THAMIRES
CADERNO 4 6 de agosto de
2015
Do fruto de
uma foda – o que soaria grotesco para uma burguesia que a cada dia se parece
com a aristocracia nos estertores do Feudalismo, quanto menos poder, mais
tentava se destacar com esnobismo até certo ponto aviltante às classes mais
baixas -, nasceu uma garotinha, como tantas, mas diferentemente de tantas
outras, cercada pelo fausto, contradizendo o Nascimento do Menino Jesus que era
a pura contradição e seus seguidores apenas contradizem o que disse o Pastor.
Tudo era
cercado de pompa e circunstância, a menor cagada, era motivo de uma penca de
serviçais se postarem para servirem.
A escolha
do nome foi outro ato que teria de denotar poder, desde a Certidão de
Nascimento.
Quando a
civilização adotou o nome próprio, queria um meio de diferenciar X de Y, mas no
seio daquela família, era tinha muito mais significado.
O nome em
si, já trazia consigo, além da identificação, todo significado de augúrios e
até de sorte, de sucesso, segundo a Numerologia. Cada letra, como uma nota na
escala chinesa das dinastias, significava muita coisa e a nota errada, podia
ensejar a morte do imperador, o que levava o autor à morte, sem apelação.
Naquele
momento, existia em si, o sentido de eternidade, como se a vida e a moda,
pudessem perdurar até depois da morte. Espera!
Thamires,
nome hebraico que significa Palmeira, na Numerologia, 6, Anseios da Alma, no
Tarot, o Carro, etc., e tal.
Thamires
que desde muito criança, entre parentes e amigos do casal, já era chamada
Princesinha, apesar da estória se passar em pleno Capitalismo .
Torno a
reiterar que o Capitalismo atual está se portando e comportando como o
Feudalismo em seus últimos momentos. O fausto das classes abastadas que têm de
ser anunciadas, não bastar ter, a miséria da grande maioria, a fuga da
realidade com extremo hedonismo, a busca desesperada por um sentido na vida,
num mundo fora da realidade e uma falta de noção nas consequências de seus
atos.
-...-
Thamires
foi amestrada para ser possuidora, mesmo que as coisas não fossem de seu
interesse, mas desejadas por outros, tinha de possuir, não por uma necessidade
sua, mas para mostrar que podia mais do que os outros. Era uma mania quase
doentia e vivia doentiamente.
Enquanto
crescia, foi consolidando aquele ar de classe abastada de ter a imagem pública,
saber posar para a foto, também se segurar para não se mostrar integralmente,
quando desnecessariamente, a imagem que não condiz, muitas vezes, com o que
realmente está sentindo internamente.
O pessoal
que está fulo com alguém, mas gritam:
- Olha o
passarinho!
Todo mundo
mostra os dentes, como se a lente, fosse o dentista. Só se aparece em foto sem
sorrir, quando não se é avisado, ou quando se é modelete em Manaus. Não tem uma
que sorria, parece que todas estão muito putas. Até podem ser, mas o processo
que foi aberto para investigarem-se esses agenciadores de modeletes que viraram
colunistas sociais e são regiamente pagos pela Prefeitura, Governo do Estado,
TCE, Câmara, Assembleia, TJ, sumiu, não se sabe se no Encontro das Águas, ou n’
alguma gaveta com teia de aranha
Isto é
Manaus, como diz o título de um programinha muito chulo. Autoridades são os que
nunca foram julgados, mesmo por crimes hediondos. E se fica refém de gente que
arrota dignidade, não por não ter manchas na história, mas por saberem com quem
fazer amizade. É o próprio Faroeste Caboclo. Não tem mocinho, só gente que se
vale da prescrição de tempo. E aprende a fazer pose em Brasília, mas no
Amazonas, é grileiro, pedófilo, alcoólatra, drogado, dependente de bingo, enrustido,
ou seja, o Diabo com pele de anjinho.
Tanto
sorriso para a foto, significa um povo feliz, como o pessoal do Butão que acha
que tomar no Butão, é felicidade total.
Talvez o
INTELIGÊNCIA MULTIFOCAL possa nos ajudar a entender o cidadão, como ator, no
circo da vida.
É possível que haja
muita gente vivendo exteriormente em excelentes condições sociais, mas vivendo
internamente uma verdadeira miséria emocional. É possível também que haja
pessoas que vivam externamente em condições miseráveis, mas são emocionalmente
livres e alegres.
Cada momento
que passava a Princesinha tornava-se incapaz de se relacionar, com alguma
empatia e em condições interpessoais, com os outros.
Aprendeu a
representar papeis de acordo com a plateia, como se a vida fosse uma novela,
onde o papel principal, sempre lhe coubesse.
Odiava
repartir brinquedos, pertences, não, já havia passado da infância, onde numa
fase, é normal a criança ser individualista. Mas, em momentos específicos, com
quê, para angariar pontos na caderneta do Senhor, ou simpatia com os
desavisados, era de um altruísmo desmesurado. Tão filantropa que era pouco
visto, na idade dela.
Mas como
sempre diz esse pessoal: “O Senhor é meu pastor!” E a falsidade minha meta na
vida.
Quanto mais
crescia, o que nem sempre se faz acompanhar de amadurecimento, mais agia como
um general estrategista, em uma guerra sem fim e sanguinolenta.
Se via
alguém que pudesse servir de escada para suas pretensões para ascender, como
amigo, ou namorado, não media esforços, não bastava o simples encontro casual,
onde a relação se fortalece com o tempo. Era uma questão de estabelecer metas,
táticas, até prosperar no que desejava.
Thamires
era a própria imagem das classes abastadas. Pouco discernimento sobre a
realidade que a cerca, mas uma postura cheia de luxo, de desqualificar tudo o
que acha que não lhe possa favorecer. Não tenta alcançar os fatos, acha que faz
mal, destrói. Ainda mais se achar que está num nível acima, nivela tudo, por
baixo, justamente por não atingir acima de onde está.
Não foi à
escola, muito caras, diga-se de passagem, para deslindar a realidade, mesmo
porque denotaria muito esforço intelectual e até físico. Escola burguesa, mesmo
quando oferece melhores níveis de aprendizagem, é lugar onde as novas gerações
da burguesia aprendem e consolidam seus vícios, até de caráter. Por isso,
muitas vezes se veem pessoas arrogantes e prepotentes, saídas de escolas onde
deveria ser oferecida a melhor Educação, aquela que transforma e cria
pensadores, sem o menor conteúdo para uma conversa mais profícua, senão sobre
futilidades, fofocas e futricas.
Talvez mais
uma vez o INTELIGÊNCIA MULTIFOCAL possa ser útil para alguma compreensão.
A democracia das ideias
é tão importante, que qualquer ser humano deveria expor e defender suas ideias,
em quaisquer níveis das relações humanas, mas nunca deveria impô-las como
verdades irrefutáveis.
[...]
As salas de aulas,
mesmo em países que mais honram a democracia política, nem sempre são albergues
da democracia das ideias, mas do autoritarismo das ideias. Por isso, as escolas
formam homens que retransmitem o conhecimento, mas que não são pensadores
humanistas.”
A postura
de classe estava se consolidando em Thamires.
Sabe aquele
pessoal que vem com ideia fixa, como o cachorro do Obelix, mas se acha mente
aberta? Nada pessoal, é medo de perder a boquinha, com diálogos que possam sair
do controle.
O que tinha
à profusão era uma arma utilizada para se mostrar superior, mas escondia um
grito que não podia ser escancarado de clemência e humanidade, dos demais, que
tinham mais argumentos ao confrontarem-na.
Thamires
via uma artista com um sapato específico, fazia de tudo para mostrar que também
podia usar aquele artigo, a exclusividade que não faz sentido, mas faz muito
bem para quem só sai de seu complexo de inferioridade, mostrando o que pode
comprar e mostrar exteriormente. Quando não podia de uma forma, apelava até
para a pirataria.
Dirão
alguns que é coisa da contemporaneidade, lança-se um modismo, o consumismo tem
de se alimentar na busca do ter.
Diria que
baseados em estudos e artigos científicos que os povos autóctones canibais já
faziam isso, quando se alimentavam da carne do guerreiro adversário, ou
utilizavam pedaços de dentes e de ossos pelo corpo, tentavam extrair do outro
que fora vencido, suas melhores qualidades, como valentia e perseverança, para
os tornar muito mais fortes.
Quando a
sociedade está estagnada, tem que diga que se faz uma releitura do passado,
para buscar originalidade, na verdade, é falta de imaginação pura e simples.
Hoje se faz
releitura da moda, dos automóveis, dos meneios e maneiras e, principalmente,
uma releitura da fuga de uma realidade que parece não oferecer satisfação
alguma, mas ninguém quer ser quem vai dar murro em ponto de faca.
A relação
trabalho X vida, família X empresa, tudo, está ruim, mas é o que está posto,
vai se levando, empurrando com a barriga. E quando a realidade não faz nexo
para quem nem tenta entender o que se passa, buscam-se pontos de fuga, cada vez
mais utilizados. Foge-se pela religião, o que se tem mostrado de pouca valia;
buscam-se as drogas, o que também tem sido pouco; então se procura a alienação
em uma vida virtual, mesmo assim, ainda é pouco e é preciso a cada dia
inventar-se novas abstrações, para não
se enfrentar a realidade que parece nociva à vida, com alguma qualidade de
sanidade mental.
Culpa-se o
progresso, o stress, o karma, diz-se que é assim mesmo, mas na
verdade, é uma conformação quase covarde, que sempre espera que seja feito o
que se tem capacidade de fazer, de fora, nem se for de fora, do Além.
Thamires
tinha suas bugigangas industrializadas, como uma forma de se colocar acima dos
outros. Mesmo sabendo-se que celular na orelha de crianças, podem trazer danos
à consolidação dos ossos cranianos e à massa encefálica, os pais dela, quando
nem sabia falar direito, presentearam-na com um telefone móvel topo de linha.
Quando adolescente símbolo de poder, era os pais presentearem os filhos até
púberes, com automóveis. Dissessem o que dissessem, dizia que seus filhos, no
começo da adolescência, tinham consciência, eram adultos, apesar da pouca
idade. E assim o fizeram. Hoje, símbolo de status,
é dar aos recém-nascidos tablets, smartphones, para acessarem as redes
sociais. Como diziam, até para se enganarem: “O tempo é agora, a vida é aqui
mesmo”. Mesmo que fossem frequentadores assíduos de templos religiosos. Mas é
típico das classes mais abastadas, quanto mais conseguem adquirir bens
materiais, perdem cada vez mais, a capacidade intelectual.
Hoje, não
só bebês, têm “acesso” às redes sociais, como cachorros e gatos. É como
comparar com o tempo em que a nobreza tinha sua maneira de pegar na xícara, de
dançar, de sentar, mas não significava nada mais do que esnobismo, o que não
salvou grande parte que acabou na guilhotina.
Mas o que
vale mesmo, quando se colocam crianças e bichos de estimação no que nem sabem
que existe, não é para fazer o bem a esses seres, mas é uma maneira de inflar o
ego.
Ao invés de
se chamar atenção pelo que se é, compra-se o que não nos pertence, mas que
possa se o centro das atenções. Mesmo que o sapato deforme a coluna, a bolsa
gere dores nos ombros, os óculos piorem a visão, o que se busca, é mostrar status, como quem vai ao culto religioso
e faça de tudo que saibam, inclusive os ausentes, que deu o maior dízimo,
milionário. Não importa se a filosofia pregue outra coisa, o dogma diga que a
matéria é passageira, o imediatismo tem de sobressair em qualquer situação.
Esse
consumismo hoje, não é só feminino, como se pensava antes, é também masculino e
homossexual, transexual, a sexualidade que se considerar. Hoje se vende mulher
para consumo. A Fernanda Lima com um abdômen de estivador, um corpo horroroso,
uma antipatia visível, mas é artigo de vitrine que muitos gostariam de pelo
menos, passear de mãos dadas, para que os outros possam invejá-lo e só.
Thamires
era o que se podia dizer, neocanibal dos ditames passageiros e fugazes de seu
tempo.
Seu closet não era um lugar onde guardava
seus pertences, principalmente do vestuário, parecia mais um depósito de
objetos comprados por impulso. Muitos, com a etiqueta original ainda intacta.
Eram
milhares de roupas, centenas de aparelhos eletrônicos, trocados quando aparece
um novo que muda só a cor, tanta coisa em mãos de uma única pessoa, não para
uso, mas como uma questão de se mostrar no topo da pirâmide social. Pelo menos
é uma maneira dos outros o terem dentro do estereótipo do poderoso, de tudo de
bom lhe pertence, desde a ética, até o poder de se desvencilhar dos problemas.
E na grande maioria das vezes, não é bem isso que se conhece.
Todo esse
esforço de comprar, mas não se aprimorar o conhecimento, , é que muitas vezes
acaba-se não sabendo manipular um aparelho simples, pois são tantos símbolos e
muita gente não lê, nem manual de instrução e reclama do que é problema só seu.
É tanta força para aparecer por aparecer, que a pessoa tem milhões de
seguidores no mundo virtual, onde possa se apresentar com retoques, sem saber
para o que serve ao menos, o Onofre, aquele símbolo que sempre vem nos produtos
eletrônicos importados. ON/OFF.
É moda
falar sustentabilidade, até ao falar da diarreia que o hospitalizou,
Thamires foi à graduação para aprender
como usar a palavra SUSTENTÁVEL. Assim, até a moda da especialização torna-se
consumismo que no fim, acaba em lixo.
Thamires
estava em idade, como muita gente tem essa definição muito corrente, de ter
relações duradouras, outro discurso ideológico muito arraigado e forte.
Queria se
mostrar, sempre, pós-moderna, o que isso queira significar, mas, mais uma vez,
sua postura tinha um ranço de passado. A vida era toda dentro de módulos, nada
diferente de antigamente. Dos 8 aos 18, tempo de estudo. Dos 20 aos 23, orar
por um marido. Dos 25 aos 30, parir. Dos 50 aos 70, sair de cena para torcer
pelas vitórias dos pupilos. Uma rigidez quase militar, mas de exércitos de
conquistas feudais. Thamires, volto a lembrar, não era exceção, era quase a
norma burguesa dos tempos ainda contemporâneos. A falta de procurar conteúdo faz com que se
repitam os mesmos erros, sem ao menos perceber-se como estúpidos que não são
nem presentes, são ultrapassados.
A única
regra, ou disciplina que a sociedade burguesa segue sem dar desculpas.
Passou de
Princesinha, para Rainha, Rainha no mundo virtual. Não que acrescentasse alguma
coisa, muito pelo contrário, muito do que transmitia, era apenas imitação
descarada do que via nas páginas dos outros. Nem ao menos dava os créditos a
quem tinha sido colado. Mas era assim que se sentia poderosa.
Em suas
festas de aniversário, como tem sido comum, também às formaturas e até
encontros de trabalho, era quase uma montagem teatral, onde o tema escolhido,
tirado de algum sucesso de momento, acabava se tornando mais importante do que
a celebração em si. Não há mais uma festa, onde não distribuam perucas, coroas,
óculos, colares, às vezes, vira uma festa de gala de fantasia mesmo. Como se a
festa em si, fosse menos importante, do que a representação. A felicidade só
pode existir com penduricalhos nas pessoas.
De repente
a filha faz 15 anos, o pai que é homofóbico na alma, tem de requebrar no palco,
a mãe, já em estado de putrefação física, deformada fisicamente, desde o
primeiro parto, tem de representar com uma tanga enfiada no orifício, para
satisfazer a garotinha que quer ser a protagonista do filme que viu, ou da
imagem do Whats APP, tudo bem artificial, nada que seja ela, nada que ela se
apresente, como é.
Quanto mais
ostentava, mais se mostrava sem originalidade alguma. É como o Caldeirão do
Hulk que imita os programas assistencialistas das TV’s à cabo, vindos de fora,
mas odeia o Bolsa-Família, por ser assistencialista; o Faustão que imita a
Dança dos Famosos de maneira bem rasteira, mas fica parecendo todo mundo muito
tão original.
Era quase
uma personagem de contos de fada, de tão artificial que se mostrava.
Aos 15
anos, refez todo o cenário de um filme que viu na Sessão da Tarde, sem contar
que contratou atores de Malhação, para ficarem como bibelôs de cristal, onde
ninguém podia pegar, nem chegar perto.
No
aniversário de 23 anos, contratou a peso de ouro, um presbítero midiático, bem
famoso, daqueles, tipo Padre Marcelo Rossi que usa o hábito, para ser
celebridade e é tão fora dos dogmas que aparece em público dizendo que está com
depressão, ou seja, coisa de quem não acredita num Ser superior, de que este
mundo é só uma passagem. Passagem para ele é outra. Ele utiliza em outra
posição. Mas a celebridade religiosa que contratou, só pregava em Inglês. Nem
ela, nem ninguém, entendia bulhufas, mas, mesmo assim, fazia aquele ar de
compenetração, quando ele levantava a mão, todos levantavam juntas, mesmo sem
saber se era continência nazista e se fazia aquela cara de “oh Jesus”, que viam
nos programas midiáticos religiosos. Algo assim como se o cara estivesse com
prisão de ventre, mas ao mesmo tempo, tendo alguém fazendo sexo anal com esse
pessoal, não se sabe se riem, se choram, se gostam, o se estão gozando.
- Oh Pai!
- O que
foi!
- Nada não,
é só uma maneira de dizer!
Já estava
em idade de casar, como se isso existisse. Até os 18 anos, ninguém tem
interesse pelos outros, sentimental e sexualmente. Meia-noite e um minuto,
depois disso, pronto, abatia-se aquela vontade imensa de casar, de meter o pé
na jaca.
A empatia
para se buscar uma relação com o outro, não conta. Inventa-se uma necessidade
de colocar quem quer que seja, dentro daquele traje que se fez. Não é o homem
que faz a roupa, mas roupa já está pronta para vestir qualquer um. Não importa
se Joaquim tem 2 metros de altura, se tem 1 metro e meio, se pesa 60 quilos, ou
180, se usa camisa 2, ou gola 5, tem-se de casar, depois se dá um jeito na
porcaria que se colocou em casa.
Os amores
burgueses que são abençoados no matrimônio por Deus, acabam quase sempre em
divórcio.
Thamires se
achava uma grande estrategista, mesmo sem ao menos ter noção do que é isso,
como dizem por aí: “uma imagem vale mais do que mil palavras.”
Não se
precisa capacidade para nada, apenas saber construir um avatar, um estereótipo
que seguir.
De repente
as amigas do grupo social de Thamires estavam alvoroçadas por causa de um
forasteiro que pousou no pedaço. Nem era o perfil do garoto que ela gostava,
mas, por ver que as outras gostaram, entrou no páreo.
Outro traço
da burguesia, é que nunca sua vida é algo aleatório, é sempre uma missão a cumprir,
em nome do Todo Poderoso. E como se pensa assim, vive-se pouco o que se é,
quase tudo que se faz, é para mostrar aos outros.
Thamires
usou de todos os golpes para “ter” o forasteiro, pois era uma forma de mostrar
poder. Pois é, até em se tratando de relação interpessoal sentimental, transforma-se isso, em propriedade privada. O
artigo “meu”, não se restringe só a bens materiais, é uma condição de vida.
“Meu”
animal de estimação, - mesmo em se tratando de um ser vivo; “meu ” espaço; “meu” cônjuge; “minha” família, em suma, quem
mais usa o artigo “meu” e “minha” mais poderoso parece.
Thamires queria chamar aquele troféu, o
forasteiro, de “meu”, disputado à tapa, para se sobressair entre quem chamava
de amiga. Imagina!
Venceu a
batalha, mas aí acho que ainda era pouco, queria que o “amor”, demonstrasse em
público, todo o amor por ela, nem se fosse só para o público e nada para ela.
Era assim
que ela via nos filmes sentimentalistas, que uns chamam de “água com açúcar”,
outros, de “lindos”.
Logo se
tornou um “amor” angustiado e grudento, como via nas novelas, onde o casal já
mora junto por 20 anos, mas se beija a toda hora, ardentemente e ainda hoje, a
esposa, sempre submissa, vai deixar o marido no portão e mesmo que já tenham se
beijado, sem escovar os dentes, de novo se beijam lascivamente no meio do
trânsito, como adolescente que só tem tesão de se beijar, no meio da rua, sob
um sol de lascar.
Mais de 6
meses de namoro, o forasteiro ainda mandava flores, escrevia poesias no cartão
que acompanhava, até mostrar todo o seu “amor”, de joelhos, para demonstrar
toda sua paixão.
Paixão?
Seis meses e ainda é paixão? Sim, no Brasil ainda se confunde paixão com amor,
tesão com vontade de casar. De novo, pelo pouco conhecimento de tudo que as
pessoas têm, mesmo se arvorando a intelectuais.
Um dia o
casal viajou à França, é que as revistas e blogs, sobre amor, diziam que só se
pode amar em Paris. E se em Paris, também não basta se não tiver uma champangne para estourar, mesmo que
estourar champagne, interfira no
produto e essa mania, é propaganda muito bem paga, para divulgar a bebida, nada
mais do que isso. E não basta só isso, algo que só possa ser vivido só por quem
está na relação, é preciso mostrar aos outros que se ama, mesmo que a sós, cada
um fique no seu lado e o cara seja brocha e a “amada” seja frígida. Não basta
viver, é preciso mostrar que se está vivendo.
Um dia no
meio s do desfile do 14 de julho , em pleno Champs
Elisées, justamente quando todas as câmeras e microfones registravam o
discurso do Comandante, ele se postou aos pés de Thamires , aproveitando que
aparecia no campo de visão, e, como
muitos, sem a menor originalidade, recitou um discurso apaixonado que colou do
Google e como se tornou mister, sacou do bolso uma caixinha revestida de veludo
que continha um anel caríssimo.
Entre ais e
uis de quem é levado a achar tudo lindo, para não mostrar, nem discutir suas
ideias, até infantis e imaturas, de repente, o cavalo que desfilava e passava
por trás das câmeras e pela frente do casal, cagou na cabeça do “enamorado”.
Como sempre, no afã de desqualificar com tudo o que não concordava, mesmo que
ela estivesse equivocada, mas como já disse, ela se achava melhor e superior a
todos, bradava em Português em plena Paris, que a Arma da Cavalaria era
“saudosismo desnecessário”. Ela nunca,
ao menos, estudou sobre a atuação das Forças Armadas, já se arvorava a
entendedora e lutadora pelo fim dos transportes, mas não o fim do militarismo
em si. Totalmente discrepante, como muitos. Era contra o saco de lixo jogado na
rua, mas não discutia a lixeira fora dos padrões. Era contra as igrejas
neopentecostais, mas não permitia que se discutisse sobre as religiões em
geral, atrapalhando o mundo real.
Gente que
discute Ecologia, Ciência, Política, Economia e tudo o mais, sem procurar
formar ideia, só porque ouviu um lado da questão, sai querendo ser o fiel da
balança. E como todo estúpido que só sabe repercutir o que ouve dizer, já sai
rotulando. Rotulou logo a Cavalaria – que aliás, no Exército Brasileiro, tem um
hino que é sonífero e brochante, de tão lento – de “saudosismo”. E o pior, se perguntasse se tinha ideia melhor,
ou ao menos, diferente, mostrava sua nulidade em ser, ou do ser. Sei lá,
entende?
O cavalo
não cagou só na cabeça do babaquara, cagou aquela representação que era apenas
mais uma imitação, de tantas que se espalharam através do mundo. De repente um
babaca baixa na frente da vagina de uma tapada e todo mundo pensa que vai
chupar no meio da rua, não, é para perguntar se quer casar. Eu prefiro foder.
Se eu ficar de joelho na frente de uma mulher, eu chupo. Acho difícil pedir em
casamento.
Foram às
pressas ao hotel, para pegar o jato à sua disposição para irem à Las Vegas,
para assistirem à duas peças que, em separado, tratavam da vida de Elvis e de
Marilyn Monroe. Ele travestido de Elvis, ela de Marilyn, mas isso, de maneira
alguma, era saudosismo. É ser antenado com seu tempo. Era aceito como coisa de
fã, mesmo que os ídolos nem tenham sido de sua época.
Bem, depois
desta peripécia pós-moderna toda, resolveram casar no verão, em Ibiza. Era
imprescindível que fosse com um rabino. O único que conseguiram, era um que se
jogou na libertinagem da estação, porque iria servir, depois dali, em Israel e
podia ser sua última vez de curtir a vida, a celebração da luxúria, justamente
em uma Espanha que até hoje se notabiliza em ser reacionariamente cristã e foi
quem ajudou a espalhar a causa carola pelo mundo. Mas se não fossem assim, não
seriam cristãos. Seriam sãos!
Perguntaram
como ele iria enfrentar o Dia do Juízo Final, participando de tanto desrespeito
ao corpo e ao próprio mundo ofertado por D’ us.
- O Dia é
hoje, sem juízo. No final a gente pede perdão.
Aliás, o
faz de conta da vida burguesa tem disso, juras de fé, juras de amor, juras de
sinceridade, juras de tudo, mas tudo da boca para fora. Nem se precisa procurar
o léxico, para saber o significado de dicotomia, o discurso dessa gente não
bate com a prática. Vide o tal de 7
Pecados Capitais que um Papa colocou como código de conduta aos católicos e
quem não observar, vai para o Inferno - e não é na música do Roberto Carlos,
antes de só fazer música para velha desesperada e velho enrustido que antes de
morrer, ainda cria coragem e diz:
- Toma
macho! – que se acreditassem mesmo, inclusive os Papas, os Bispos e os Padres,
já estariam se imolando, por mentirem tanto, por procurarem tanta luxúria, por
terem ódio, muito ódio, principalmente contra quem não pensa igual.
Um amor que
em tempos de selfie, o que eu traduzo
como egoísmo infantil, tem de ser registrado até quando o casal está se
matando, cabe bem nos escritos de Pier Paolo Pasolini, em 1969, quando editou
TEOREMA, que dizia que essa prática, é típico registro de família
pequeno-burguesa, de ter de se fotografar a todo instante, para mostrar aos
amigos e dar satisfação à sociedade, que, pelo menos no momento da foto, são
todos felizes, inclusive juntos.
Como diz o
dito: “quem casa quer casa!”. Não importa se tivessem condições apenas de
construírem uma única casa, viram no sítio de fofocas que ainda é muito
atuante, como se ainda estivéssemos nas casas de famílias de clãs, onde todo
mundo fofocava de todo mundo, que a celebridade tal, tinha casas ao redor do
mundo, resolveram então, ter uma casa residencial que hoje não se chama mais de
lar, mesmo porque não existem mais, outra casa de campo ao mesmo tempo.
Tinham de
adquirir um espaço num condomínio Nem que fosse um cortiço com esse título,
apenas. Tinham de parecer que estavam podendo, como aquela brasileira no
estrangeiro, com uma taça de champagne
na borda da piscina que retirou a postagem, judicialmente, da internet e dizia:
- Andam
dizendo por aí que eu estou numa pior.
E
escorregou, tomou aquele caldo e voltou tirando águas dos olhos e se recompões
rapidinho, depois de dar muitas chupadas nas narinas, voltou a falar com voz de
locutora de motel, para completar.
- Se isto é
estar numa pior! Pô...rrrra!
Não, isso
não seria estar numa pior. O pior seria ter morrido afogada, no meio da
representação, ou se o patrão chegasse e desse as contas dela, durante a
gravação do vídeo.
Depois
dali, dizem que teve uma sinusite malvada. Engoliu mais água pelo nariz do que
tudo. Lavou o cérebro, tanto que deu branco. E voltou ao Brasil, com proposta
de ser celebridade e acabou esquecida na periferia.
Hoje,
coerência é algo tão sem validade, quanto usar ceroula. Pode-se inclusive
“causar”, sem se precisar completar a frase. Sem sujeito, nem advérbio de
tempo, assim como causar, tudo é um fim em si. O substantivo se transforma em
verbo, como “miguelar”, na verdade, a expressão da desinteligência total. Quando
não se tem nem um vocabulário mediano, ao invés de procurar preenchê-lo, que
nada, inventam expressões que logo outros mal informados repetem à exaustão,
como “muquifo”, que tem tantas expressões que significam o que tentam dizer,
como cafua, covil, casebre, moquiço, etc. Ou “magérrima” que pode ser dito,
dentro do que existe, magríssima, macérrima, só osso, famélica, anoréxica etc.
Parte do imediatismo, onde se formam milhões que não sabem o mínimo, mas saem
com um discurso danado. Se faltam
palavras, “deixa a vida me levar”, como se vivessem sempre nas bordas de um
furacão. Mas como dizia Seu Clóvis, para quem não sabe para onde quer ir,
qualquer destino é ponto de parada. Se a vida levar para uma queda d’ água
imensa?
Em pouco
tempo, depois de tanta demonstração pública de amor, o casal começou a se
desentender, por causa das contas a pagar. Sim, o casamento só é casamento,
quando o casal começa a dar conta das contas.
Sabe o
brasileiro que quando as classes C e D começaram a ter poder de compra, ele
começou a gastar mais, por conta do futuro, contar com o ovo na galinha? Pois
era como o casal. Quanto mais percebiam em seus trabalhos, mais gastavam. Mas
mesmo endividados, não se responsabilizavam nem a pau. A culpa é sempre de fora
para dentro. Como muitos brasileiros. Estiagem em São Paulo, não é por causa da
política desastrosa do Governo que queria se reeleger, a culpa é de São Pedro.
Culpa do desmatamento em volta dos recursos hídricos, nunca é da colonização
europeu-cristã, é culpa da falta de chuva, como se chuva fosse algum milagre e
não consequência da respiração das florestas, principalmente Amazônica. Até
quando uma relação se desgasta, nunca se pensa o que o casal deixou de fazer,
sempre se procura culpar alguém de fora que não tem nada a ver com a relação, nunca
jurou amor ao outro, só estava disponível em momento certo, na hora correta.
Thamires
como boa brasileira, ao ver a relação indo rapidamente para o ralo, com uma
dupla imatura, culpava tudo, pelas contas, pela inflação, pelo governo, pela
falta de educação financeira que não lhes foi proporcionada.
Aprendeu
com a mãe que já teve incontáveis relacionamentos que chamava de amoroso, só de
casamentos, na casa decimal, mas ainda hoje, culpa todas suas separações, por
causa dos outros. Não se tocou ainda que o problema é dela, quem casa como
brincadeira e se separa como se fosse o exercício de descarte de uma lata de
refrigerante, é que tem de parar e se analisar, ou pagar um profissional para
psicanalizá-la. Não é normal uma pessoal crer no casamento como um instituto
divino e não mostrar a mesma responsabilidade, com a sua.
Está
COMPUTARIA que o Batalha nomeou a torcida da Estatística no FUM e tempos
depois, um Senador apropriou para a Engenharia, dizendo que um “cursinho
daqueles, não teria capacidade de criar uma palavra dessas.” E ele, engenheiro
formado nas coxas, teria?
Thamires
viu que com a mãe, todas as vezes em que se separava, a família se unia e
denegria a dignidade alheira, a culpa sempre era do filho dos outros, então se
fez de vítima e esperava a mesma solidariedade familiar, consigo.
O que se
soube, sobre a última separação da mãe de Thamires, é que ela estava com cinco
garotões sarados e excitados na piscina, todos completamente pegando um bronze,
sem marcas, na hora em que o marido chegou, faltava buraco para enfiarem seus
membros. Até tentou falar com a esposa, mas ela não conseguia escutar nada.
Eram uns meninos tarados. Mas mesmo assim, com tantas evidências vivas, na hora
do divórcio, a culpa era do marido que por ser “louco”, não a satisfazia na
cama. A mania de se dar laudos especializados de louco e maluco, sem nunca ter frequentado
sequer, um dia no Curso de Medicina.
São
famílias que apenas ajudam a formar membros cada vez imaturos, que não
enfrentam a realidade, sempre procuram subterfúgios. Parece que nessas
famílias, há um manual de como criar culpados. Só não podem ser os seus.
Mitríades,
o primo do marido de Thamires que era rico de verdade, veio pasar as férias na
cidade
Assim que
soube, tramou nova maneira de fisgá-lo. Como digo, relacionamento muito cheio
de cenas públicas, não criam raízes. Não somam momentos juntos, é apenas uma
maneira de cada um viver seu individualismo, num matrimônio.
Se começam
como um troféu, ao invés de uma vida em comum, só podem acabar como se ainda
procurassem sua vida de solteiro, após o casamento. Aliá, burguês adora um
após. Nem para morrerem, acreditam piamente que esta, é apenas uma passagem
para outra vida. Devida! Espera!
Thamires
era amantíssima, amorosíssima, apaixonadíssima, mas amor, tanto para ela,
quanto para a mãe, ainda eram uma maneira de ascensão financeira. Nunca têm
preconceito com quem se ligar. Só não se ligaram, até hoje, com pobre. Mas vai
ver, foi falta de oportunidade. Elas nunca escolheram quem amar, mas
coincidentemente, só amaram gente com recursos monetários. Tem de tudo.
E quando
viram madames, acabam mostrando ódio em relação às putas. Hein? É, as putas do
baixo meretrício que ganham mal e porcamente, não pensaram em casar com homem
de posses. É uma questão de interpretação semântica.
Não
esperava que o primo tivesse valores e não desse a menor bola, para a mulher de
amigo e de parente. Não conseguindo seu intento, mais uma vez, usou da política
de denegrir a imagem alheia. O primo era
hipster, tinha umas ideias extemporâneas, era fora de tempo, tóxico, blá,
blá, blá.
Fofoca é
tão velha, quanto a prostituição, mas quem mais se vale delas, é quem se diz
atual.
O primo
soube que ela o estava desmoralizando, sem deixar perceber suas intenções,
reuniu a todos, da família e da família de Thamires, como uma despedida. E
quando todos estavam reunidos, deu sua versão dos fatos e aí, todos perceberam
que realmente a vilã era quem se fez de vítima.
Então meteu
o cepo.
- Para mim,
progresso só existe quando se acompanhado de saber. Sem esse sentido, é
estupidez.
Aprendi em casa que cada um tem de assumir
suas responsabilidades, até como uma questão de maturidade.
Sim posso ser visto com hipster, por mesmo, podendo, ter
consciência de minhas responsabilidades sociais. Planejo meu tempo, para não
contribuir com os engarrafamentos, quando compro meus carros, são híbridos,
mesmo assim, utilizo o transporte público, tento utilizar energia renovável em
casa, tratar a água de retorno.
Eu, mesmo com poder de compra maior, tenho uma
só casa e só adquiro o que necessito, vocês têm coisas que nem usam, para
mostrar, mais do que para ter para si.
Aprendia a ter consciência com o mundo,
justamente para não me tornar vítima da minha própria irresponsabilidade. Este
terreno quando eu era criança, era do meu pai e eu comia a fruta do pé, tomava
água direto do lago, me banhava no rio, podia pisar descalço no chão. De
repente, compram terrenos preservados, justamente com a propaganda de uma vida
próxima à natureza. A primeira coisa que os moradores que pagam caro, por essas
particularidades fazem, é cimentar e asfaltar tudo. Árvores, plantas, só
compradas em floriculturas, água, só em fontes que ficam espargindo o dia
inteiro, os rios e lagos, viram lixeiras, os nichos florestais, acabam dando
lugar a centros de jogos, cimentados também, enfim, pagam caro, não para
desfrutar, mas só para se fazer visto.
O que chamam de luxo, na grande maioria das
vezes, é uma forma nociva contra a humanidade, por quem quer ser exclusivo, sem
ser se tornar alguém que contribua mais com a sociedade.
Nenhuma fuga da realidade pode nos devolver
o tão decantado Paraíso Terrestre se não mudarmos nossas concepções e não nos
tornarmos realmente cidadãos.
Soluções existem, mas é preciso coragem para
sair da prática incondicional da mesmice, com desculpas até infantilizadas.
Quem não tem atitude, morre mordendo a própria língua.
Thamires
ouviu tudo calada, sem opor uma palavra.
Depois de
tudo, realmente o primo do marido de Thamires voltou para casa.
Assim que
entrou na aeronave, Thamires novamente criou voz.
Usou as
redes sociais para falar até bobagem: “Fala tanto em responsabilidade ambiental
e anda de avião que polui por mais de mil caminhões. Agora eu vou ter de perder
meu tempo, me preocupando com o mundo inteiro? Eu sou vencedora, eu pago para
fazerem para mim, não preciso me mover, eu pago.”
A mesma concepção
de muitas famílias, em relação ao professor, inclusive na graduação: “Eu pago,
então eu digo o que e como aprender. Ele é meu empregado! Eu que determino o
que estudar.”
Dias depois
de tanto ódio, Thamires foi internada com problema de circulação. O médico
alopata dizia que era por causa das veias. O médico da Medicina Tradicional
Milenar e Holística, dizia que sim, as veias estavam danificadas, mas a causa
principal era psicossomática. A energia gerada na alma, a estava danificando o
corpo. Aquela vida de aparência, sem estar realmente conectada à consciência,
estava cobrando a conta. Começava com desequilíbrio mental e acabava nas veias.
Mas não adianta curar as veias, sem curar a causa. Ali as veias ficam nos
trinques, abrem-se outras veias que sangram o ódio que assim como o amor, ou
qualquer outro sentimento, nunca atingem quem se quer atingir, mas pode nos
fazer mais felizes, ou mais doentes.
Thamires
foi internada no CTI, mas mesmo entubada, em coma, ainda pensava que a culpa
não era dela .
Lógico que
o bode-expiatório, tinha de ser o primo do marido, até por não ter se deixado
fisgar como peixe tonto.
Thamires,
antes dos 30 anos, ao invés de acumular seu primeiro milhão de dólar, deixou
marido, amantes, muita desavença, muitos seguidores nas redes virtuais e muitos
desafetos na vida real, onde não se pode mascarar, tratava muito bem o amigo
virtual, mas destratava o porteiro, o motorista, o mendigo, qualquer um que
achava subpovo.
O que vale
viver 10 anos a 1.000, se tanto faz, como tanto fez, uma vida superficial e sem
contribuir com a construção do mundo que acaba vindo ded volta, transformando
uma vida que pode ser plena, numa vida de merda?
No fim,
quando não deixou saudade, principalmente para quem tinha contato com ela,
Thamires, indiretamente fez a festa, justamente no seu enterro.
Justamente,
como um descarrego, o marido se desfez de todo o luxo, de todo o materialismo
da esposa, dando tudo o que pertencia à ela e entulhava grande parte da residência,
foi dado àqueles a quem ela desprezava,
espezinhava, muitas vezes como seres inferiores e pior, invisíveis, como
acontece muito com esses filhos de Deus, em relação aos seus iguais.
Já no
velório, o viúvo tinha um sentimento contrário ao sentimento burguês do pesar.
Apesar de ter perdido a esposa, sentia-se livre de carregar um fardo pesado nas
costas. Uma mulher que podia ser tudo, menos companheira, nunca solidária com
mais ninguém, a não ser consigo, Realmente a imagem de famílias, só havia da
porta da casa para fora. Era uma construção apenas dela.
O viúvo
reaprendeu a viver, não deixou de consumir, mas consumir o que necessitava para
si, não para mostrar uma casca vazia. Aprendeu a compartilhar de coração, não
como uma obrigação de ser bom, para cumprir metas filantrópicas, nas frentes
das câmeras.
E percebeu
que sendo humano, faz parte da natureza e tem de viver com ela, até como
questão de sobrevivência própria.
O papo de
dominar a natureza é tão tosco e arcaico, quanto o discurso da obsolescência
programa que só servem para gerar lixo sobre lixo, até que nos enterre vivos no
chorume.
Até a
consciência no condomínio, foi maior. O solo voltou a ter capilaridade, com
criatividade, o discurso de sustentabilidade que tem enriquecido muito pilantra
e cada vez mais, o mundo está sendo degradado, como se a crise ambiental fosse
uma brincadeira, deixou de ser utilizado para autopromoção, para ser praticado.
Aos poucos
aquele sítio anterior ao aglomerado habitacional, foi voltando a recuperar os
recursos hídricos, inclusive, a floresta de frutíferas, mesmo rodeando locais
humanos, o que é possível, é só mudar a visão de mundo.
As crianças
puderam viver de certa forma, como se vivia no mundo, antes dessa sanha de
destruir tudo, para implantar o “progresso”, aquela estupidez que dizia que
poluição era sinal de prosperidade, extinção de espécies da fauna e da flora,
sinal de vitória humana sobre o mundo. As contas com supermercado e farmácia até
diminuíram. Ao invés de suco de fruta em recipiente longa-vida, fruta no pé. Ao invés de bronzeamento artificial,
brincadeiras no lago. Tudo mudou, como se uma lama ruim tivesse deixado de
infernizar uma comunidade inteira.
O
condomínio que até então, era um lugar onde as famílias se isolavam das outras
e até em casa, cada qual se trancava nos quartos, voltou a ser um lugar de
convívio real. As redes sociais passaram a ser menos importantes, para se fazer
amizades. A comunicação pessoal trás muito mais informações, o olho no olho, a
pela na pele, o arrepio, o corar, a linguagem corporal.
Mesmo
saindo de cena, Thamires ainda se revirava no túmulo, par não aceitar os rumos
que tomou o “meu” mundo, como considerava tudo.
De repente,
quando o viúvo foi ver as mensagens no seu celular, estava lá.
-
Saudosismo!
Procurou o
celular da defunta, pois o número era dele, não encontrou. Nova mensagem.
- Thamires.
Estou na pista!
O marido comunicou
o fato às autoridades e foram desenterrar Thamires. Estava mora, mas com o
celular no ouvido e uma cara de ódio enorme e os dedos tesos que denotavam ódio
intenso.
O viúvo
então entendeu algo simples. Às vezes se odeia o próximo, por não se alcançar o
nível em que o próximo está. Tem quem queira se manter no lugar-comum a vida
inteira, e ao invés de se preparar melhor para ultrapassar quem odeia, quer
nivelar todos por baixo, por preguiça e/ou mediocridade arraigada.
Thamires,
finalmente está no seu nível real. No subsolo. Teve tudo para deslanchar, para
ir mais longe, dinheiro, tempo e até disponibilidade., mas preferiu se
acomodar, a retransmitir a ideia dos outros, sem discernir se era mesmo o que
era ideal para todos. Preferiu fazer tipo a viver com toda a experiência que
isso nos trás, uma vida frívola e artificial que se sustentava apenas na imagem.
Antes do
celular desligar para sempre, uma única mensagem.
- Me
esqueçam!
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