CADERNO 4 25 de agosto de 2015
Eu digo sempre que eu tenho o desenho como um
passatempo, ainda mais agora, depois da internet, quando o mundo virou um
grande elevador, ninguém conversa mais com os outros, todo mundo de cabeça
baixa, ninguém, ao menos encara o outro presente, em qualquer ambiente as
pessoas estão se comunicando com aparelhos, mas nunca no tempo presente,
ambientes lotados, só que cada um disperso como se estivesse sozinho, é como se
alguém tivesse peidado em um elevador lotado e todos tivessem medo que
desconfiassem de si. Fica todo mundo cabisbaixo. Então eu levo meu Face Board,
ou Smart Sheet Clone.
O que eu faço há muito tempo, agora virou terapia.
Marmanjos e deslumbradas compram livros para colorir. Livros que se distribuía
nos grupos escolares, quando eu era criança e criança, antes de qualquer coisa
brincava de massa, lápis, papel, tesoura sem ponta, cola, essas coisas que
diziam, desenvolviam a capacidade motora e cognitiva. Agora criança brinca de smartphone, tablet, smartclock...
Vamos ver para futuro, se por querer ser esnobe, não estamos criando uma nova geração
da Talidomida. Um mundo de idiotas e desfuncionais, cheios de cânceres.
E para fazer as pessoas consumirem, toma
discurso besta. Mais besta é quem vive de onda, sem ser golfinho, muito menos
surfista.
- Colorir, tira o stress, acalma...
Então eu sou o cara mais zen do mundo, pois
eu mesmo faço tudo, desenho, colo, pinto, escolho, rasgo, jogo fora...
-...-
Quando o Alexandre, filho da Acácia fez uns 4
anos, quando ela voltou do mestrado, resolvi presenteá-lo, com um estojo de
pintura e aproveitei para desenhar uns animais, para ele colorir.
Uma vizinha da Aline achou um absurdo,
desenhar animais para uma criança. Segundo ela, criança tem de se acostumar com
o Mickey, o Pateta, o Pato Donald e companhia.
Isto sim é infantil, tratar criança,
apresentando-lhe um mundo, sem nexo, ao invés de acostumá-lo a ir vendo o mundo
a partir da realidade. Mickey, Pateta, Pato Donald, são animais, mas de um tipo
que o Pateta tem um cachorro de estimação, sendo ele, um cachorro, a Minnie,
tem medo de rato, sendo ela, uma rata, o Pato Donald não voa, nem sabe nadar,
sendo pato. É um mundo onde a criança já vai se acostumando a tergiversar a
realidade. E o pior, é fazer, desde muito cedo, a criança ser submissa à
concepção de mundo que vem de fora e se aceita, sem ao menos questionar.
Além de não saber desenhar aquelas formas,
não sou eu que vou fazer uma criança ser culturalmente dependente ao que vem de
fora, desde cedo. Desde cedo, fazer uma criança aceitar a exploração dos abastados,
como coisa normalíssima.
-...-
Domingo passado, uma das amigas das minhas
irmãs do Colégio Auxiliadora, exasperou-se quando falava o que pensa e eu
defendi o Governo Popular, meninas de colégio religioso, onde se aprende a
mulher odiar mulher, não só, denegrir a própria condição feminina, por uma
questão de manter o Machismo e a ser submissa à tudo que envolva a cultura
ultrapassada de estado, família, Deus essas porcarias todas. Podem até querer ser
pós-modernas, não tem jeito, ficou registrado aquele ranço de Mariazinha que
não evolui e não quer que ninguém vá além. E se quem prospera é mulher, espere
uma enxurrada de fofocas, de mentiras, querendo derrubar a outra, desse tipo de
mulherzinha.
O debate político atual uma questão de ódio,
não é nem de se discutir mais. Os perdedores e trogloditas, não permitem mais,
o debate, o confronto de ideias, a razão está com eles e ponto final.
Perguntei se ela é contra o Primeiro Governo,
ou o Segundo Governo Dilma. Quem foi contra a política econômica do Primeiro,
na pode ser do Segundo e vice-versa. Por uma questão simples, para quem sabe o
mínimo de Economia, o que não é o caso dela, assim como eu não entendo nada de
restauração dentária, o Mantega adotou uma política distributiva, o que gerou
ódio na pequeno e na própria burguesia. O Levy é neoliberal, adota uma política
concentradora, de restrição econômica o que vai gerar desemprego, desestabilização
e fim dos movimentos populares organizados, altas estratosféricas da selic,
baixa produção e muita demanda crescente pela ciranda financeira, miséria e
crise. Mas era o que a elite que não se contenta em perder, queria. Ou será que
queriam o Armínio Fraga? É muito seletiva.
No Primeiro Governo, as políticas foram
voltadas para as classes mais baixas, com o Levy, que é parte da burguesia que
ainda acha que se tem de manter a antagonismo disfarçado Casa Grande X Senzala,
as políticas todas são voltadas ao capital. A partir da visão e da conveniência
dos empresários é que se está tomando medidas para a política econômica. O
desenvolvimento que conhecemos, desde quando o Palocci foi brincar de empurrar
a boca de forno no quibe, com aquela vozinha com a língua nos dentes, vamos
voltar ao tempo do Brasil que tinha um crescimento aqui, outro ali, ou seja, a
concentração de riquezas nas mãos de poucos, mas, apesar de se gerar tanta
riqueza, vamos voltar a uma maioria paupérrima. É o que esse pessoal que chora
a morte de Cristo, acha bonito para os outros Cristos de hoje.
Nós fomos contemporâneos no Campus, eu da
Exatas/Tecnologia que era lá no fundo e ela de Biomédicas, eu era até próximo
ao irmão dela que hoje é juiz, mas era estudante de Exatas/Tecnologia. E nunca
a vi tão exasperada assim, na luta contra a Ditadura. É engraçado, os
“democratas” e “apolíticos” de hoje, quando da Ditadura, parece que não tinham
nada a dizer. Até parece que eram coniventes com o estado de exceção e hoje,
bateu a maior saudade, mas não têm coragem de dizer que são nazifascistas. Um
pessoal que por uns 21 anos, nunca demandou nada, o que viesse, aceitava.
Agora, em apenas 12 anos, quer que a Educação seja de Primeiro Mundo, a
infraestrutura impecável, as exportações em abundância, em suma, tudo o que se
aceitou em 502 anos, calado, em 12, tem-se de dar conta dos desmandos de
séculos. Pessoal tolhinho, não é mesmo?
Ainda bem que estamos em uma democracia, como
disse a filha de um desaparecido político, à porta da Comissão da Verdade, no
Rio, onde o Coronel Ustra ainda foi fazer chacota da cara dos verdadeiros
democratas.
- Coronel fosse na sua Ditadura, o senhor não
teria saído vivo daqui.
Agora não, tem-se de tratar os algozes, a pão
de ló, o que concordo, pois democracia é isto, isto que só agora estamos
começando a aprender. Respeito inclusive com os adversários. Pena que os
adversários, saindo da sua “apoliticidade”, os analfabetos políticos, como que
vindos das catacumbas, estão com sede de vingança, fome de estraçalhar quem não
pensa igual e arrotando democracia, são os mais nazifascistas possíveis.
Democracia onde se tem só uma voz. Nem na UNE, onde a UNE reúne futuro e
tradição, a UNE somos nós, a UNE, a UNE, a UNE é nossa voz! Letra de Vinícius
de Morais, para quem gosta.
Mas, então, mostrei à ela, o novo álbum de
desenhos, que estou preenchendo. O Noval, como sempre, achou:
- Legal! Uns traços só teus.
Todo mundo opinou, ela ficou calada, até ver
uma pintura no meio das outras.
- É a Dilma! Dentuça, feia, beiçuda.
Eu expliquei que nos anos de 1980, acho eu,
vi uma foto de uma modelo e rabisquei em lápis. Agora, revendo os desenhos
velhos, decidi refazê-lo, pintado. Ela se invocou que era a Dilma.
- Olha esse penteado!
Era o que se usava à época.
Desenho depende muito do sentimento de quem o
vê no momento.
-...-
Pintei, em papel-tela, misturando material,
uma ex-namorada, quando ainda namorávamos. Deixei-o no banco do carona e fui
busca-la. Nem falei nada, ela pegou e rasgou.
- Não suporto brincadeira com a minha cara.
Não era brincadeira, era uma pintura de memória
que eu ainda iria retocar, pois errei na posição dos dentes.
Quando trabalhava com o João e a Dona Maria -
João e Maria - era muito fácil fazer a caricatura dela que sentava à frente da
minha mesa. O João ria e levava à ela. Dona Maria era uma pessoa boníssima, com
tanto problema familiar e de saúde, pessoal, era alegre ainda e tinha um riso
de menininha. E uma voz de garotinha, tanto que outra ex-namorada foi ao meu
trabalho, de surpresa.
- Vim só pra te ver!
- Olha Dona Maria, a senhora atende o
telefone, ela achou que a senhora era uma gatinha. Veio ver quem era. Minha
namorada.
Ela ligava de minuto em minuto e parece que
sabia quando estava tendo confusão, queria que eu a orientasse nas tarefas da
faculdade. Eu passava a noite inteira
com ela, só se lembrava das tarefas, de manhã. E por telefone. Aliás, na outra
encarnação, deve ter sido telefonista. Quando nos conhecemos, ainda nem
namorávamos, saíamos de turma, ela ficava calada a noite inteira, chegava em
casa, telefonava, falava que eu ficava rouco.
-...-
Na Secretaria de Saúde, fiz caricaturas de
outros colegas. Retratei o Chefe dos Transportes, ninguém achou parecido. Então
com uma caneta comum, desenhei os óculos no rosto. Nem foi preciso dizer mais
nada. É que as pessoas não conseguiam vê-lo, sem os óculos. Os óculos, para
eles, era um órgão que sem, ninguém o identificava.
Tem gente ruim para desenho.
Na pós-graduação, uma psicóloga colega de
turma que se invocou comigo, dava pitaco até nos meus desenhos. Quando as
psicólogas Regina e Esther - a Rainha e a Estrela - vieram ministrar o módulo
de Psicologia, falou à elas que meus desenhos eram disformes, como se
identificasse um problema mental ou coisa parecida.
- Você não sabe o que é caricatura?
Ficou caladinha. Acho que foi a Regina, a
loura e mais alta que virou minha defensora.
Quando as professoras falaram para fazermos
um desenho de uma pessoa, do jeito que se soubesse desenhar.
- Menos uma bola, com dois pontos,
significando os olhos, um traço, como a boca, linhas como o tronco e os
membros. Ouviram psicólogas?
Não adiantou, ela e mais as duas outras,
fizeram exatamente isso, desenho de criança. As psicólogas, quando voltamos
para casa, elas dispensaram o carro da universidade e pegavam carona comigo,
diziam que é para não se perceber as características interiores. Mas de outra, outros
profissionais, dizem que quem não sabe se expressar com desenho, é imaturo,
ainda não conseguiu amadurecer o bastante. Foi o que demonstraram.
E diziam que eu paquerava uma professora de
Administração que estava lecionando para uma sala ao lado. De vez em quando as
pessoas surtam comigo, inventam cada coisa. Quando passou, chamaram-na para ver
os desenhos na parede.
- Só identifiquei um. Aquele é do Thevis.
- Por quê ‘fessora?
- Bem desenhado, sorrindo e com os braços
abertos. Não tem outro.
Mas o cara mais ruim para desenho que eu vi,
foi no Curso de Física, Mecânica Clássica, ou Física IV que nunca me lembro
quem era quem, pois uma era de 10:00h às 12:00h, íamos almoçar, na volta, a
outra, na mesma sala, com o Marcílio de novo, de 14:00h às 18:00h. Acho que era
mecânica, pelo simples motivo que era movimento. Física IV ainda é parte das
gaussianas, eletricidade...
O Marcílio, nos dias em que dava aula de
óculos escuros, em até na escuridão da noite, desenhou um cubo no quadro, com
todas as laterais à mostra. Era fim de curso, portanto, uns 5 gatos pingados,
parecia aula de reforço, a sala enorme, para uma turma reduzida. Em determinado
momento em que falava do movimento, como se fosse água passando de um ponto de
trás para frente, falou para “virarmos o cubo no ar” e o movimento ser da
frente para trás. Acho que passamos duas aulas, tentando auxiliar um colega,
daqueles calados, tímidos que tanto faz estar presente ou não, ninguém sente a
falta. Todo mundo dava uma opinião de como virar o cubo no ar. O Marcílio
desenhou letras nas laterais, falou que visse de A para C, depois, de C para H,
ele não conseguiu. O jeito foi prosseguir, um dia, quem sabe, o colega aprenda
como se vira um cubo no ar.
-...-
Quando trabalhei na Prefeitura, por questão
de ofício, tinha de ir à Secretaria de Administração, levar e pegar relatórios.
Enquanto esperava me atenderem, ou mesmo atenderem à Monica que era de outro
setor, mesmo departamento e aproveitávamos a mesma Kombi, ficava desenhando.
Numa dessas vezes, desenhei os contornos de
uns rostos e os corpos. Alguém me pediu para ficar com eles. No outro dia,
quando retornei, sentado, esperando liberação, uma office-girl, já com filho, de um programa social de adolescentes
problemáticos, praticante de Karatê, chegou muito brava
- ‘Tá me tirando? ‘Tá tirando com a minha
cara?
O que é bom, ninguém repete, mas porcaria.
Está me tirando, eu? Eu gosto é de colocar.
Aí mostrou o desenho. Invocou que era ela.
- ‘Tás maluca? Onde tem a tua cara aqui?
- Eu sei que sou eu.
Lascou-se. Ela se via desfigurada. Freud deu
o caminho para se analisar.
-...-
De outra vez, o Ministério da Saúde enviou
uns funcionários, para divulgarem um novo processo entre a União e o Município.
Lá “fomos eu”. Enquanto escutava a palestra, comecei a desenhar. Uma folha
menor do que um guardanapo de papel. Um rosto bolachudo, estava pensando em um
português idoso, defini as características todas, na saída, um médico, gordo,
com cara bolachuda que estava do outro lado, veio me pedir “a minha
caricatura”. Difícil dizer que não tinha nada a ver com ele. Não era o tinha
nem visto, mas comparando bem, até parecia. Expliquei que era um velho, não
podia ser ele. Até hoje a guardo, entre os desenhos.
Minha chefe fazia anotações encima dos meus
desenhos, mesmo que o caderno fosse meu, eu o utilizava como agenda e desenhava
nas horas vagas. Ela ia à minha mesa, anotava números de telefones, nomes de
pessoas, encima dos desenhos, mesmo tendo folhas em branco de monte
-...-.
No quartel acontecia algo parecido. Era
deixar um desenho, quando voltava, tinham coisa escritas, ou pegavam canetas e
desenhavam encima. O pior é que eu quase fui detido, porque os superiores queriam
que eu desenhasse os olhos. Eu fazia os desenhos, só não desenhava os olhos.
Eles ficavam com medo, ou tinham arrepios e queriam dar ordem, até nos desenhos
que eu fazia nas horas de folga. Só se fosse o terceiro olho.
Numa das vezes em que estava detido, que não
foram poucas, eu estava deitado no chão, num espaço onde ninguém passava, quase
embaixo de um beliche, único lugar onde podia desenhar, por ser do mesmo nível
e duro, e chegou um sargento dos muitos maranhenses, metidos a cariocas.
Bêbado, recém-chegado à Manaus, havia trocado o serviço, com o Sargento do Dia.
Pegou o turno da noite, mas antes, acho que passou no bar e encheu a cara. Já chegou
pisando no meu papel, ficaram as marcas do coturno, cheio de arrogância, dando
ordens. Levantei para dar uma porrada, o pessoal me segurou. Ele estava ao lado
de corrimão, próximo à escada, bêbado com estava, se o chão o aparasse, iria
chegar lá embaixo.
- Calma!
O que era dele estava guardado. Na Operação
Sobrevivência, ele foi nosso monitor, do nosso grupo. Mas sofreu!
Nós fizemos nosso tapiri, um barraco com galhos,
teto de palha que não deixava passar um pingo d’ água e as amarrações, de casca
de árvore, ou cipó. Um espaço embaixo, para passarem os bichos. Éramos seis,
mais os pertences, mais as galinhas com gogo, mais o sal, mais as panelas,
cabia muito mais coisa e estava seguro. Pontos de breu vegetal que tirávamos de
uma árvore logo à frente, além de uma fogueira, acesos o dia inteiro, até o
fim, para espantar os animais silvestres que não se aproximam com fogo. Nem
mesmo escorpião que tinha muito, por onde íamos. O nosso tapiri era muito
confortável. O maior de todos os grupos. Mas não vencemos o concurso do melhor.
Acho que foi sacanagem, mas não importa. Nós não podíamos ter contato com o
mundo exterior, não podíamos nos alimentar, a não ser da caça, ou da pesca,
depois que acordamos e nossas galinhas cm gogo estavam mortas, o jeito foi
comer logo, e não podíamos tomar banho. Tem mil. Encontramos uma boca de cano
que passava por baixo da estrada, ficávamos em pé e a água vinha forte, todo
dia, íamos pelo meio do mato, ficávamos nus, deixávamos as roupas no seco e
tomávamos um banho gostoso. Depois nos secávamos e voltávamos. Só o Sebastião
que desde o primeiro dia, ficou quase em coma, dormiu da primeira noite que
entramos na selva, até a madrugada, quando saímos. E toda hora, antes de
entrar, todo mundo nu, tinha de tomar banho de cachoeira, para não levar nem um
mantimento. Adivinhou, tem gente que esconde no orifício. Até para não baixar
enfermaria, pois tem que coloque cebola, ou alho no “olho”, ou debaixo das
axilas, fica com uma febre enorme, depois, sai bonzinho e não vai à luta.
O Sebastião tinha uma doença que não podia
ficar sem comer. Aliás, ele era magro, quase só osso. Não podíamos comer? Mas
rapaz! Encontramos um acampamento da SUFRAMA e à noite, enveredávamos pelo mato
à dentro, só pelo cheiro, íamos comer as gororobas que eles faziam e repartiam,
mas com fome, tudo é uma delícia. Até que caçamos nossos macacos, eu disse que
não iria comer, pois pareciam duas crianças, quando tiramos os pelos e os
deixamos encima do fogo. Mas a fome é madrasta, os macaquinhos estavam uma
delícia. Só a carne que é muito dura, quase um chiclete, mas nada que uma
panela de pressão não dê jeito. O resto do tempo comíamos palmito, por isso,
até hoje, quero distância, não suporto, maracujá de macaco, uma frutinha do
tamanho de uma bola de gude, amarela, azeda, ruim que passa a fome, a sede, até
a vontade de viver. É tão azeda que dói na alma. Casca de Envira que é uma
delícia na entrada, mas depois, dá um enjoo danado. Mas o sargento ficava um
pouco distante, na rede de selva e nunca tinha feito operação de selva. Havia
chegado do Rio, há pouco. O valentão, quando dava 16:00h, tempo de recolher
tudo, inclusive da beira dos rios, por causa do flaybotomo, o mosquito da
leishmaniose, já está tudo escuro, como se fosse uma madrugada, virava uma
moça. Também o pessoal sacaneava.
- Sargento, o senhor está seguro aí?... Já
pensou uma cobra descendo pelo cabo da rede? De manhã, o senhor aparece
morto.... O senhor já pensou se uma onça pula na sua rede e lhe pega?... O
senhor sozinho, a anta pode dar uma cabeçada...
Toda noite, uma anta passava por trás do
tapiri, o pessoal da SUFRAMA falou que um colega tinha sido pego por uma onça, no
outro dia se via árvore no chão e a pisada que se inferia ser bem forte, pois a
anta levava tanta árvore nos peitos e pela marca da pata ser profunda. Nunca
fizemos uma armadilha para ela, mas quase matam o Brito, quando disse que matou
uma cobra e quando perguntamos onde estava.
- Joguei fora!
O sargento não percebeu que a rede de selva é
totalmente hermética. Não tem como uma cobra entrar, nada. É montar, colocar o
telhado, o material no recipiente embaixo, entrar e fechar. Nem mosquito entra.
Mas o cara mostrou que era covarde e não conhecia nada de onde estava.
- Gente, vamos fazer um acordo? Eu vou dormir
aí e divido meus mantimentos.
- De jeito algum sargento, nós temos de
aprender a caçar.
- Gente, eu durmo aí, no quartel faço o que
vocês quiserem.
- De maneira alguma, fique aí, nós somos
soldados, senhor é nosso superior.
De repente ele ficava desesperado, todo mundo
calava.
- Gente, vocês já estão dormindo?... Não tem
ninguém acordado?... Vocês não querem falar comigo, por quê?... Gente, por
favor...
Era muito cagaço. O cara não devia dormir a
noite inteira, de medo, e aproveitava o dia, quando estávamos caçando, pegando
água, principalmente para o Sebastião que nem se mexia, no último dia, tivemos
de fazer uma maca com galhos, cipós e palha, para carregá-lo até o caminhão que
nos esperava na estrada. Com um monitor daqueles, era só não sair próximo da
estrada, para os outros monitores que vigiavam quem saía de onde cada grupo
estava que estava tudo bem. Aliás, eram uns monitores muito fracos. Um dos
grupos parou uma ônibus de turismo, com a espingarda e roubou tudo o que era
comestível. Foram reclamar no quartel.
Mas o pior de tudo, é que eu levava canetas,
resma, revistas, livros, bolachas, borracha e umas lapiseiras grafites lindas.
Quando procurava, tinham roubado do meu armário. Era uma reserva para quando eu
ficasse detido. Para passar o tempo. Era quase todo fim de semana e na
segunda-feira, serviço. A lapiseira que eu mais gostava, parecia uma caneta
tinteiro, tinha um depósito para os grafites e avisava quando estava chegando
ao fim. Parecia que tinha uns cristais no lado de baixo. Até hoje, não
encontrei mais uma dessas, é tudo muito simples.
E quem arrombava cadeados e fechaduras, era
eu. Especialista em abrir fechaduras. Tinha mais alguém que não se mostrava.
Quando não se tinha tempo, era só cabeça de palito de fósforos na fechadura,
mas depois, tinha de comprar outro cadeado, ou clip que depois de aberto, ainda se podia reutilizar. Quando
precisavam.
- Bayma!
Pronto, abria todos os depósitos. E tinha um
ladrão que não aparecia.
-...-
Depois da pós-graduação concluída, só faltava
um módulo que cada um teve de procurar se virar. Metodologia do Ensino. E eu
consegui numa turma na Enfermagem da UFAm, atrás de casa, quando morava na
Paraíba. Ia e voltava à pé.
Era uma turma basicamente de mulheres. No
primeiro dia, de homem, só eu e uma biba que desistiu. Deve ter se sentido intimidado.
Ai meu Deus! Então só tinha eu, representando a turma da cueca.
Todo dia, era um dos primeiro a chegar, vinha
do trabalho, tomava um banho e ia à aula. Um dia, enquanto a professora não
chegava, comecei a desenhar. De repente uma garota que estudou no Colégio, de
uma série inferior, chegou, cutucou-me e disse.
- Olha, a Fulana não suporta brincadeira com
ela.
Pelo menos eu soube o nome. A Fulana só
chegava atrasada, era filha de grego e só usava preto, principalmente calças.
Eu estava desenhando a Maga Patalógica que eu sempre tive o maior tesão, quando
era adolescente, como pela Kali, Iemanjá, Mulher-Gato... E a Maga com umas
calças coladas e entre as virilhas, um bolo, um volume que se destacava. A
coleguinha era avantajada, nem dava para dizer que não era ela, mas eu disse
assim mesmo. Até aquele momento, nunca tinha visto uma genitália feminina, tão
grande. Não sei se eu não reparava, mas reparava sim eram umas coisas sem
destaque, só a fenda, sem carne, depois disso é que parece que as coleguinhas
estão alimentando a piriquita com alpiste transgênico. Ou é porque ninguém tem
mais pentelho. Mas tem gente despentelhada que não é volumosa assim. É cada
lábio que parece um cruzamento de Mick Jagger com a Angelina Joulie, nos
grandes lábios que nestes casos, não são modo de falar, são enormes. Daqueles
que o cara fica com receio de fazer um cunilíngua, não por achar que é sujo,
mas com medo de se perder. É preciso amarrar uma corda na cintura, pois se cair
lá dentro tem como voltar. Não sei se a coleguinha era do “intério”, mas as
outras avantajadas, tudo dos “intérios”. Tem algum segredo. Deve ser guaraná
com patauá, ou farinha do Uarini com anabolizante.
Quando começou a aula, lá vem a colega, meu
desenho estava guardado. Ela sentou ao meu lado, coisa que nunca fizera antes.
- Oi, você pode fazer uma caricatura minha?
Eu fiz uma, duas, três, a professora
explicando o assunto e a garota buzinando no pé da orelha.
- Não, esta não é caricatura, é um desenho de
mim. Eu quero uma caricatura.
E quatro e cinco e eu já não estava
entendendo nada da matéria, peguei a Maga Patalógica e entreguei.
- Toma! Vai procurar tua turma.
Depois eu fiz algumas caricaturas das
colegas, principalmente da fofoqueira que estudou no Colégio e já devia estar
se encaminhando para a faixa dos 40 anos, mas usava aparelho ortodôntico e
usava um penteado de 1950, toda loura. Ela ficou puta com a caricatura dela. No
fim do curso, resolvi desenhar o pessoal que já havia desenhado em separado,
numa só folha com a minha caricatura junto. Aproveitaram para me sacanear.
Ficou grudada na parede que elas afixaram, antes da professora chegar.
-...-
Desenhar tem disso, tanto agrada, como pode
desagradar. Acho que mexe com sentimentos de quem vê. Quem não é muito seguro
de si, dá piti.
Na sala da pós-graduação, acho que no módulo
de Psicologia se não me engano, fazíamos uma roda, todo mundo via todo mundo,
então aproveitava para tentar desenhar o pessoal. Uma noite, na saída, um
colega me pediu para ver os meus desenhos. Eu disse que não era nada, ele
insistiu e ria dos outros que identificava certinho. De repente ele mudou de
estado de espírito.
- Este não sou seu. Não sou eu. Eu não sou
assim.
Eu não disse nada. Como Jesus, quando o cara
perguntou se ele rabeava.
- Tu o dizes!
-...-
Uma das piores situações foi em casa. Dona
Therezinha passou a antipatizar com a empregada, porque do nada, Dona Themis
invocou que eu estava tendo um caso, no sentido de “alimentar” os bichos, com a
empregada. Invocou que eu estava alimentando o piriquitinho, com a minhoca,
alimentando a perereca, com leite de cobra, essas coisas assim.
Elas achavam que a moçoila tinha um corpo
bonito, eu nem olhava uma coisa dessas. Eu vou olhar essas coisas? Sou muito
tímido.
Então uma manhã, comecei a desenhar uma
mulher de cabelo pixaim, sarará, nua, de lado, com o corpo sinuoso, com uns
seios até fartos, que acabava num bundão enorme. A colega passou junto, Dona
Therezinha perto.
- É assim que o senhor vê a minha bunda?
Nunca tinha prestado atenção nesse detalhe.
Eu vou olhar para bunda dos outros, por quê? Uma senhora casada e mãe de
filhos, eu respeito a instituição do casamento. O que Deus grudou, nem água
quente desgruda. E eu acredito?
- Quem disse que eu estou te desenhando?
- Uma bunda caída?
Depois que reparei que realmente a bunda
estava caída. Boa dica. Fui redesenhar tudo outras vezes. Mas a coleguinha
ficou muito zangada.
A única chatice da empregada do desenho, é
que parece que ela mirava nas “coisas”. Eu ficava de roupão em casa, ela era a
única a se importar.
- Feche as pernas que as coisas estão
aparecendo. Crie vergonha e vá vestir uma cueca.
E Dona Therezinha se metia.
- Vai, vai vestir uma cueca!
Se eu estava de roupão era justamente para
não vestir cueca é melhor então, ficar de bermuda, ou calças.
Parece quando eu fiquei hospitalizado no
Pronto Socorro 28 de Agosto, ao lado de uma garota muito bonita e gostosona,
parecia uma bonequinha, uma pele lisa, branquinha, uns peitinhos rosadinhos, estava
só de fraldão, tinha tomado remédio para se suicidar e segundo Dona Themis,
morreu mesmo, por que o namorado, um caboco feio e fresco, com o maior jeito de
boiola, não quis mais namorá-la. Um desperdício. Dona Themis já inferiu que a
garota era prostituta. Coisa de menina de colégio religioso que não pode ver
outra mulher que tenta derrubar. Aliás, ou derrubar de um jeito, ou de outro,
pois elas mesmas dizem entre elas que o colégio onde estudaram, só deu duas
coisas, viciadas e/ou sapatões. Não tem coisa mais rasteira, arcaica e velhaca,
do que uma mulher sacaneando a outra, porque se acha inferior. Como dizia a
Dedéia que também estudou lá, mas só tinha amigo homem, porque mulher é falsa,
invejosa, está rindo aqui na frente, sai dali, vai denegrir a imagem da outra.
Ah, não era sapatão. Só fumava e bebia além da conta. Uma garota que apesar de
muito bonita, agradável e inteligente, tinha uma mal gosto da porra. A Nasla
que também foi aluna de lá, tinha um gosto mais refinado. Também gostava de mulher.
De vez em quando ela agarrava um homem, mas era perdoada, tinha umas namoradas
tão bonitas, plasticamente, quanto ela.
Eu de roupão, só deu tempo de me cobrir com
um, para ir ao hospital, vomitando a bílis, de vez em quando eu cochilava,
passava uma, até desconhecida e fechava a abertura do roupão. Tentava cochilar
um pouco, lá vinha outra para fechar. Parece que o pessoal nunca viu piroca.
Talvez não, em estado relaxado, só quando já está envernizada.
Eu usei para desenhar a mulher que a empregada
achava que era ela, papel A3 (297 X 420mm) superfície e textura tela.
É que eu pintei nas paredes do meu quarto,
duas mulheres. Uma negra e outra branca. A negra, de mais de 1,70 m de altura,
era deliciosa. A branca mais ou menos. Na hora, o desenho toma forma, não dá
para escolher muito. As duas mulheres nuas e voluptuosas, em uma parede de cada
lado. Em frente, na porta que dá acesso ao closet,
duas Virgens Marias, uma de roupa azul, na frente, acho que é Conceição e a
outra de verde, atrás, não sei que Virgem é aquela, vi num filme de madrugada,
quando era adolescente e até hoje não saiu da minha cabeça. Eis um tipo de
mulher que eu não tenho o menor tesão. Além de Virgem, um jeito de muito
submissa, muito pasteurizada, acaba parecendo assexuada. Deus me livre! Antes
uma puta com atitude, do que uma Virgem apagada. Nunca consegui chegar perto
das pinturas na paredes que tinha tamanho original.
Em cada parede, três carros. Porsche,
Mercedes, Volvo, SUV’s, monopostos, conversíveis etc. Dona Therezinha mandou
pintar tudo. Principalmente a negona que era perfeita. Até o Latino que chama o
pessoal para fazer um bundalelê na sua, vendo aquelas nádegas, mudaria de
ideia.
Parece quando morávamos na São Luiz e eu
pintei com os dedos, o papagaio de casa, no muro de trás. O muro era branco,
com pingos de tinta, não sei como se chama, “chaupiscado” , “chupiscado”, sei lá – apelo aos
universitários -, detonei uns três pinceis no muro, decidi pintar com os dedos
mesmo. E assinei. Dona Therezinha mandou pintar de branco o muro todo, porque a
assinatura parecia uma foice e um martelo, segundo a vista dela. Era o T e o V.
É muita invocação. Imagina, porque eu faria isso?
Continuo desenhando, pintando, rasgando,
tudo, mas não acho que sou a pessoa mais zen do mundo, calmo... Talvez no
piano, aí sim, daqui a pouco vão descobrir que não é a pintura que acalma, mas
uma hora de Hanon, duas de Czerny, três de Bonna, o mundo pode estar em guerra
que o cara está na Lua.
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