quinta-feira, 26 de junho de 2008

O MITO DA FELICIDADE ALCÓOLICA

As campanhas contra a direção nas mãos de quem bebeu, parece-me um combate ainda velado, contra a bebida alcoólica, nos mesmos moldes do combate ao tabagismo.
Não tem como combater a direção alcoolizada se não se combater o alcoolismo em si. Não tem como combater o alcoolismo, sem fazer as pessoas serem e agirem com naturalidade, sem fazer tipo.
Criou-se, não sei se só no Brasil, ou em todo o mundo, o mito de que as pessoas só podem ser felizes se beberem. Antes tinha-se de beber e fumar. Existia inclusive uma campanha, acredito que colocada na sociedade, pelas indústrias de bebidas alcoólicas e pelas indústrias de produtos à base de nicotina e tabaco: “Não bebe, não fuma e não f...” Quem não se coadunasse com o esquema, passava vergonha. Como eu estou me lixando para a opinião pública quando acho que eu não estou interferindo na vida de ninguém, apenas interferindo na minha – coisa do colégio: “A tua liberdade termina, onde começa a dos outros”. Tem gente que acha até bonitinho, mas ainda não entendeu, ou quem sabe, tem a maior preguiça de por em prática -, nunca liguei para esse ditado. Eu não fumo e quando bebo, muito pouco. Mas se quiserem me dar – hey, hey, estamos aqui pra quem der e vier... -, até melhor, por que o desempenho é maior, visto não ter sido contaminado com essas coisas que fazem mais mal à saúde do que trazem felicidade.
Na adolescência, fazia parte de um seleto grupo, dentre os quais Piroka, Bustela e Dona Themis que não fumava, nem no colégio, nem em lugar algum.
Sala com ar condicionado e todo mundo fumando. Mesmo não fumando, era fumante passivo. Em casa, Seu Clovis, Dona Therzinha, Dona Ivete, Dona Izaura, Tio Rodolpho... Fumei muito na minha vida, mesmo sem acender um único cigarro. Ainda bem, heoje diminuiu significativamente o número de pessoas fumantes próximas. Seu Clovis, Dona Izaura e Tio Rodolpho, passaram desta Terra, para debaixo da terra, em grande parte, por causa do vício. Dona Therezinha e Dona Ivete resolveram de um dia para outro e deixaram de fumar. Mas ainda tem gente que vai para lugares de caminhada, fumar no meio do caminho. Ou é falta de consciência, ou sacanagem pura.
Lembro do Julio Costa, um colega que nos deixou muito cedo. Nos deixou no colégio, ainda muito jovem, foi morar no Rio. E deixou a vida, ainda mais jovem, na faixa dos 30 anos. Morreu de enfarto, algo assim.
Ele, lutador de jiu-jitsu, judô, karatê,boxe, tudo que era luta conhecida, no tempo em que nem se falava em Vale-Tudo, na nossa puberdade – acho este nome tão fresco -. Depois que saíamos das peladas de sábado, era casa da mãe do Piroka, piscina e feijoada. Uma vez ele falando que conseguia ir e voltar, várias vezes debaixo da água, antes de fumar. Depois do vício, não conseguia chegar ao outro lado, uma só vez.
Bem, parece que o vício do tabagismo está diminuindo e as campanhas publicitárias – muito mais eficientes do que as campanhas de propaganda -, parecem não ter mais vez. Os filmes de Hollywood se comprometeram a não mostrar mais as personagens, fumando, como um símbolo de status. Só as novelas da Globo é que ainda colocam personagens ricas e ditas bonitas, fumando, mas é uma questão de país desenvolvido, ou não. Independente, ou colonizado.
Putz, certa vez quando fui fazer um curso de especialização no ISAE/FGV, lembro que além do professor, só havia dois homens no recinto e por coincidência, os abstêmios do fumo. A sala fechada e um monte de mulher mal amada, mal resolvida, disputando quem poluía mais o ambiente. Das 14:00 às 22:00 horas, era de chegar em casa e tomar um banho superlativo para tirar a catinga de cigarro do corpo e colocar a roupa para lavar. Não se podia repetir roupa.
Quando saía no início da juventude, ia quase sempre aos shows, com uma amiga querida. Mais querida do que amiga. Voz firme, inteligência e beleza, tudo junto. Mas desde manhã, parece que acordava com o cheiro de cigarro saindo pelos poros. E à noite quando tomava todas, parece que misturavam os cheiros de cigarro e de bebida, o que deixava um cheiro ruim, estranho, péssimo até de se chegar junto. A pele sedosa, mas o cheiro... Parecia a fábrica da Souza Cruz, na Tijuca.
Quando jovem também, não perdia um dia sequer, sem freqüentar os bares. Noturno, Paulo’s, Opção, Galvez, Flangelo’s, 4 Graus... Um, dois cálices de vinho para começar a noite no Galvez. Uma passada no Opção para conversar. Noturno para ver a confusão. De vez em quando, alguma coisa para beber. Menos cerveja que não é a minha bebida preferida. Só quando fazia fisiculturismo que o treinador recomendava não se beber refrigerante e de vez em quando, no carnaval, entornava uma, ou duas latinhas de cerveja, o que a língua agüenta, antes de não deixar entrar na mais, tudo por amor ao esporte. Paulo’s até próximo da madrugada, aí, quando só, ou seja, quando acompanhado de umas amigas, caipiroska. Vinho, só quando a Loura Poposuda roubava uma garrafa da adega especial do pai dela e pedia copo descartável e gelo e ficávamos bebendo na rua, ou quando Bustela ia com a noiva. Algumas garrafas.
Para a noite não acabar de madrugada, Vaga-Lume, um prostíbulo no centro da cidade, onde se ia de turma, para dançar. Ninguém consumia nada. Nem bebia, nem comia ninguém. Pelo menos lá e de lá. Como diz o dito popular: “Então pensas tu que eu encontrei meu precioso pau que faz tantas mulheres do sexo feminino felizes, no lixo? Este é original de fábrica, não é comprado em sex-shop não.” E os aposentos que davam para ver quando se subia as escadas para se fazer o número um, era capaz de dar doença venérea só de passar pela porta.
E depois, apareceu o Frangelo’s e a noite acabava de manhã. Às vezes às 6 da manhã, outras às 9 da madrugada e algumas poucas, às 11, ou 13:00 horas da matina.
Não sei se pelo fato de não beber, ou de beber pouco, peguei uma ojeriza de bar que não suporto passar nem por perto. Além daquelas músicas chatinhas de sempre, os bêbados, uns porres de sempre, parecem renovados, com caras novas.
O fumo está sendo evitado nas sessões visuais, ou áudio-visuais, mas a bebida, não tem jeito, ainda é uma questão de status. Novela nem se fala. Núcleo pobre, favelado e rico na praia, cerveja. Núcleo rico feliz a qualquer hora do dia, champagne. Núcleo rico quando chega do trabalho, whisk. Filme pornô, dependendo da nacionalidade, vodka, bourbon, cachaça, mas acaba o pessoal engolindo aquela porra. Filme do 007, vermuth, dry martini com azeitona e o pessoal toma bala. E como tem muita gente que se emprenha pelos ouvidos, umas Maria-vai-com-as-outras, muita gente acha que se não beber, não é homem, não é gente, não vai ser considerado. E agora o que as mulheres bebem também. Têm umas muito mais macho do que eu se a bebida for medida de masculinidade.
Agora que se sabe que o fumo obstrui as artérias, danifica os órgãos e dá impotência, dentre tantos males, já se deixou aquele ditado para lá. E o pessoal está deixando de torrar dinheiro.
Porém criou-se um mito que só se pode estar feliz se tiver bebida alcoólica na frente. As pessoas saem de casa, vão para os bares, para os aniversários, para a conversa entre amigos, não com o intuito de conversar, de ver o movimento das pessoas, de se divertir. Já saem determinadas: “Vou encher a cara e pegar a primeira que passar na minha frente.”
Eu sempre saí com vontade de me divertir. Se der vontade de beber, eu bebo até achar que já está bom. Se aparecer alguém querendo dar uma pimbadinha comigo e eu com ela, ótimo. Se não acontecer nada disso, não vou ficar em depressão.
Uma vez conheci uma garota que estava “down”, andando pela rua. Ela era do Rio, estava muito p... de ter de vir morar em Manaus – tão simples de resolver. Era adulta, tinha identidade e tudo, era só pegar as trouxas e ir para onde quisesse, viver por conta própria. Era só fazer como a pernambucana da Djalma Batista que vivia com o pai militar, mas fazia a vida. Quero dizer, programa. É como se diz em francês: “Vai dar o cú. Mas não se esquece de mim que já estou na biqueira e já sou teu amigo” -, a mãe morava não sei onde e era casada, tinha brigado com o pai com quem veio morar e era milico, etc, etc, etc. Fomos para um bar e eu pensei que ela era só depressiva. Era uma alcoólatra de carteirinha. A mulher bebeu tanto e eu acompanhando de leve. Numa determinada hora da madrugada tive de fazer a pergunta fatídica: “Olha, vamos dar umazinha, ou não, por que se eu beber mais um gole, o pau não vai levantar mais, nem com guindaste. Está tudo adormecido.” E faltou muito pouco para isso acontecer. A glande estava tão adormecida que mais um pouco iria se chamar Bela Adormecida. Se ela não quisesse, não iria ficar depressivo por causa disso. Teria valido o papo. E se não tivesse bebida no meio, também teria valido o papo. Só tive de perguntar, para evitar desgraça. Vai que no limite em que a dormência ultrapassa a vontade, quando já se está chamando a cabecinha de glande filha de uma puta, quando só dá para fazer cú doce, só depois de tudo isso é que ela decide me chamar para o vamos ver. Aí não teria mais jeito. Podia tocar o Ouvirundu, respeitosamente conhecido como Hino Nacional Brasileiro, a Marselhesa e até aquela música que diz que vai levantar poeira que o bicho não ficaria na posição de sentido, nem morto.
Lembrei do tempo da auto-escola, onde além dos cursos de direção, legislação, máquinas e o que houvesse, todo mundo era obrigado a assistir a palestras sabatinas, onde o dono da firma, discursava sobre coisas que acontecem no dia-a-dia de um motora. Uma que lembrei, foi justamente sobre os cuidados de quando se adquire uma CNH: “Quando não se tem carteira, se dirige com cuidado, com medo de bater, de ser pego pela polícia. Quando se adquire uma carteira, principalmente nos primeiros momentos, as pessoas pensam que ela garante tudo e as pessoas são livres. Abusam da direção, por que acham que a carteira vira escudo para tudo. Não vêem que podem ter prejuízos materiais, físicos e até a perda da vida. Isso a carteira não garante.”
Mas o que acontece muitas vezes, é que os machões que acham que podem tudo, saem de carro com uma CNH comprada, falsificada, mas esquentada nos Detran’s do Brasil afora por isso acham que são poderosos e ninguém nunca os vai pegar. Páram em um bar e enchem cara, como se a vida fosse uma decepção encima da outra e só se pudesse encará-la, bêbedo. Algo como querendo esconder, afogar e entorpecer a alma desiludida, metesse álcool para dentro do estômago para conservar o vazio de vida. Ou a vida não sorriu como desejavam e para encararem aquele sorriso banguela, mascarassem a vida, através dos porres. E como tem muita gente que usa o porre, como uma máscara, fazem coisas que não fazem de cara limpa e depois dizem que se esqueceram, digamos, um epilético alcoólico que acha que é normal, como o cara que me deu uma bolachada no rosto no Opção e depois o pessoal dele veio me dizer que ele não se lembrava de nada e me pedia desculpas: “Como ele não se lembra de nada e se lembrou de me pedir desculpas?”
No meu caso, eu me divirto mais, careta. Com drogas – cigarro e álcool, queira ou não, são drogas pesadas. Só que legais e aceitas socialmente - no corpo, eu já dou uma maneirada, para não ser chato, como eu não gosto que os outros sejam comigo.
Então cara que usa o álcool como mascara, potencializa tudo o que ele queria fazer e não é homem suficiente para fazer de cara limpa. Paquera, faz gracinhas com as pessoas, vira o centro das atenções e de repente tem quem goste dele. Para todo cadeado sempre corresponde uma, ou mais chaves. Próximo passo, pegar o carro, por que como comprou a carteira mesmo, sabe que no Brasil tudo é possível menos o cumprimento das leis. Falta viatura, falta gente, falta tudo, quando é para fazer valer as leis, principalmente quando essas leis afetam as autoridades e na verdade, falta uma grande vontade política de se fazer deste, um dos maiores países do mundo, ele sabe que a lei existe, mas é tudo de mentirinha. E como dizia o palestrante sabatino da auto-escola: “Bêbado tem mania de achar que sabe dirigir mais do que todo mundo.” Imagina, além de bêbado, um motorista que não fez exame para testar se tinha capacidade ou não de dirigir. Sai disparado. Aqui, o fluxograma tem várias bandeiras, ou flags como se diz. Primeira opção: empolgado, alcoolizado e mascarado com a bebida, ele não consegue chegar onde queria. Ficam ele e ela, ou ele e ele, ou ela e ela – a crentalhada está muito puta. Não que eles sejam discriminatórios. São religiosos. Foi aprovada a lei contra a homofobia. Até dizer que homossexualismo é pecado, pode dar prisão. O que vai ter de crente dando o testemunho e nem por isso, deixando de dar... – no meio do caminho, dando trabalho para os bombeiros, para o SAMU e para as equipes médicas dos hospitais e pronto-socorros de plantão que deixam de estar onde queriam, para atender bêbado chato. Acabam com seqüelas graves, ou sem vida. Pensavam que iam se foder e acabaram se fodendo. Opção dois: Dão a maior bandeira e vão para o motel. O cara achando que é o maior machão, não consegue endurecer nem cola mil, aberta e fora da geladeira. Como todo machista, a culpa por tudo, é da mulher. Será que machista gosta mesmo de mulher, ou só faz tipo, ao lado delas? Sei lá. O cara culpa a mulher por não conseguir ficar ereto. Nem o bicho, nem ele mesmo. A mulher tenta tudo, apela até para o terra. Como não quer sujar a unha, enfia um pacote de Troberone do frigobar, para ver se o cara desperta. Nada. Adormeceu a bela. Várias tentativas depois, o cara parte para cima, mas não para fazer neném, mas para usar toda a violência que estava reprimida e a bebida relaxou. Delegacia, Lei Maria da Penha e advogados, com custos altíssimos. Fica livre, mas com uma dívida enorme com a Justiça. E como se sabe, doutor não suporta esperar, quer tudo na hora. Opção 3: O bêbado consegue dar pelo menos uma com a parceira. No outro dia quando acorda, vê que se meteu na maior roubada. A Sinhinho – para quem não sabe, a fadinha deliciosa do Peter Pan - virou Madame Min – uma das inimigas do Pato Donald e do Tio Patinhas. Uma certa paixão incubada, com medo de se colocar para fora. Um fetiche de comer coisa feia meio platônica – e o cara ainda tem de pagar o motel e uma grana alta para ela não dizer a ninguém que virou comida do machão. Opção 4: a pior de tudo. Aquela vontade reprimida, aquele desejo escondido no fundo do coração, recôndita, daquele machão que acha que tem de estar bêbedo para ser macho, como se sabe, a bebida libera as emoções, finalmente aflora, e para surpresa geral, deflora. No outro dia, com dores pelas costas, uma sensação estranha de vazio interior, a bunda melada como que clara de ovos, ele pergunta o nome daquela princesa: “Waldenor, mas pode me chamar de Carmita.” Não tem jeito, bebeu, não pensa que vais te dar bem. Só vai dar para o teu.
A propaganda tem de mudar. Tem de estar mais próxima à realidade: “Se beber, não vá se foder. Se for para se foder que seja sozinho.” “Cú de bêbado não tem dono e a rainha não volta nem com beijo de Príncipe Encantado. Perdeu, está perdido! Fica esperto por que notícia ruim se espalha rápido. Vais ficar conhecida.”
Mas como fazer pegar uma lei, onde não se pode beber mais de um copo de cerveja, quando não se mexe no imaginário popular, onde ainda se pensa que só se pode estar feliz, só se pode sair para conversar, se for bebendo. E não apenas um copo, mas se deixar, a fábrica inteira. Pessoas que se mostram indisciplinadas com a própria vida?
Lembrei do meu amigo que brochou na frente da finlandesa, não por ser homossexual, mais por um problema homossinético. Faltou ela lavar a calcinha, com um pouco de Sabão Omo. Por que tem gente que se importa com isso. Um judeu espírita se isso for possível. Ele dizia que as pessoas têm de ter responsabilidade com a vida. O corpo não nos pertence, ele nos foi emprestado para cumprirmos a missão e por isso, não podemos machucá-lo nem física, nem psicológica, nem espiritualmente. Falando como achava incrível como as pessoas se regozijavam com os filmes norte-americanos. O que deveria ser entretenimento, o deixava muitas vezes, em frangalho, espiritual e psicologicamente. “A gente pensa em se divertir, é violência, é terror, é golpe contra os outros. E as pessoas acham tudo muito engraçado.”
É mais ou menos, como as leis no Brasil. Não adianta fazê-las bonitas se não se conscientizam as pessoas. Elas têm de ter responsabilidade sobre seus atos e sobre o país.
“Bebida e direção pode ser um tiro que sai pela culatra e não entra nem a pau, no cú da mulata!”
“Bebida é como o amor. Não adianta querer usar como muleta, quem não está bem consigo. Mágica só com o Mr. M.”

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