imposição social e feita para gente aculturada. No Brasil dos estereótipos, e das imposições, como um afago democrático, as representantes da beleza são Gisele Bündchen, Deborah Secco, Fernanda Lima. Que Deus me livre! Eu gosto de mulher com algo mais e essas apesar de serem quase apresentadas como mercadorias em exposição, para mim, têm tudo de menos. Inteligência zero, corpo escroto, bunda que não são nádegas, em suma, não fazem o meu estilo e nem eu me deixo manipular por quem quer que seja.
Eu, pessoalmente, tenho o maior tesão pela Chris Vianna, pela Dani Suzuki, pela Fabiana Murer e pela Lady Gaga. Essas duas últimas, não pelo corpo em si, mas pelo que representam, por sua posição social e suas realizações. Para mim, inteligência, personalidade, autoestima, charme, capacidade profissional, também são muito atraentes, são formas de também atrair minha atenção para com a mulher. Dão tanto tesão quanto um corpo escultural.
Eu tenho a maior admiração pela Alicia Keys, Diana Krall e a Lady Gaga. Tenho a maior vontade de compor a quatro mãos e dois órgãos, de preferência sexuais, o meu no delas. Em separado cada uma por vez.
Tem muito homem que não tem coragem de divergir da opinião pública. Não os chamaria de homens, no máximo, enrustidos. Aí uns publicitários que hoje querem ser o Quinto Poder, depois do Quarto Poder que não é público, nem eleito, mas incita multidões, a agirem segundo os interesses de seus proprietários, jogam o que dizem ser o ideal de beleza e esses enrustidos compram, para não parecerem fora do senso-comum, ou desatualizados com o modismo de momento. E assim, até a Lucélia Santos já foi gostosa, por um bom tempo. Tem quem compre, sem pestanejar.
No Brasil miscigenado e de maioria com pele escura, olhos azuis, pele clara e cabelos louros, é sinônimo de beleza na certa.
Quando universitário, havia uma garota baixinha, macérrima que se achava linda, talvez por ser clara, cabelos claros e ter olhos azuis. Só isso. Eu não a achava sequer interessante. Mas ela se vendia, quem sabe, acabe pegando e aí seu preço atinja altos patamares, em termos de beleza que se vende hoje, como uma mercadoria a ser consumida na vitrine.
A beleza, para quem não tem tanta capacidade, ou outras qualidades, é fundamental. Mulher, viado e enrustido, fazem questão de sempre parecerem lindos. A beleza nesses casos importa mais do que caráter, inteligência, eficiência, capacidade e tudo o mais.
Então, o conto da Bela Adormecida, gira em torno da beleza.
Por causa da opinião de um espelho, talvez o alter-ego da própria bruxa, essa se sentiu insegura em relação à concorrência da Bela e se transformou em uma velhinha sem plástica, sem nada, para realizar sua mandinga que assim que a Bela se furasse no corrimão da escada, ao invés de pegar tétano, seria vítima de um feitiço que só poderia ser quebrado com um beijo de quem seria seu Príncipe Encantado.
Talvez se possa dizer que mais do que a beleza física, a beleza tem mais a ver com o estado emocional da mulher. Uma mulher amada, ou se sentindo amada, mesmo ao lado de um canalha, exala beleza, segurança e felicidade. De outra forma, vira uma mulher enrugada, triste, carcomida, acabrunhada, como a bruxa que era bela na minha visão infantil, mas de repente, ao se sentir insegura, virou uma velhinha decadente e rancorosa.
Todas as discussões já foram realizadas, só se esqueceu de discutir os sonhos que a Bela teve nesses 100 anos. Ou se ao menos sonhou.
Como toda falácia judaico-cristã, o que se mostra em público quase nunca condiz com o que fazem às escondidas. O mundo aprendeu a ser assim, falso, covarde e cheio de dedos para não se mostrar em sua integralidade.
Para quem via o sono de Bela, era a imagem da pureza messiânica, aquela onde o sexo é sujo, Maria é imaculada e Sansão era másculo.
E os sonhos?
Dizem cuidadores que se revezavam nesses 100 anos que a Bela vivia molhada e não era nem suor, muito menos água. Molhadinha de às vezes, terem de mudar a calcinha a cada minuto.
Como nos sonhos os vernizes sociais, culturais, religiosos e ideológicos não aparecem, Bela gozou o período de todo jeito. Foram 100 anos de orgasmos múltiplos, coisa que enquanto desperta, não teve sequer, ao menos um.
Dizem que tudo o que acontece, fica registrado no Universo. O Big-Bang está registrado lá no fundo do Universo. Aquela traição que tu pensas, ninguém viu, nem sabe, em algum lugar, mesmo que acontecido na juventude, está registrada.
Então Rose Kelly, astrofísica aplicada, testando uma máquina de recuperação de dados, acoplada a um observatório de radiotelescópio, encontrou um sinal que pela posição e o tempo que levava para chegar até sua posição, só podia ser de muito tempo atrás. Era o conto da Bela Adormecida. Pelo menos, 20 anos-luz (1,89 X 1014km).
Rose emprestou o Tradutor Cognitivo de Amanda Kertz que traduzia as correntes mentais, em áudio e vídeo exatamente.
Então, como mulher sempre é mais curiosa do que homem, por isso Adão permaneceu sempre cumprindo as ordens de Deus e Eva é que procurou se achegar à Árvore do Saber, senão a humanidade nunca teria evoluído, estaria ainda com uma folha de parreira nas partes e pensando que o Universo gira em torno da Terra; começou a compilar os sonhos de Bela.
No primeiro sonho, Bela era peixe, ainda virgem, de repente a civilização se fez presente e ela engravidou. Quando revelou, foi humilhada pela família, pelos amigos e pela comunidade onde habitava. O ser superior deles não admitia sexo, antes de colocar o anel no dedo. Hoje, é normal, até sem se conhecer, colocar o dedo no anel e nem por isso acharem que é pecado. É mais fácil colocar o dedo no anel, do que um anel no dedo. Só acaba a fase de se brincar com o anel, quando se coloca uma aliança no dedo esquerdo. Daí nem tocar com o dedo no anel, é uma luta.
Depois de muito tempo é que Bela foi inocentada. Havia um pescador solteiro que ficava dias pescando e quando não pegava nem piranha, masturbava-se dentro d’ água, o que acabou em gravidez indesejada.
Para sorte desse pescador, não era no Rio Amazonas, porque o suor, o sêmen e o sangue, atraem um peixe malvado que entra nos orifícios e faz um estrago sem ser convidado, conhecido como candiru. Ele toca um trombone de couro dentro d’ água, acabaria virando o feitiço contra o feiticeiro.
Quando Bela pariu, nasceu uma bela sereia que todos queriam mamar nos peitos e saciar a fome, comendo o rabo.
Outro sonho traduzido foi dela estar no templo religioso e de repente fazer sexo com todos aqueles que gostavam da coisa em si. Tinha pomba por todos os lados e a Pomba do Divino, aquela mesma, por cima dos outros. E da Bela, em particular. Só nesse sonho, teve orgasmos por semanas e dizia que seu nome era Maria e jurava que ainda era a Virgem.
Do lado de fora, as e os cuidadoras e cuidadores, era por e tirar a calcinha toda melada, mesmo que a expressão pública fosse da mulher mais carola possível.
E nesta história, neste conto de fadas, assim que despertou de seu tormento, Bela fez questão de apagar o seu passado e reescrever sua história, o que hoje, é bem normal, daqui a pouco, as pessoas nem terão passado, já nascerão naquele dia, adultas e prontas. Uma história a partir dos conceitos mais reacionários do momento.
Corava se falassem em sexo, reprimia qualquer palavrão, que dizia ser indigno ao nome do Senhor. Era outra imagem, daquela dos sonhos.
[...]
Quando tive uma crise de vesícula e fui internado no P.S. 28 de Agosto, ao meu lado, havia uma garota que tomara remédios para se suicidar. Eram todos evangélicos na família, tudo de pura extirpe. A garota em coma, quando tinha convulsões, esquecia o filtro social que se tem de mostrar, ao ser membro dessas igrejas. Falava cada palavrão e se via que estava em coma. Como, não sei. Eu até aprendi alguns.
- Solta caralho!
- Filho da puta!
- Vão tomar no cu!
Talvez sempre quisera gritar esses impropérios, mas diante de tanta falsidade, só pode realizar o que desejava, em seu leito de morte.
[...]
Depois de liberta, Bela liderava campanha contra o aborto, participava de qualquer procissão, inclusive da Marcha Para Jesus, encabeçava campanhas contra novelas que não seguiam o que considerava “normal”, vivia se intitulando de democrata apesar de participar das campanhas pela volta da ditadura, por não aceitar opinião contrária, e, até o fim deste conto, viveu se reprimindo, fingindo orgasmos, ou de outra feita, que nem pensava nisso, quando era conivente. Para não perder o Príncipe Encantado, ao invés de dizer que ele era ruim de cama, preferia representar a felicidade eterna.
Desde que Rose Kelly descobriu essa vida de falsidade, quando alguém citava a Bela Adormecida ela pensava na Frígida em Perpétua Vigília. E quando falavam nessas pessoas, principalmente homens para quem a beleza é a única capacidade da mulher, ela os comparava ao Príncipe Encantado que era estuprador, ou seja, não tinha capacidade nem para encantar uma mulher, só pensava na sua satisfação pessoal e só gostava de mulher “pura”. Por isso, só pegava dessas que se fingindo submissas, fingindo subserviência a ele, faziam-no de tolo.
Um mundo de contos de fadas onde o “natural” eram todos enganarem a todos, pensando enganarem os outros.
E a Bela continua por aí, pensando que é contemporânea e até feminista e dona de suas decisões. Ao invés de cultivar sua beleza, procura se comparar à beleza comercial, vendida como única, ou apreciável, para gerar lucros a certas empresas e empresários do ramo.

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