terça-feira, 15 de setembro de 2015

THAMIRES

THAMIRES
CADERNO 4  6 de agosto de 2015
Do fruto de uma foda – o que soaria grotesco para uma burguesia que a cada dia se parece com a aristocracia nos estertores do Feudalismo, quanto menos poder, mais tentava se destacar com esnobismo até certo ponto aviltante às classes mais baixas -, nasceu uma garotinha, como tantas, mas diferentemente de tantas outras, cercada pelo fausto, contradizendo o Nascimento do Menino Jesus que era a pura contradição e seus seguidores apenas contradizem o que disse o Pastor.
Tudo era cercado de pompa e circunstância, a menor cagada, era motivo de uma penca de serviçais se postarem para servirem.
A escolha do nome foi outro ato que teria de denotar poder, desde a Certidão de Nascimento.
Quando a civilização adotou o nome próprio, queria um meio de diferenciar X de Y, mas no seio daquela família, era tinha muito mais significado.
O nome em si, já trazia consigo, além da identificação, todo significado de augúrios e até de sorte, de sucesso, segundo a Numerologia. Cada letra, como uma nota na escala chinesa das dinastias, significava muita coisa e a nota errada, podia ensejar a morte do imperador, o que levava o autor à morte, sem apelação.
Naquele momento, existia em si, o sentido de eternidade, como se a vida e a moda, pudessem perdurar até depois da morte. Espera!
Thamires, nome hebraico que significa Palmeira, na Numerologia, 6, Anseios da Alma, no Tarot, o Carro, etc., e tal.
Thamires que desde muito criança, entre parentes e amigos do casal, já era chamada Princesinha, apesar da estória se passar em pleno Capitalismo .
Torno a reiterar que o Capitalismo atual está se portando e comportando como o Feudalismo em seus últimos momentos. O fausto das classes abastadas que têm de ser anunciadas, não bastar ter, a miséria da grande maioria, a fuga da realidade com extremo hedonismo, a busca desesperada por um sentido na vida, num mundo fora da realidade e uma falta de noção nas consequências de seus atos.
-...-
Thamires foi amestrada para ser possuidora, mesmo que as coisas não fossem de seu interesse, mas desejadas por outros, tinha de possuir, não por uma necessidade sua, mas para mostrar que podia mais do que os outros. Era uma mania quase doentia e vivia doentiamente.
Enquanto crescia, foi consolidando aquele ar de classe abastada de ter a imagem pública, saber posar para a foto, também se segurar para não se mostrar integralmente, quando desnecessariamente, a imagem que não condiz, muitas vezes, com o que realmente está sentindo internamente.
O pessoal que está fulo com alguém, mas gritam:
- Olha o passarinho!
Todo mundo mostra os dentes, como se a lente, fosse o dentista. Só se aparece em foto sem sorrir, quando não se é avisado, ou quando se é modelete em Manaus. Não tem uma que sorria, parece que todas estão muito putas. Até podem ser, mas o processo que foi aberto para investigarem-se esses agenciadores de modeletes que viraram colunistas sociais e são regiamente pagos pela Prefeitura, Governo do Estado, TCE, Câmara, Assembleia, TJ, sumiu, não se sabe se no Encontro das Águas, ou n’ alguma gaveta com teia de aranha
Isto é Manaus, como diz o título de um programinha muito chulo. Autoridades são os que nunca foram julgados, mesmo por crimes hediondos. E se fica refém de gente que arrota dignidade, não por não ter manchas na história, mas por saberem com quem fazer amizade. É o próprio Faroeste Caboclo. Não tem mocinho, só gente que se vale da prescrição de tempo. E aprende a fazer pose em Brasília, mas no Amazonas, é grileiro, pedófilo, alcoólatra, drogado, dependente de bingo, enrustido, ou seja, o Diabo com pele de anjinho.
Tanto sorriso para a foto, significa um povo feliz, como o pessoal do Butão que acha que tomar no Butão, é felicidade total.     
Talvez o INTELIGÊNCIA MULTIFOCAL possa nos ajudar a entender o cidadão, como ator, no circo da vida.
É possível que haja muita gente vivendo exteriormente em excelentes condições sociais, mas vivendo internamente uma verdadeira miséria emocional. É possível também que haja pessoas que vivam externamente em condições miseráveis, mas são emocionalmente livres e alegres.
Cada momento que passava a Princesinha tornava-se incapaz de se relacionar, com alguma empatia e em condições interpessoais, com os outros.
Aprendeu a representar papeis de acordo com a plateia, como se a vida fosse uma novela, onde o papel principal, sempre lhe coubesse.
Odiava repartir brinquedos, pertences, não, já havia passado da infância, onde numa fase, é normal a criança ser individualista. Mas, em momentos específicos, com quê, para angariar pontos na caderneta do Senhor, ou simpatia com os desavisados, era de um altruísmo desmesurado. Tão filantropa que era pouco visto, na idade dela.
Mas como sempre diz esse pessoal: “O Senhor é meu pastor!” E a falsidade minha meta na vida.
Quanto mais crescia, o que nem sempre se faz acompanhar de amadurecimento, mais agia como um general estrategista, em uma guerra sem fim e sanguinolenta.
Se via alguém que pudesse servir de escada para suas pretensões para ascender, como amigo, ou namorado, não media esforços, não bastava o simples encontro casual, onde a relação se fortalece com o tempo. Era uma questão de estabelecer metas, táticas, até prosperar no que desejava.
Thamires era a própria imagem das classes abastadas. Pouco discernimento sobre a realidade que a cerca, mas uma postura cheia de luxo, de desqualificar tudo o que acha que não lhe possa favorecer. Não tenta alcançar os fatos, acha que faz mal, destrói. Ainda mais se achar que está num nível acima, nivela tudo, por baixo, justamente por não atingir acima de onde está.
Não foi à escola, muito caras, diga-se de passagem, para deslindar a realidade, mesmo porque denotaria muito esforço intelectual e até físico. Escola burguesa, mesmo quando oferece melhores níveis de aprendizagem, é lugar onde as novas gerações da burguesia aprendem e consolidam seus vícios, até de caráter. Por isso, muitas vezes se veem pessoas arrogantes e prepotentes, saídas de escolas onde deveria ser oferecida a melhor Educação, aquela que transforma e cria pensadores, sem o menor conteúdo para uma conversa mais profícua, senão sobre futilidades, fofocas e futricas.
Talvez mais uma vez o INTELIGÊNCIA MULTIFOCAL possa ser útil para alguma compreensão.
A democracia das ideias é tão importante, que qualquer ser humano deveria expor e defender suas ideias, em quaisquer níveis das relações humanas, mas nunca deveria impô-las como verdades irrefutáveis.
[...]
As salas de aulas, mesmo em países que mais honram a democracia política, nem sempre são albergues da democracia das ideias, mas do autoritarismo das ideias. Por isso, as escolas formam homens que retransmitem o conhecimento, mas que não são pensadores humanistas.”
A postura de classe estava se consolidando em Thamires.
Sabe aquele pessoal que vem com ideia fixa, como o cachorro do Obelix, mas se acha mente aberta? Nada pessoal, é medo de perder a boquinha, com diálogos que possam sair do controle.
O que tinha à profusão era uma arma utilizada para se mostrar superior, mas escondia um grito que não podia ser escancarado de clemência e humanidade, dos demais, que tinham mais argumentos ao confrontarem-na.
Thamires via uma artista com um sapato específico, fazia de tudo para mostrar que também podia usar aquele artigo, a exclusividade que não faz sentido, mas faz muito bem para quem só sai de seu complexo de inferioridade, mostrando o que pode comprar e mostrar exteriormente. Quando não podia de uma forma, apelava até para a pirataria.
Dirão alguns que é coisa da contemporaneidade, lança-se um modismo, o consumismo tem de se alimentar na busca do ter.
Diria que baseados em estudos e artigos científicos que os povos autóctones canibais já faziam isso, quando se alimentavam da carne do guerreiro adversário, ou utilizavam pedaços de dentes e de ossos pelo corpo, tentavam extrair do outro que fora vencido, suas melhores qualidades, como valentia e perseverança, para os tornar muito mais fortes.
Quando a sociedade está estagnada, tem que diga que se faz uma releitura do passado, para buscar originalidade, na verdade, é falta de imaginação pura e simples.
Hoje se faz releitura da moda, dos automóveis, dos meneios e maneiras e, principalmente, uma releitura da fuga de uma realidade que parece não oferecer satisfação alguma, mas ninguém quer ser quem vai dar murro em ponto de faca.
A relação trabalho X vida, família X empresa, tudo, está ruim, mas é o que está posto, vai se levando, empurrando com a barriga. E quando a realidade não faz nexo para quem nem tenta entender o que se passa, buscam-se pontos de fuga, cada vez mais utilizados. Foge-se pela religião, o que se tem mostrado de pouca valia; buscam-se as drogas, o que também tem sido pouco; então se procura a alienação em uma vida virtual, mesmo assim, ainda é pouco e é preciso a cada dia inventar-se  novas abstrações, para não se enfrentar a realidade que parece nociva à vida, com alguma qualidade de sanidade mental.
Culpa-se o progresso, o stress, o karma, diz-se que é assim mesmo, mas na verdade, é uma conformação quase covarde, que sempre espera que seja feito o que se tem capacidade de fazer, de fora, nem se for de fora, do Além.
Thamires tinha suas bugigangas industrializadas, como uma forma de se colocar acima dos outros. Mesmo sabendo-se que celular na orelha de crianças, podem trazer danos à consolidação dos ossos cranianos e à massa encefálica, os pais dela, quando nem sabia falar direito, presentearam-na com um telefone móvel topo de linha. Quando adolescente símbolo de poder, era os pais presentearem os filhos até púberes, com automóveis. Dissessem o que dissessem, dizia que seus filhos, no começo da adolescência, tinham consciência, eram adultos, apesar da pouca idade. E assim o fizeram. Hoje, símbolo de status, é dar aos recém-nascidos tablets, smartphones, para acessarem as redes sociais. Como diziam, até para se enganarem: “O tempo é agora, a vida é aqui mesmo”. Mesmo que fossem frequentadores assíduos de templos religiosos. Mas é típico das classes mais abastadas, quanto mais conseguem adquirir bens materiais, perdem cada vez mais, a capacidade intelectual.
Hoje, não só bebês, têm “acesso” às redes sociais, como cachorros e gatos. É como comparar com o tempo em que a nobreza tinha sua maneira de pegar na xícara, de dançar, de sentar, mas não significava nada mais do que esnobismo, o que não salvou grande parte que acabou na guilhotina.
Mas o que vale mesmo, quando se colocam crianças e bichos de estimação no que nem sabem que existe, não é para fazer o bem a esses seres, mas é uma maneira de inflar o ego.
Ao invés de se chamar atenção pelo que se é, compra-se o que não nos pertence, mas que possa se o centro das atenções. Mesmo que o sapato deforme a coluna, a bolsa gere dores nos ombros, os óculos piorem a visão, o que se busca, é mostrar status, como quem vai ao culto religioso e faça de tudo que saibam, inclusive os ausentes, que deu o maior dízimo, milionário. Não importa se a filosofia pregue outra coisa, o dogma diga que a matéria é passageira, o imediatismo tem de sobressair em qualquer situação.
Esse consumismo hoje, não é só feminino, como se pensava antes, é também masculino e homossexual, transexual, a sexualidade que se considerar. Hoje se vende mulher para consumo. A Fernanda Lima com um abdômen de estivador, um corpo horroroso, uma antipatia visível, mas é artigo de vitrine que muitos gostariam de pelo menos, passear de mãos dadas, para que os outros possam invejá-lo e só.
Thamires era o que se podia dizer, neocanibal dos ditames passageiros e fugazes de seu tempo.
Seu closet não era um lugar onde guardava seus pertences, principalmente do vestuário, parecia mais um depósito de objetos comprados por impulso. Muitos, com a etiqueta original ainda intacta.
Eram milhares de roupas, centenas de aparelhos eletrônicos, trocados quando aparece um novo que muda só a cor, tanta coisa em mãos de uma única pessoa, não para uso, mas como uma questão de se mostrar no topo da pirâmide social. Pelo menos é uma maneira dos outros o terem dentro do estereótipo do poderoso, de tudo de bom lhe pertence, desde a ética, até o poder de se desvencilhar dos problemas. E na grande maioria das vezes, não é bem isso que se conhece.
Todo esse esforço de comprar, mas não se aprimorar o conhecimento, , é que muitas vezes acaba-se não sabendo manipular um aparelho simples, pois são tantos símbolos e muita gente não lê, nem manual de instrução e reclama do que é problema só seu. É tanta força para aparecer por aparecer, que a pessoa tem milhões de seguidores no mundo virtual, onde possa se apresentar com retoques, sem saber para o que serve ao menos, o Onofre, aquele símbolo que sempre vem nos produtos eletrônicos importados. ON/OFF.
É moda falar sustentabilidade, até ao falar da diarreia que o hospitalizou, Thamires  foi à graduação para aprender como usar a palavra SUSTENTÁVEL. Assim, até a moda da especialização torna-se consumismo que no fim, acaba em lixo.
Thamires estava em idade, como muita gente tem essa definição muito corrente, de ter relações duradouras, outro discurso ideológico muito arraigado e forte.        
Queria se mostrar, sempre, pós-moderna, o que isso queira significar, mas, mais uma vez, sua postura tinha um ranço de passado. A vida era toda dentro de módulos, nada diferente de antigamente. Dos 8 aos 18, tempo de estudo. Dos 20 aos 23, orar por um marido. Dos 25 aos 30, parir. Dos 50 aos 70, sair de cena para torcer pelas vitórias dos pupilos. Uma rigidez quase militar, mas de exércitos de conquistas feudais. Thamires, volto a lembrar, não era exceção, era quase a norma burguesa dos tempos ainda contemporâneos.  A falta de procurar conteúdo faz com que se repitam os mesmos erros, sem ao menos perceber-se como estúpidos que não são nem presentes, são ultrapassados.
A única regra, ou disciplina que a sociedade burguesa segue sem dar desculpas.
Passou de Princesinha, para Rainha, Rainha no mundo virtual. Não que acrescentasse alguma coisa, muito pelo contrário, muito do que transmitia, era apenas imitação descarada do que via nas páginas dos outros. Nem ao menos dava os créditos a quem tinha sido colado. Mas era assim que se sentia poderosa.
Em suas festas de aniversário, como tem sido comum, também às formaturas e até encontros de trabalho, era quase uma montagem teatral, onde o tema escolhido, tirado de algum sucesso de momento, acabava se tornando mais importante do que a celebração em si. Não há mais uma festa, onde não distribuam perucas, coroas, óculos, colares, às vezes, vira uma festa de gala de fantasia mesmo. Como se a festa em si, fosse menos importante, do que a representação. A felicidade só pode existir com penduricalhos nas pessoas.
De repente a filha faz 15 anos, o pai que é homofóbico na alma, tem de requebrar no palco, a mãe, já em estado de putrefação física, deformada fisicamente, desde o primeiro parto, tem de representar com uma tanga enfiada no orifício, para satisfazer a garotinha que quer ser a protagonista do filme que viu, ou da imagem do Whats APP, tudo bem artificial, nada que seja ela, nada que ela se apresente, como é.
Quanto mais ostentava, mais se mostrava sem originalidade alguma. É como o Caldeirão do Hulk que imita os programas assistencialistas das TV’s à cabo, vindos de fora, mas odeia o Bolsa-Família, por ser assistencialista; o Faustão que imita a Dança dos Famosos de maneira bem rasteira, mas fica parecendo todo mundo muito tão original.
Era quase uma personagem de contos de fada, de tão artificial que se mostrava.
Aos 15 anos, refez todo o cenário de um filme que viu na Sessão da Tarde, sem contar que contratou atores de Malhação, para ficarem como bibelôs de cristal, onde ninguém podia pegar, nem chegar perto.
No aniversário de 23 anos, contratou a peso de ouro, um presbítero midiático, bem famoso, daqueles, tipo Padre Marcelo Rossi que usa o hábito, para ser celebridade e é tão fora dos dogmas que aparece em público dizendo que está com depressão, ou seja, coisa de quem não acredita num Ser superior, de que este mundo é só uma passagem. Passagem para ele é outra. Ele utiliza em outra posição. Mas a celebridade religiosa que contratou, só pregava em Inglês. Nem ela, nem ninguém, entendia bulhufas, mas, mesmo assim, fazia aquele ar de compenetração, quando ele levantava a mão, todos levantavam juntas, mesmo sem saber se era continência nazista e se fazia aquela cara de “oh Jesus”, que viam nos programas midiáticos religiosos. Algo assim como se o cara estivesse com prisão de ventre, mas ao mesmo tempo, tendo alguém fazendo sexo anal com esse pessoal, não se sabe se riem, se choram, se gostam, o se estão gozando.
- Oh Pai!
- O que foi!
- Nada não, é só uma maneira de dizer!
Já estava em idade de casar, como se isso existisse. Até os 18 anos, ninguém tem interesse pelos outros, sentimental e sexualmente. Meia-noite e um minuto, depois disso, pronto, abatia-se aquela vontade imensa de casar, de meter o pé na jaca.
A empatia para se buscar uma relação com o outro, não conta. Inventa-se uma necessidade de colocar quem quer que seja, dentro daquele traje que se fez. Não é o homem que faz a roupa, mas roupa já está pronta para vestir qualquer um. Não importa se Joaquim tem 2 metros de altura, se tem 1 metro e meio, se pesa 60 quilos, ou 180, se usa camisa 2, ou gola 5, tem-se de casar, depois se dá um jeito na porcaria que se colocou em casa.
Os amores burgueses que são abençoados no matrimônio por Deus, acabam quase sempre em divórcio. 
Thamires se achava uma grande estrategista, mesmo sem ao menos ter noção do que é isso, como dizem por aí: “uma imagem vale mais do que mil palavras.”
Não se precisa capacidade para nada, apenas saber construir um avatar, um estereótipo que seguir.
De repente as amigas do grupo social de Thamires estavam alvoroçadas por causa de um forasteiro que pousou no pedaço. Nem era o perfil do garoto que ela gostava, mas, por ver que as outras gostaram, entrou no páreo.
Outro traço da burguesia, é que nunca sua vida é algo aleatório, é sempre uma missão a cumprir, em nome do Todo Poderoso. E como se pensa assim, vive-se pouco o que se é, quase tudo que se faz, é para mostrar aos outros.
Thamires usou de todos os golpes para “ter” o forasteiro, pois era uma forma de mostrar poder. Pois é, até em se tratando de relação interpessoal sentimental,  transforma-se isso, em propriedade privada. O artigo “meu”, não se restringe só a bens materiais, é uma condição de vida.
“Meu” animal de estimação, - mesmo em se tratando de um ser vivo; “meu ” espaço;  “meu” cônjuge; “minha” família, em suma, quem mais usa o artigo “meu” e “minha” mais poderoso parece.
 Thamires queria chamar aquele troféu, o forasteiro, de “meu”, disputado à tapa, para se sobressair entre quem chamava de amiga. Imagina!
Venceu a batalha, mas aí acho que ainda era pouco, queria que o “amor”, demonstrasse em público, todo o amor por ela, nem se fosse só para o público e nada para ela.
Era assim que ela via nos filmes sentimentalistas, que uns chamam de “água com açúcar”, outros, de “lindos”.
Logo se tornou um “amor” angustiado e grudento, como via nas novelas, onde o casal já mora junto por 20 anos, mas se beija a toda hora, ardentemente e ainda hoje, a esposa, sempre submissa, vai deixar o marido no portão e mesmo que já tenham se beijado, sem escovar os dentes, de novo se beijam lascivamente no meio do trânsito, como adolescente que só tem tesão de se beijar, no meio da rua, sob um sol de lascar.
Mais de 6 meses de namoro, o forasteiro ainda mandava flores, escrevia poesias no cartão que acompanhava, até mostrar todo o seu “amor”, de joelhos, para demonstrar toda sua paixão.
Paixão? Seis meses e ainda é paixão? Sim, no Brasil ainda se confunde paixão com amor, tesão com vontade de casar. De novo, pelo pouco conhecimento de tudo que as pessoas têm, mesmo se arvorando a intelectuais.
Um dia o casal viajou à França, é que as revistas e blogs, sobre amor, diziam que só se pode amar em Paris. E se em Paris, também não basta se não tiver uma champangne para estourar, mesmo que estourar champagne, interfira no produto e essa mania, é propaganda muito bem paga, para divulgar a bebida, nada mais do que isso. E não basta só isso, algo que só possa ser vivido só por quem está na relação, é preciso mostrar aos outros que se ama, mesmo que a sós, cada um fique no seu lado e o cara seja brocha e a “amada” seja frígida. Não basta viver, é preciso mostrar que se está vivendo.
Um dia no meio s do desfile do 14 de julho , em pleno Champs Elisées, justamente quando todas as câmeras e microfones registravam o discurso do Comandante, ele se postou aos pés de Thamires , aproveitando que aparecia no campo de visão, e,  como muitos, sem a menor originalidade, recitou um discurso apaixonado que colou do Google e como se tornou mister, sacou do bolso uma caixinha revestida de veludo que continha um anel caríssimo.
Entre ais e uis de quem é levado a achar tudo lindo, para não mostrar, nem discutir suas ideias, até infantis e imaturas, de repente, o cavalo que desfilava e passava por trás das câmeras e pela frente do casal, cagou na cabeça do “enamorado”. Como sempre, no afã de desqualificar com tudo o que não concordava, mesmo que ela estivesse equivocada, mas como já disse, ela se achava melhor e superior a todos, bradava em Português em plena Paris, que a Arma da Cavalaria era “saudosismo desnecessário”.  Ela nunca, ao menos, estudou sobre a atuação das Forças Armadas, já se arvorava a entendedora e lutadora pelo fim dos transportes, mas não o fim do militarismo em si. Totalmente discrepante, como muitos. Era contra o saco de lixo jogado na rua, mas não discutia a lixeira fora dos padrões. Era contra as igrejas neopentecostais, mas não permitia que se discutisse sobre as religiões em geral, atrapalhando o mundo real.
Gente que discute Ecologia, Ciência, Política, Economia e tudo o mais, sem procurar formar ideia, só porque ouviu um lado da questão, sai querendo ser o fiel da balança. E como todo estúpido que só sabe repercutir o que ouve dizer, já sai rotulando. Rotulou logo a Cavalaria – que aliás, no Exército Brasileiro, tem um hino que é sonífero e brochante, de tão lento – de “saudosismo”.  E o pior, se perguntasse se tinha ideia melhor, ou ao menos, diferente, mostrava sua nulidade em ser, ou do ser. Sei lá, entende?
O cavalo não cagou só na cabeça do babaquara, cagou aquela representação que era apenas mais uma imitação, de tantas que se espalharam através do mundo. De repente um babaca baixa na frente da vagina de uma tapada e todo mundo pensa que vai chupar no meio da rua, não, é para perguntar se quer casar. Eu prefiro foder. Se eu ficar de joelho na frente de uma mulher, eu chupo. Acho difícil pedir em casamento.
Foram às pressas ao hotel, para pegar o jato à sua disposição para irem à Las Vegas, para assistirem à duas peças que, em separado, tratavam da vida de Elvis e de Marilyn Monroe. Ele travestido de Elvis, ela de Marilyn, mas isso, de maneira alguma, era saudosismo. É ser antenado com seu tempo. Era aceito como coisa de fã, mesmo que os ídolos nem tenham sido de sua época.
Bem, depois desta peripécia pós-moderna toda, resolveram casar no verão, em Ibiza. Era imprescindível que fosse com um rabino. O único que conseguiram, era um que se jogou na libertinagem da estação, porque iria servir, depois dali, em Israel e podia ser sua última vez de curtir a vida, a celebração da luxúria, justamente em uma Espanha que até hoje se notabiliza em ser reacionariamente cristã e foi quem ajudou a espalhar a causa carola pelo mundo. Mas se não fossem assim, não seriam cristãos. Seriam sãos!
Perguntaram como ele iria enfrentar o Dia do Juízo Final, participando de tanto desrespeito ao corpo e ao próprio mundo ofertado por D’ us.
- O Dia é hoje, sem juízo. No final a gente pede perdão.
Aliás, o faz de conta da vida burguesa tem disso, juras de fé, juras de amor, juras de sinceridade, juras de tudo, mas tudo da boca para fora. Nem se precisa procurar o léxico, para saber o significado de dicotomia, o discurso dessa gente não bate com a prática.  Vide o tal de 7 Pecados Capitais que um Papa colocou como código de conduta aos católicos e quem não observar, vai para o Inferno - e não é na música do Roberto Carlos, antes de só fazer música para velha desesperada e velho enrustido que antes de morrer, ainda cria coragem e diz:
- Toma macho! – que se acreditassem mesmo, inclusive os Papas, os Bispos e os Padres, já estariam se imolando, por mentirem tanto, por procurarem tanta luxúria, por terem ódio, muito ódio, principalmente contra quem não pensa igual.
Um amor que em tempos de selfie, o que eu traduzo como egoísmo infantil, tem de ser registrado até quando o casal está se matando, cabe bem nos escritos de Pier Paolo Pasolini, em 1969, quando editou TEOREMA, que dizia que essa prática, é típico registro de família pequeno-burguesa, de ter de se fotografar a todo instante, para mostrar aos amigos e dar satisfação à sociedade, que, pelo menos no momento da foto, são todos felizes, inclusive juntos.
Como diz o dito: “quem casa quer casa!”. Não importa se tivessem condições apenas de construírem uma única casa, viram no sítio de fofocas que ainda é muito atuante, como se ainda estivéssemos nas casas de famílias de clãs, onde todo mundo fofocava de todo mundo, que a celebridade tal, tinha casas ao redor do mundo, resolveram então, ter uma casa residencial que hoje não se chama mais de lar, mesmo porque não existem mais, outra casa de campo ao mesmo tempo.
Tinham de adquirir um espaço num condomínio Nem que fosse um cortiço com esse título, apenas. Tinham de parecer que estavam podendo, como aquela brasileira no estrangeiro, com uma taça de champagne na borda da piscina que retirou a postagem, judicialmente, da internet e dizia:
- Andam dizendo por aí que eu estou numa pior.
E escorregou, tomou aquele caldo e voltou tirando águas dos olhos e se recompões rapidinho, depois de dar muitas chupadas nas narinas, voltou a falar com voz de locutora de motel, para completar.
- Se isto é estar numa pior! Pô...rrrra!
Não, isso não seria estar numa pior. O pior seria ter morrido afogada, no meio da representação, ou se o patrão chegasse e desse as contas dela, durante a gravação do vídeo.
Depois dali, dizem que teve uma sinusite malvada. Engoliu mais água pelo nariz do que tudo. Lavou o cérebro, tanto que deu branco. E voltou ao Brasil, com proposta de ser celebridade e acabou esquecida na periferia.
Hoje, coerência é algo tão sem validade, quanto usar ceroula. Pode-se inclusive “causar”, sem se precisar completar a frase. Sem sujeito, nem advérbio de tempo, assim como causar, tudo é um fim em si. O substantivo se transforma em verbo, como “miguelar”, na verdade, a expressão da desinteligência total. Quando não se tem nem um vocabulário mediano, ao invés de procurar preenchê-lo, que nada, inventam expressões que logo outros mal informados repetem à exaustão, como “muquifo”, que tem tantas expressões que significam o que tentam dizer, como cafua, covil, casebre, moquiço, etc. Ou “magérrima” que pode ser dito, dentro do que existe, magríssima, macérrima, só osso, famélica, anoréxica etc. Parte do imediatismo, onde se formam milhões que não sabem o mínimo, mas saem com um discurso danado.  Se faltam palavras, “deixa a vida me levar”, como se vivessem sempre nas bordas de um furacão. Mas como dizia Seu Clóvis, para quem não sabe para onde quer ir, qualquer destino é ponto de parada. Se a vida levar para uma queda d’ água imensa?
Em pouco tempo, depois de tanta demonstração pública de amor, o casal começou a se desentender, por causa das contas a pagar. Sim, o casamento só é casamento, quando o casal começa a dar conta das contas.
Sabe o brasileiro que quando as classes C e D começaram a ter poder de compra, ele começou a gastar mais, por conta do futuro, contar com o ovo na galinha? Pois era como o casal. Quanto mais percebiam em seus trabalhos, mais gastavam. Mas mesmo endividados, não se responsabilizavam nem a pau. A culpa é sempre de fora para dentro. Como muitos brasileiros. Estiagem em São Paulo, não é por causa da política desastrosa do Governo que queria se reeleger, a culpa é de São Pedro. Culpa do desmatamento em volta dos recursos hídricos, nunca é da colonização europeu-cristã, é culpa da falta de chuva, como se chuva fosse algum milagre e não consequência da respiração das florestas, principalmente Amazônica. Até quando uma relação se desgasta, nunca se pensa o que o casal deixou de fazer, sempre se procura culpar alguém de fora que não tem nada a ver com a relação, nunca jurou amor ao outro, só estava disponível em momento certo, na hora correta.
Thamires como boa brasileira, ao ver a relação indo rapidamente para o ralo, com uma dupla imatura, culpava tudo, pelas contas, pela inflação, pelo governo, pela falta de educação financeira que não lhes foi proporcionada.
Aprendeu com a mãe que já teve incontáveis relacionamentos que chamava de amoroso, só de casamentos, na casa decimal, mas ainda hoje, culpa todas suas separações, por causa dos outros. Não se tocou ainda que o problema é dela, quem casa como brincadeira e se separa como se fosse o exercício de descarte de uma lata de refrigerante, é que tem de parar e se analisar, ou pagar um profissional para psicanalizá-la. Não é normal uma pessoal crer no casamento como um instituto divino e não mostrar a mesma responsabilidade, com a sua.
Está COMPUTARIA que o Batalha nomeou a torcida da Estatística no FUM e tempos depois, um Senador apropriou para a Engenharia, dizendo que um “cursinho daqueles, não teria capacidade de criar uma palavra dessas.” E ele, engenheiro formado nas coxas, teria?
Thamires viu que com a mãe, todas as vezes em que se separava, a família se unia e denegria a dignidade alheira, a culpa sempre era do filho dos outros, então se fez de vítima e esperava a mesma solidariedade familiar, consigo.
O que se soube, sobre a última separação da mãe de Thamires, é que ela estava com cinco garotões sarados e excitados na piscina, todos completamente pegando um bronze, sem marcas, na hora em que o marido chegou, faltava buraco para enfiarem seus membros. Até tentou falar com a esposa, mas ela não conseguia escutar nada. Eram uns meninos tarados. Mas mesmo assim, com tantas evidências vivas, na hora do divórcio, a culpa era do marido que por ser “louco”, não a satisfazia na cama. A mania de se dar laudos especializados de  louco e maluco, sem nunca ter frequentado sequer, um dia no Curso de Medicina.   
São famílias que apenas ajudam a formar membros cada vez imaturos, que não enfrentam a realidade, sempre procuram subterfúgios. Parece que nessas famílias, há um manual de como criar culpados. Só não podem ser os seus.
Mitríades, o primo do marido de Thamires que era rico de verdade, veio pasar as férias na cidade
Assim que soube, tramou nova maneira de fisgá-lo. Como digo, relacionamento muito cheio de cenas públicas, não criam raízes. Não somam momentos juntos, é apenas uma maneira de cada um viver seu individualismo, num matrimônio.
Se começam como um troféu, ao invés de uma vida em comum, só podem acabar como se ainda procurassem sua vida de solteiro, após o casamento. Aliá, burguês adora um após. Nem para morrerem, acreditam piamente que esta, é apenas uma passagem para outra vida. Devida! Espera!
Thamires era amantíssima, amorosíssima, apaixonadíssima, mas amor, tanto para ela, quanto para a mãe, ainda eram uma maneira de ascensão financeira. Nunca têm preconceito com quem se ligar. Só não se ligaram, até hoje, com pobre. Mas vai ver, foi falta de oportunidade. Elas nunca escolheram quem amar, mas coincidentemente, só amaram gente com recursos monetários. Tem de tudo.
E quando viram madames, acabam mostrando ódio em relação às putas. Hein? É, as putas do baixo meretrício que ganham mal e porcamente, não pensaram em casar com homem de posses. É uma questão de interpretação semântica.
Não esperava que o primo tivesse valores e não desse a menor bola, para a mulher de amigo e de parente. Não conseguindo seu intento, mais uma vez, usou da política de denegrir a imagem alheia. O primo era hipster, tinha umas ideias extemporâneas, era fora de tempo, tóxico, blá, blá, blá.
Fofoca é tão velha, quanto a prostituição, mas quem mais se vale delas, é quem se diz atual.
O primo soube que ela o estava desmoralizando, sem deixar perceber suas intenções, reuniu a todos, da família e da família de Thamires, como uma despedida. E quando todos estavam reunidos, deu sua versão dos fatos e aí, todos perceberam que realmente a vilã era quem se fez de vítima.
Então meteu o cepo.
- Para mim, progresso só existe quando se acompanhado de saber. Sem esse sentido, é estupidez.
   Aprendi em casa que cada um tem de assumir suas responsabilidades, até como uma questão de maturidade.
    Sim posso ser visto com hipster, por mesmo, podendo, ter consciência de minhas responsabilidades sociais. Planejo meu tempo, para não contribuir com os engarrafamentos, quando compro meus carros, são híbridos, mesmo assim, utilizo o transporte público, tento utilizar energia renovável em casa, tratar a água de retorno.
   Eu, mesmo com poder de compra maior, tenho uma só casa e só adquiro o que necessito, vocês têm coisas que nem usam, para mostrar, mais do que  para ter para si.
   Aprendia a ter consciência com o mundo, justamente para não me tornar vítima da minha própria irresponsabilidade. Este terreno quando eu era criança, era do meu pai e eu comia a fruta do pé, tomava água direto do lago, me banhava no rio, podia pisar descalço no chão. De repente, compram terrenos preservados, justamente com a propaganda de uma vida próxima à natureza. A primeira coisa que os moradores que pagam caro, por essas particularidades fazem, é cimentar e asfaltar tudo. Árvores, plantas, só compradas em floriculturas, água, só em fontes que ficam espargindo o dia inteiro, os rios e lagos, viram lixeiras, os nichos florestais, acabam dando lugar a centros de jogos, cimentados também, enfim, pagam caro, não para desfrutar, mas só para se fazer visto.
   O que chamam de luxo, na grande maioria das vezes, é uma forma nociva contra a humanidade, por quem quer ser exclusivo, sem ser se tornar alguém que contribua mais com a sociedade.
   Nenhuma fuga da realidade pode nos devolver o tão decantado Paraíso Terrestre se não mudarmos nossas concepções e não nos tornarmos realmente cidadãos.
   Soluções existem, mas é preciso coragem para sair da prática incondicional da mesmice, com desculpas até infantilizadas. Quem não tem atitude, morre mordendo a própria língua.
Thamires ouviu tudo calada, sem opor uma palavra.
Depois de tudo, realmente o primo do marido de Thamires voltou para casa.
Assim que entrou na aeronave, Thamires novamente criou voz.
Usou as redes sociais para falar até bobagem: “Fala tanto em responsabilidade ambiental e anda de avião que polui por mais de mil caminhões. Agora eu vou ter de perder meu tempo, me preocupando com o mundo inteiro? Eu sou vencedora, eu pago para fazerem para mim, não preciso me mover, eu pago.”
A mesma concepção de muitas famílias, em relação ao professor, inclusive na graduação: “Eu pago, então eu digo o que e como aprender. Ele é meu empregado! Eu que determino o que estudar.”
Dias depois de tanto ódio, Thamires foi internada com problema de circulação. O médico alopata dizia que era por causa das veias. O médico da Medicina Tradicional Milenar e Holística, dizia que sim, as veias estavam danificadas, mas a causa principal era psicossomática. A energia gerada na alma, a estava danificando o corpo. Aquela vida de aparência, sem estar realmente conectada à consciência, estava cobrando a conta. Começava com desequilíbrio mental e acabava nas veias. Mas não adianta curar as veias, sem curar a causa. Ali as veias ficam nos trinques, abrem-se outras veias que sangram o ódio que assim como o amor, ou qualquer outro sentimento, nunca atingem quem se quer atingir, mas pode nos fazer mais felizes, ou mais doentes.
Thamires foi internada no CTI, mas mesmo entubada, em coma, ainda pensava que a culpa não era dela .
Lógico que o bode-expiatório, tinha de ser o primo do marido, até por não ter se deixado fisgar como peixe tonto.
Thamires, antes dos 30 anos, ao invés de acumular seu primeiro milhão de dólar, deixou marido, amantes, muita desavença, muitos seguidores nas redes virtuais e muitos desafetos na vida real, onde não se pode mascarar, tratava muito bem o amigo virtual, mas destratava o porteiro, o motorista, o mendigo, qualquer um que achava subpovo.
O que vale viver 10 anos a 1.000, se tanto faz, como tanto fez, uma vida superficial e sem contribuir com a construção do mundo que acaba vindo ded volta, transformando uma vida que pode ser plena, numa vida de merda?
No fim, quando não deixou saudade, principalmente para quem tinha contato com ela, Thamires, indiretamente fez a festa, justamente no seu enterro.
Justamente, como um descarrego, o marido se desfez de todo o luxo, de todo o materialismo da esposa, dando tudo o que pertencia à ela e entulhava grande parte da residência,  foi dado àqueles a quem ela desprezava, espezinhava, muitas vezes como seres inferiores e pior, invisíveis, como acontece muito com esses filhos de Deus, em relação aos seus iguais.
Já no velório, o viúvo tinha um sentimento contrário ao sentimento burguês do pesar. Apesar de ter perdido a esposa, sentia-se livre de carregar um fardo pesado nas costas. Uma mulher que podia ser tudo, menos companheira, nunca solidária com mais ninguém, a não ser consigo, Realmente a imagem de famílias, só havia da porta da casa para fora. Era uma construção apenas dela.
O viúvo reaprendeu a viver, não deixou de consumir, mas consumir o que necessitava para si, não para mostrar uma casca vazia. Aprendeu a compartilhar de coração, não como uma obrigação de ser bom, para cumprir metas filantrópicas, nas frentes das câmeras.
E percebeu que sendo humano, faz parte da natureza e tem de viver com ela, até como questão de sobrevivência própria.
O papo de dominar a natureza é tão tosco e arcaico, quanto o discurso da obsolescência programa que só servem para gerar lixo sobre lixo, até que nos enterre vivos no chorume.
Até a consciência no condomínio, foi maior. O solo voltou a ter capilaridade, com criatividade, o discurso de sustentabilidade que tem enriquecido muito pilantra e cada vez mais, o mundo está sendo degradado, como se a crise ambiental fosse uma brincadeira, deixou de ser utilizado para autopromoção, para ser praticado.
Aos poucos aquele sítio anterior ao aglomerado habitacional, foi voltando a recuperar os recursos hídricos, inclusive, a floresta de frutíferas, mesmo rodeando locais humanos, o que é possível, é só mudar a visão de mundo.
As crianças puderam viver de certa forma, como se vivia no mundo, antes dessa sanha de destruir tudo, para implantar o “progresso”, aquela estupidez que dizia que poluição era sinal de prosperidade,  extinção de espécies da fauna e da flora, sinal de vitória humana sobre o mundo. As contas com supermercado e farmácia até diminuíram. Ao invés de suco de fruta em recipiente longa-vida,  fruta no pé. Ao invés de bronzeamento artificial, brincadeiras no lago. Tudo mudou, como se uma lama ruim tivesse deixado de infernizar uma comunidade inteira.     
O condomínio que até então, era um lugar onde as famílias se isolavam das outras e até em casa, cada qual se trancava nos quartos, voltou a ser um lugar de convívio real. As redes sociais passaram a ser menos importantes, para se fazer amizades. A comunicação pessoal trás muito mais informações, o olho no olho, a pela na pele, o arrepio, o corar, a linguagem corporal.
Mesmo saindo de cena, Thamires ainda se revirava no túmulo, par não aceitar os rumos que tomou o “meu” mundo, como considerava tudo.
De repente, quando o viúvo foi ver as mensagens no seu celular, estava lá.
- Saudosismo!
Procurou o celular da defunta, pois o número era dele, não encontrou. Nova mensagem.
- Thamires. Estou na pista!
O marido comunicou o fato às autoridades e foram desenterrar Thamires. Estava mora, mas com o celular no ouvido e uma cara de ódio enorme e os dedos tesos que denotavam ódio intenso.
O viúvo então entendeu algo simples. Às vezes se odeia o próximo, por não se alcançar o nível em que o próximo está. Tem quem queira se manter no lugar-comum a vida inteira, e ao invés de se preparar melhor para ultrapassar quem odeia, quer nivelar todos por baixo, por preguiça e/ou mediocridade arraigada.
Thamires, finalmente está no seu nível real. No subsolo. Teve tudo para deslanchar, para ir mais longe, dinheiro, tempo e até disponibilidade., mas preferiu se acomodar, a retransmitir a ideia dos outros, sem discernir se era mesmo o que era ideal para todos. Preferiu fazer tipo a viver com toda a experiência que isso nos trás, uma vida frívola e artificial que se sustentava apenas na imagem.
Antes do celular desligar para sempre, uma única mensagem.

- Me esqueçam!            

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